Terra Nova: Genesis

Por Bruno Carvalho

Num futuro quase apocalíptico, a única esperança da humanidade é embarcar um seleto grupo de pessoas numa jornada épica em busca da salvação do planeta. Com esta sinopse, eu consigo me lembrar de um promissor piloto que se desenvolveu numa das melhores séries recentes da TV, Battlestar Galactica. Infelizmente, a ambiciosa, cara e problemática produção de Steven Spielberg (e mais uma penca de produtores creditados que passaram pela série e saíram) focou-se mais na criação de planos-sequência digitais e cenários grandiosos do que em um roteiro denso, inteligente e coeso. Em linhas gerais (afinal, é um piloto de duas horas), Terra Nova conta a história da família Shannon, que viaja 85 milhões de anos no passado para a era dos dinossauros com o objetivo de auxiliar um grupo de cientistas, biólogos, médicos, engenheiros e agricultores a recolonizar a Terra e evitar os erros que culminaram nas catástrofes globais que assolam o futuro.

Aí já temos o primeiro problema de Terra Nova: o paradoxo temporal, aquele elemento clássico da ficção científica que, dependendo como é utilizado, pode te proporcionar o novo LOST ou o novo Heroes. Convenientemente (ou não), os roteiristas simplesmente desistiram de ventilar esta possibilidade, pois, conforme, Maddy Shannon, a filha nerd adolescente do ex-policial e protagonista Jim Shannon, explicou em poucas linhas: “eles enviaram uma sonda ao passado e descobriram um outro ‘fluxo temporal’, que não altera o futuro”. Assim, descobrimos de forma rápida quase imperceptível que não foi uma “simples” viagem no tempo; eles também viajaram para um universo paralelo como o de Fringe, com a exceção de que a série criada por J.J. Abrams e cia. gastou um “tempinho” considerável desenvolvendo este conceito ao longo de pelo menos uma temporada e meia.

Com isso, o piloto de Terra Nova falha em estabelecer o próprio objetivo e o problema central abordado na série: a ideia é mudar o futuro e salvar o pessoal que ficou pra trás de alguma forma ou colonizar o passado remoto neste novo “fluxo temporal” e, assim que os dinossauros estiverem dizimados, fazer uma “baldeação” do resto da população pra lá? Pois é, mesmo com o excesso de diálogos expositivos do roteiro tratado dezenas de vezes, isso não ficou claro. E, ah, os dinossauros… Bem, criaturas CGI semi-fluorescentes e sem textura alguma que caminham pelos arredores do acampamento dos colonizadores deveriam soar ameaçadoras? De todos os problemas técnicos de Terra Nova, eles são os maiores (com o perdão do trocadilho). Mas o deslize dos [d]efeitos especiais até seria perdoável se o longo episódio piloto não gastasse tanto tempo focado em assuntos menores ou em frases de efeito sobre “corrigir os erros da humanidade”.

Boa parte do que poderia ser utilizado apresentando melhor os personagens, os conflitos e introduzindo o espectador neste novo mundo foi gasto com uma trama boba sobre adolescentes que fogem do perímetro para beber e arrumar confusão com os répteis até que os adultos precisam ser chamados – fomentando um conflito familiar efêmero entre os Shannon que vinha desde o “futuro” – e que fora logo resolvido ao fim do episódio. O fato é que todos em Terra Nova desempenham um papel padrão e engessado: o mocinho injustiçado e íntegro, o adolescente rebelde, passando pelo militar bronco (interpretado pelo ator Stephen Lang, que aqui reprisa seu personagem de Avatar, só que menos inspirado e mais bonzinho) aos “Outros” (sim, os mesmos de LOST), chamados de “peregrinos” ou “sixes”, desertores da sexta leva de colonizadores que possuem uma agenda própria.

O curioso é que os melhores momentos de Terra Nova foram justamente aqueles na Terra Velha, num futuro devastado, sem ar puro e comida fresca e com um rígido controle populacional. Até mesmo os aspectos técnicos como a ambientação e o design de produção seguiam uma linha mais caprichada e foi onde também tivemos os poucos momentos inspirados do roteiro. O drama não é um desastre total como as outras séries do Fall Season, pois é capaz de proporcionar um dosado entretenimento (especialmente com capítulos mais curtos), embora longe de ter um texto que mereça atenção ou uma repercussão mais aprofundada sobre política, questões sociais ou ecológicas. Isso é uma pena, pois os vários roteiristas, produtores e produtores executivos tinham um bom argumento em mãos e, nesta estreia, simplesmente não souberam explorá-lo em todo seu potencial. Tomara que a série cresça e supere este inflacionado piloto.

Terra Nova estreia no Brasil no próximo dia 10 de Outubro, às 22h, pelo canal FOX.

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