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Sherlock

por Camila Picheth

Todos gostam de um bom enigma. Quando crianças, somos confrontados com aqueles quebra cabeças de doze peças que demoravam para se tornarem cansativos. A partir de então, escolhemos ficar horas tentando finalizar um jogo de palavra cruzada ou Sudoku. Passamos a mesma quantidade de tempo assistindo filmes ou séries de mistério ou lendo um livro com o mesmo tema. A razão para fazermos isso pode variar, seja por gostar de seguir um caminho lógico que o leva a respostas absolutas e definitivas, por apreciar o desafio ou simplesmente para se sentir superior aos outros. Não importa a razão, o fato é que diariamente somos submetidos a algum tipo de enigma; e nós gostamos. No entanto, as histórias de Sherlock Holmes dão ainda mais um estímulo ao seu público: a competição. Estamos tratando de um dos homens mais inteligentes da história fictícia e conseguir acompanhar seu raciocínio na tentativa de obter respostas antes do protagonista é um exercício viciante. Juntando toda essa premissa com uma qualidade altíssima de roteiro, é impossível resistir a uma série como Sherlock, da BBC inglesa.

A série foi criada por Steven Moffat e Mark Gatiss, dois roteristas de Doctor Who, enquanto faziam suas viagens de trem até Cardiff para a produção do programa. Como grandes fãs das histórias de  Sir Arthur Conan Doyle, eles imaginaram como seria se o personagem vitoriano vivesse no mundo moderno, tendo toda a tecnologia atual ao seu alcance – e adesivos de nicotina no lugar do tradicional cachimbo. Não precisa nem dizer que a série é um total sucesso. Baseando-se nas tramas originais e misturando sua própria criatividade, Moffat, Gatiss e Steve Thompson (mais um roterista de Doctor Who) realizaram duas temporadas e já garantiram uma terceira, que somente deve estrear em 2013. Cada temporada possui três episódios de 1h30 de duração. Pode parecer muito longo, mas o ritmo e a agilidade de como a história é retratada faz com que o público não fique entediado. O que também contribui para que os episódios não fiquem chatos é a identificação do telespectador com os personagens, que resolvem os casos com bastante uso da internet e mensagens de texto. Sem contar que Watson agora é blogueiro. Mesmo com toda a modernidade instalada, alguns elementos como o chapéu característico de Sherlock e o número 221B gravado na porta da residência foram mantidos, não cortando totalmente o padrão canônico dos textos originais e dando o equilíbrio necessário para o drama funcionar.

Durante a primeira temporada, fomos apresentados aos personagens principais, nos acostumando com os seus relacionamentos. Também conhecemos Moriarty, o arqui-inimigo de Sherlock, que construiu o arco principal da trama. Nessa segunda temporada, tivemos um começo fantástico com a entrada da personagem de Irene Adler (interpretada por Laura Pulver, que fez a fada madrinha de Sookie em True Blood). Passando pelos cães de Baskerville e a participação de Russell Tovey (Being Human, Him & Her, Doctor Who), chegamos ao grande season finale, com conto de fadas, ideias plantadas estilo Inception e a participação de Katherine Parkinson (The IT Crowd). A trama foi baseada no conto “The Final Problem”, no qual Doyle decidiu mostrar o confronto de Sherlock e Moriarty e matar ambos. Olhando para as temporadas, fica claro que a série só poderia ter sido escrita pelos roteristas de Doctor Who, uma vez que os personagens são basicamente os mesmos. Temos o gênio capaz de resolver qualquer enigma e sair de qualquer problema (Sherlock/Doctor); o fiel companheiro, que embora não seja tão inteligente, é indispensável para a resolução dos problemas (Watson/Companions); o arqui-inimigo louco tão esperto quanto o protagonista (Moriarty/The Master); e o interesse amoroso também genial que gera cenas de tensão e trapaça (Irene Adler/River Song).

Em 2007, Moffat escreveu uma série de seis episódios relatando a história de O Médico e o Monstro chamada Jekyll. Apropriando-se de muito humor negro, o programa transformou um ótimo livro em algo tão bom quanto. O escritor está repetindo a dose em Sherlock em nível avançado. Com a falta de criatividade moderna, o remake de filmes e a roteirização de livros rotineiramente retalha os grandes clássicos. Mas quando uma adaptação é tão bem feita quanto Sherlock, ela deve ser colocada como referência. Com as brilhantes atuações, roteiro exemplar e consistente, essa é já é uma série obrigatória para quem gosta de séries de TV.

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Bruno Carvalho
é crítico e especialista em TV, tradutor, advogado e fã de séries desde que foi fisgado por Friends em 1994 e hoje é o editor-chefe do site de séries mais seguido do Brasil! Contato: [email protected]
http://twitter.com/ligadoemserie

Categorias: Sherlock

Postado em: 26/01/2012 | 11:57

  • Oi amigos do Ligado em Série,

    Quando a policial Donovan diz para Watson que Sherlock Holmes é um psicopata em percebi uma coisa: Watson é a figura que não deixa a previsão da policial se concretizar. Sem Watson, um Sherlock solitário acabaria se tornando exatamente o que Donovan disse: um assasino psicopata. Após se entendiar com a resolução de crimes ele acabaria por querer realizar o crime perfeito. Watson salva a vida de Sherlock. E vice-versa.

  • Vinicius

    Steven Moffat é também o criador da excelente série Coupling, que infelizmente teve apenas 4 temporadas de 6-9 episódios. Completamente diferente, uma comédia com roteiros geniais sobre casais e relacionamentos. Consegui comprar em DVD há poucos meses e estou reassistindo. Recomendo.

    Ou seja, o cara é genial.

  • Chris

    Eu estou totalmente sherlocked com essa série. Confesso q apesar de a 1ª temporada ter sido lançada em 2010, eu só fui saber que ela existia em junho do ano passado, depois q comecei a assistir Doctor Who. Fiquei fascinada pelo escritor Moffat, descobri q sem saber já tinha assistido Jekyll (que foi brilhante) foi então q comecei a ver Sherlock, e desde os primeiros minutos a série me surpreendeu. Sempre fui fã dos livros, já assisti vários remakes para a tela, mas essa foi realmente inesperada e bem interessante.

    Na primeira temporada vimos uma apresentação de todos os personagens q conheceços e alguns novos nos tempos de hj, já nessa segunda formos apresentados as emoções do sherlock, mal posso esperar pra ver o q a 3ª temporada vai nos trazer. Agora eu naum sei como vou conseguir aguentar toda essa espera, fico imaginando quem assistiu qdo a série foi ao ar pela primeira vez e teve que esperar quase dois anos para a 2ª. Pelo menos dessa vez parece q naum vai demorar tanto assim. Mas o Moffat já falou, a 3ª temp só vai sair qdo estiver pronta.. só nos resta esperar.

  • Davi Garcia

    Camila, parabéns pelo texto! Sherlock é obrigatória mesmo até para quem não é muito fã do gênero :)

  • Minha série favorita. Nunca fui um grande fã do Sherlock dos livros, muito embora tenha lido a maioria das histórias – além é claro de possuir a coleção quase completa em minha estante. Sempre tive preferência pelo detetive belga Hercule Poirot, da Dama do Crime Agatha Christie.
    Mas essa série é fascinante – acho que é uma das melhores adaptações que um livro já recebeu. As atuações estão impecáveis, o roteiro é muito bom e você nem percebe que já se passaram uma hora e meia.
    Seu único problema? Só ter 3 episódios por temporada. Mas se esse é o preço para ter uma qualidade tão absurda, então que fiquemos só com esses. Muito melhor 3 episódios ótimos do que 12 mais ou menos.
    Estou juntando o dinheiro pra comprar em BD – alguém sabe se tem extras?
    Abraços!

  • Ah, esqueci de dizer – achei o Sherlock da BBC tão perfeito, que não tive coragem de ir ver o Sherlock do Downey Jr. no cinema pra não estragar a minha imagem, sei lá. :P

  • Davi Garcia

    André, vale a pena conferir o Sherlock do Downey Jr por um motivo pelo menos: ter a certeza de que a leitura contemporânea do personagem é infinitamente melhor :)

    Sobre o BD, o da 1a temporada tem quase 4 horas de extras, incluindo faixa de comentários com Moffat e cia, além de um doc sobre o processo de modernização do personagem e até a 1a versão do Piloto (com 55 minutos de duração) que não foi exibido na tv inglesa. Resumindo: item indispensável na estante!

  • Carol Graziano

    Fui ver o filme ontem e, embora ele seja bem produzido, não alcança a qualidade absurda do roteiro da série. A genialidade dos diálogos, as interpretações brilhantes do Benedict e do Martin, a forma como as informações são atualizadas para o mundo atual… É tudo tão interessante e cativante que ofusca a releitura do Guy Ritchie – que trouxe, na época do primeiro filme, boas novidades para a história. Quem não viu a série está perdendo uma das melhores produções da TV dos últimos tempos!

  • Uri

    Sem querer gerar polêmicas, mas não entendo como o escritor de uma série tão mal feita como Doctor conseguiu, com maestria, adaptar a história de Sherlock. Já li todos os livros e a casa de Sherlock e Watson é exatamente como imaginei que seria. Só dou risada com a legenda tentando forçar o “Elementar, caro Watson”, sendo que, nos livros, isso nunca foi dito.

  • Lucas

    Sherlock é infinitamente melhor que DW. E eu gosto de DW. Os filmes também são bons demais.

  • Amo Doctor Who, mas Sherlock é muito melhor, a melhor série que já assisti. Por causa dela eu comecei a ler os livros de Conan Doyle, e a admirar ainda mais o trabalho do Moffat. Recomendo para todo mundo que precisa de um seriado para assistir ^^

    mas eu achei a comparação entre essas duas séries no texto meio infeliz. Há algumas semelhanças sim, mas dizer que os personagens são basicamente iguais, por favor, né? Mas consegue descrever muito bem o programa. Estou ansiosíssima para a 3ª temporada, mas não estou com pressa. Melhor demorar e vir com mais três episódios brilhantes como dessa vez do que apressar e termos adaptações medianas.

  • Joe

    Concordo, o roteiro é um primor incessante, as atuações todas são sensacionais e a produção é impecável, o que, no geral, torna Sherlock uma série imperdível pra qualquer fã de séries.

    [j]

  • SF

    Eu não entendo porque todo mundo está falando sobre o Moffat e comparando seu trabalho em DW com Sherlock, quando o verdadeiro gênio por trás de Sherlock é o Mark Gatiss.

  • ivana ramos

    Qual o canal da série Sherlock ?

  • Bruno Carvalho

    BBC One – Londres.

  • Robson

    Cara, série obrigatória!!!!Eu descobri graças ao ligado em série que no último podcast comentaram sobre ela. Vou começar a assistir a 2a temporada. Já to achando que depois que terminar a 2a, rever tudo novamente…hehehehe…o único ítem complicador dessa série é o que vc não pode nem piscar pq os ingleses falam muito rápido…kkkk

  • Daniele

    Eu descobri esta série este ano. Pensei em não assistir por falta de tempo, mas mudei de ideia e estou acompanhando a série. E ainda bem que mudei de ideia pq eu iria me arrepender amargamente por não ter assistido. Sem sombra de dúvidas, concordo com a autora do texto quando ela diz que é uma série obrigatória a quem gosta do gênero policial. Uma série muito sensacional, maravilhosa,bem feita, com um ótimo roteiro e produção espetacular.

    Sobre o filme do Guy Ritche: Odiei. A série Sherlock é superior ao filme. Não gostei do filme, não sei. Acho que o filme passa uma imagem de um Sherlock atrapalhado, digamos, o que não corresponde, ao meu ver, na característica do personagem. Uma das melhores que já vi o/

  • Daniele

    Acho que a ultima linha do texto ficou sem coesão: “Uma das melhores que já vi o/”. Quis dizer que A série Sherlock foi uma das melhores séries que já vi.