Breaking Bad: Face Off [Season Finale]

Argumentos Iniciais, por Davi Garcia

[com spoilers para os que ainda não assistiram]Este é o fim… De tudo que permanece, o fim.” Esse trecho de The End, música do The Doors, sintetiza bem a sensação de gosto agridoce que o excelente final da 4ª temporada de Breaking Bad deixa. Muito mais que a consumação do derradeiro e bizarro destino de Gus (em cena digna de Harvey Dent em Batman: The Dark Knight, diga-se), “Face Off”, episódio escrito e dirigido por Vince Gilligan (criador e produtor da série), marca, num tom muito forte e chocante, o fim do Walter White como conhecemos e sua transformação em Heisenberg de maneira aparentemente irreversível. “Eu venci”, diz o personagem de Bryan Cranston ao celebrar, no desfecho do episódio, o que ele julga ser o fim de uma terrível opressão física e sobretudo psicológica. E sim, ele realmente venceu, mas será que o preço a ser pago não é injustificavelmente alto demais mesmo para alguém que ‘só′ quer sobreviver ao caos de uma situação absurda?

Ao deixar evidenciada sua genialidade na orquestração do grande plano que culmina na morte de Gus (colocar Hector, em mais uma atuação magistral de Mark Margollis, para ir ao DEA só para atrair a suspeita do dono do Pollos Hermanos foi um estratagema de fato soberbo), Walter não prova que é melhor que seu ex-chefe/algoz, mas sim que é uma variação dele, tão imoral quanto. Essa nova face do Walter nos revela um homem agindo de forma fria e extremamente calculista e que, mesmo experimentando um conflito interno, não pensa duas vezes frente a ideia de colocar vidas alheias sob risco como alternativa para salvar a sua. E se isso já fica claro quando ele manda a vizinha entrar em sua casa sabendo que esta poderia ser morta, o que dizer então da decisão de envenenar o pequeno Brock para usar o evento como uma ferramenta para manipular Jesse e, por tabela, atrair Gus para a armadilha que lhe seria fatal?

Ao mostrar Walter e Jesse se livrando da principal ameaça que os assombrava, “Face Off” encerra uma etapa importante e de grande impacto no desenvolvimento daqueles personagens ao passo em que abre um cenário de aparente calmaria e serenidade, mas que sabemos guardar a iminência da confrontação de segredos terríveis na temporada final da série. Como Jesse, ainda atormentado pelos acontecimentos recentes, reagirá ao descobrir tudo que o parceiro fez pelas suas costas? E Hank, descansará sabendo que estava certo sobre o envolvimento de Gus no tráfico de metanfetaminas em Albuquerque ou seguirá alimentando sua curiosidade em relação à figura mítica de Heisenberg?

Quase perfeito (o único porém talvez esteja relacionado à logística que levou ao envenenamento de Brock), “Face Off” legitima uma temporada irretocável que soube dosar com impressionante equilíbrio e inteligência o suspense e a tensão ao longo de 13 magníficos episódios. Nessa perspectiva, no ano que expandiu ainda mais a jornada de um homem se arrebentando pra valer como o título livremente traduzido da série sugere, Breaking Bad nos dá um até breve deixando no ar não só a certeza de que é a melhor produção da tv na atualidade, mas também uma encruzilhada cruel para todos nós: como sobreviveremos sem os espetáculos semanais de Cranston, Paul e companhia por quase um ano?

Eu venci. – Walter White

Considerações Finais, por Bruno Carvalho

“To break bad” é uma expressão norte-americana que pode significar, sem se limitar, desafiar convenções, autoridades, driblar a lei ou, até mesmo rebelar-se completamente. E neste apoteótico final da 4ª temporada de Breaking Bad, a série finalmente cumpriu com integralidade sua premissa, transformando o outrora pacato e acuado Walter num sujeito sem escrúpulos e que não mais mede quaisquer esforços para atingir os seus objetivos ou derrubar quem estiver no seu caminho. Antes utilizando o câncer como desculpa pelos seus atos ou a inevitabilidade de certas situações para causar o mal, o Sr. White finalmente abraçou seu caráter escuso e francamente assustador. Vince Gilligan, aliás, conduziu uma temporada tão milimetricamente bem orquestrada, que há anos não vemos igual, seja na TV ou no cinema. Não apenas o roteiro, como toda a produção, fotografia e direção de Breaking Bad alcançaram níveis soberbos, mostrando que seus realizadores sabem muito bem utilizar os recursos narrativos à favor de contar uma boa história.

Sem repetir os pontos que o Davi bem colocou nos Argumentos Iniciais acima, basta dizer que desde os primeiros episódios todas as tramas e histórias paralelas contribuíram diretamente para o alcance do resultado final, evitando assim o recurso deus ex machina que muitos roteiristas e showrunners com menos talento utilizam para fechar suas histórias de forma mágica ou abrupta. Desde a irritação de Hank com sua mulher – fundamental para que o ex-agente da Narcóticos fizesse questão de comparecer à reunião com Hector – até o longínquo e traumático passado de Gus com o cartel, tudo se tornou peça chave para que o triunfo de Walter viesse à tona neste derradeiro capítulo. Além disso, ainda que fechando a temporada com um excelente cliffhanger (afinal, o que será de Walt e Jesse daqui pra frente? E o Mike, Hank e Skyler?), Breaking Bad encerra seu 4º ano de forma absolutamente satisfatória, dando o nó em todas as pontas soltas. Esta é a temporada que marcou também os melhores momentos dos talentosos Bryan Cranston, Giancarlo Esposito (o Gus) e, especialmente, Aaron Paul, que ciente da necessária evolução de seu personagem, construiu um Jesse Pinkman cada vez mais angustiado e, ao final, verdadeiramente arrependido pelo que fez de mal, ao contrário do seu parceiro no crime, Sr. White.

À Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood e à Academia de Artes e Ciências Televisivas: acima estão os atores, diretores e roteiristas que devem estampar grande parte da lista de indicados e, especialmente, vencedores de suas premiações para o ano de 2012. Indiscutivelmente.

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