Séries:

Falando Sobre Talk Shows

Na semana que estive em Hollywood decidi que tentaria ir a três dos quatro principais talk-shows dos EUA: o Tonight Show with Conan O’Brien, o The Jay Leno Show e o Jimmy Kimmel Live, que são gravados na Califórnia. O primeiro que tentei foi o Conan, o único programa cujos convites já estavam esgotados há semanas (todos são de graça e distribuídos no website de cada atração). Por isso, me informei lá que todo dia pela manhã algumas senhas são distribuídas no portão 3 da NBC/Universal e foi pra lá que eu fui às oito em ponto, onde me deparei com uma fila já formada de umas dez pessoas. Uma hora e meia depois uma portinhola abriu e a produtora  apareceu com uns “stand-by tickets” numerados, que não garantem a entrada. Com instruções de retornarmos às 15h do mesmo dia, fui para a Universal Studios passar o tempo na esperança de ver os convidados Ricky Gervais e a banda Lynyrd Skynyrd que estavam agendados. No retorno, descobri que o auditório do Conan comportava cerca de 250 pessoas e que mais de 200 já haviam passado os portões do escaldante estacionamento onde eles nos mantêm. Felizmente 18 das mais de 50 pessoas que estavam na espera foram chamadas, dentre as quais este que vos escreve. Ao contrário da gravação de uma sitcom, que leva muitas horas, os talk-shows em si são quase inteiros gravados sem interrupções, num ritmo muito mais rápido.

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É uma pena, contudo, que a captação de qualquer imagem no estúdio é estritamente proibida e vocês não sabem o quanto eu queria tirar o celular para registrar para vocês o momento em que Ricky Gervais jogou uma caneca d’água no topete do Conan! Seguranças e pages ficam o tempo inteiro fiscalizando a plateia e, cada vez que alguém ameaça mexer em algum equipamento eletrônico, é imediatamente repreendido (até mesmo o senhor atrás de mim com um iPod sem câmera). Mais uma vez, embora o estúdio do Tonight Show seja tido como “enorme” comparado com os demais, senti novamente a sensação de que tudo na TV aparenta ser bem maior do que realmente é. Os cenários são incrivelmente pequenos ao ponto até de ser desapontador. Conan conduziu o programa com sua agilidade de costume, porém ele claramente mantém certa distância do público presente, evitando interagir com as pessoas antes e durante os intervalos. Além disso, fomos orientados diversas vezes a não atrapalhar com aplausos fora de hora (leia-se, quando aquele clássico letreiro escrito “APLAUDIR” é acendido), já que eles raramente editam o programa, ainda que não seja exibido ao vivo.

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Já no The Jay Leno Show, em Burbank, a experiência foi mais agradável por eu já ter o convite impresso da Internet, o que me economizou umas 3 horas de filas no insuportável sol (sim, eles também deixam a gente fritando no estacionamento!). Além disso, logo que cheguei fui recebido por um page que rapidamente se identificou como brasileiro ao ver a camisa da seleção que levei para tentar dar de presente ao Jay. Ele me deu a preciosa informação de que antes de cada gravação o apresentador vai pessoalmente fazer o “aquecimento” da plateia e é neste momento que ele atende algumas pessoas, recebe presentes e responde perguntas. Aí fui chamado no palco para entregar a camisa e Leno o tempo todo ficava se referindo a mim como “o Brazil”. Ele é extremamente simpático e agradeceu o presente várias vezes. Como aparelhos eletrônicos também não são permitidos, um fotógrafo com uma Polaroid tira nossa foto. O convidado principal não foi dos melhores, Rush Limbaugh, um radialista republicano e repugnante que foi se posicionar contra o “socialismo” de Barack Obama e sua proposta de plano de saúde. Pelo menos a tarde se encerrou com uma performance da belíssima Joss Stone (que cantou You’re The One For Me a poucos passos de mim) com o Smokey Robinson.

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No último dia do tour foi a vez de conferir o Jimmy Kimmel Live, que é gravado na Hollywood Boulevard em frente ao teatro chinês. Carismático, Kimmel é o menos badalado dos três apresentadores, mas o clima de sua atração é mais descontraído do que as demais, com um auditório menor, menos mecânico e um procedimento de segurança consideravelmente mais tranquilo (na NBC você se sente como um terrorista disfarçado o tempo todo, tamanha a obsessão de todos à sua volta). Nos três programas ficou evidente a noção de que aquilo é o verdadeiro show-business: existe sim a parte do entretenimento com as piadas e os números musicais, mas nos bastidores vemos como eles levam tudo muito à sério, com diversas reuniões de pauta a cada intervalo, milhares de produtores sinalizando pra lá e pra cá e um rigoroso timing para que tudo vá ao ar de forma impecável. Em certos momentos dá pra ver que rola muita tensão e que o trabalho de todos os envolvidos é intenso. De toda forma, foi mais uma enriquecedora experiência e à noite conferi o resultado de cada gravação na TV. No dia seguinte eles estão lá pra começar tudo de novo, igual todos nós. Hollywood definitivamente não me parece mais tão glamurosa quanto eu achava que fosse…

P.S.: No final de semana assisti a 44 episódios de séries para editar a Semana em Série, que virá em breve. Agradeço a compreensão, pois tudo atrasou com a viagem.

Bruno Carvalho
é crítico e especialista em TV, tradutor, advogado e fã de séries desde que foi fisgado por Friends em 1994 e hoje é o editor-chefe do site de séries mais seguido do Brasil! Contato: contato@ligadoemserie.com.br
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Postado em: 05/10/2009 | 0:01