Dexter: This is the Way the World Ends [Season Finale]

Parte I, por Bruno Carvalho

Sensacional; espetacular; fantástico“: estas foram as reações de vários espectadores sobre o final da 6ª temporada de Dexter, influenciados única e exclusivamente pelo impacto da cena derradeira. Mas a que preço? Cada vez mais que a série se distancia da criação de Jeff Lindsay, o drama perde os elementos que a consagraram no sucesso que é hoje e os novos roteiristas, liderados pelo showrunner Manny Coto (de 24), afundam a qualidade da produção com um texto indulgente e repleto de furos. Começo esta análise indignado pelo interesse romântico de Deb com Dexter – sim, irmãos (não biológicos, mas irmãos) – fato que jamais fora ventilado na série até o episódio anterior. Aliás, o desconhecimento sobre o passado de Dexter Morgan por esses novos escritores é preocupante, visto que em determinado momento desta temporada o protagonista exclama: “Sempre soube que algo poderia acontecer comigo, mas agora tenho que me preocupar com mais do que minha própria vida“, se referindo à potencial ameaça de Travis a seu filho Harrison.

Ora, como assim “agora”? E Rita, Astor, Cody e até mesmo Deb? Simplesmente se esqueceram das ameaças que estes já sofreram nas temporadas anteriores, culminando inclusive no momento mais apoteótico da série – a morte de sua mulher? Os atuais roteiristas demonstram não conhecer bem a própria obra que escrevem em continuidade. Isso sem falar no festival de cenas forçadas deste finale, como o escancarado Deus ex machina com o barco de imigrantes “Milagro” resgatando o herói (recurso narrativo pobre e que geralmente demonstra uma grave falha de preparação dos autores) e ainda o momento inexplicável em que Batista e todo o departamento esperam, do lado de fora, Dexter chegar numa cena de crime: justamente aquela em que o assassino pintou um enorme retrato com o rosto de seu algoz como a “Besta” na parede. Ora, como assim? Desde quando todos esperam Dexter para investigar um homicídio, ainda mais um que nem tem tanto sangue?

Falhas, falhas e mais falhas se acumulam nesta mesma temporada que postergou a “reviravolta” mais antecipada da TV (Gellar morto) e introduziu personagens que não acrescentaram em nada à trama, como o policial transferido Mike, a babá irmã do Batista e o tal “Irmão Sam”. Além disso, a quantidade de pendências deixadas “a resolver” no próximo ano (se lembrarem) foge do padrão das primeiras temporadas, que sempre deixou seus arcos bem fechados para iniciarem outros. Falo do caso do estagiário de Masuka – cuja trama ficou esquecida como a caixa contendo a mão roubada em cima da geladeira no apartamento do protagonista – , assim como desfechos capengas para as histórias de Quinn, Batista, Laguerta e Matthews. Foi neste ano, ainda, que tivemos a maior dose de diálogos expositivos até agora (“Me certifiquei que ‘Slice of Life’ estivesse no vídeo que mandei a Travis; Ele esperará me encontrar no meu barco”, como exemplo), fora as cenas em que os personagens mudam de canal e os noticiários estão justamente dando a notícia apropriada para o momento, o que aconteceu várias vezes ao longo da temporada.

É possível relevar tudo isso em prol da cena final com Debra testemunhando o ritual da morte de Dexter? É? Vamos analisar melhor este momento: após perder Travis no terraço do prédio (aliás, que amontoado de clichês a captura do bandido pelo mocinho, não?), Deb resolve ir para a terapia falar do súbito amor nada fraternal que passou a sentir pelo irmão e, encorajada pela terapeuta, decide contar a verdade a ele. A cena corta e vemos Travis deitado no Kill Room de Morgan na Igreja e, aquele que deveria ser a cena mais intensa e importante de toda a temporada – a morte do terrível DDK -, virou um plano conjunto (como bem apontou o crítico Pablo Villaça), misturando dois momentos cruciais da narrativa e imediatamente interrompendo-os com um abrupto corte para causar o efeito esperado do cliffhanger no público: “esqueçam todos os problemas, agora a Deb sabe, boom!

Não entendi também porque Dexter, sabendo que sua irmã pedira para que ele vasculhasse a igreja de DDK após a apresentação de Harrison, utiliza justamente aquele lugar como seu Kill Room. Transformaram o sempre meticuloso perito sanguíneo num grande e desleixado bocó – o que vai diametralmente contra a natureza do personagem. Se bem aproveitado, algo que a cada ano de Dexter fica mais e mais improvável, este cliffhanger potencialmente pode ser muito positivo para a série. É uma pena, porém, que ele tenha seguido as duas temporadas mais fracas do drama até agora. É preocupante saber que temos mais 2 anos garantidos pela frente nestas condições. Dexter Morgan é uma excelente criação de Jeff Lindsay que está sendo destruída aos poucos por autores que não sabem dar o devido valor a este grandioso personagem e sua história. Sou fã incondicional de Dexter, mas não coaduno, de forma alguma, com o que estão fazendo com a série.

Parte II, por Davi Garcia

Um season finale fraquíssimo com uma cena final impactante. No geral, assim foi “This is the Way the World Ends”, o derradeiro episódio de uma temporada conceitualmente interessante e corajosa (pelo tema central que poderia abordar e cuja promessa nunca se concretizou), mas que que com mais baixos do que altos, perdeu-se, sobretudo na reta final, na medíocridade de roteiros estapafúrdios e direções equivocadas que não só descaracterizaram (ainda mais) aquele que era um dos protagonistas mais complexos que a TV já produziu, bem como reduziu a pó qualquer peso dramático que a trama central da temporada desenvolvera até então.

Amparando-se pesadamente em ‘viradas’ convenientes, previsíveis e, em muitas situações, esdrúxulas – vide o já citado forçadíssimo interesse romântico por Dexter que Debra abraça sem uma lógica interna mais elaborada –  o desfecho da temporada trouxe a prova irrefutável de que os atuais responsáveis pela série não tem a menor ideia (ou seria capacidade?) do que fazer para recolocar a produção no nível de excelência que ela já teve. Com isso, salvo raríssimos momentos de inspiração como, por exemplo, aquele em que vemos o protagonista assumindo sua ‘santíssima’ trindade assassina (“Eu sou um pai, um filho e um serial killer“), o que sobram são muitos momentos constrangedores envolvendo bons personagens perdidos num emaranhado de tramas cujas resoluções trouxeram resultados absolutamente questionáveis ou simplesmente inexistentes (no que deu toda a historinha envolvendo o estagiário do Masuka?).

Sobre a cena final que encerra o episódio – e que de fato é promissora para o futuro da série (mas, por enquanto apenas isso) -, uma breve reflexão se faz premente para os que acreditam que ela representa o ponto de partida da tão esperada retomada de rumos da produção. Ainda que seja lógico, muitos parecem não ter atentado para o fato de que Debra ainda não descobriu que Dexter é um serial killer, visto que, por enquanto, tudo que ela viu e sabe é que o irmão matou alguém. Com isso em mente, resguardar certas expectativas para o que pode acontecer é salutar para quem, assim como eu, ainda se considera fã de Dexter. Afinal, com os roteiristas que a série tem hoje, esperar uma macarronada de quem só sabe fazer miojo é, infelizmente, uma possibilidade bem menos possível.

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