Estreou ontem na Rede TV! o programa Saturday Night Live Brasil, licenciado da Broaway Video/NBC e que tem o mesmo formato do original. O programa tem um time liderado pelo comediante Rafinha Bastos e veio com a difícil missão de substituir o horário vago pelo Pânico na TV, que foi para a Band por problemas com o pagamento de salários pela emissora. O humorístico começou com uma surpresa interessante: fazendo piada já na abertura com a entrevista de Xuxa ao Fantástico, provou que irá sim abordar temas atuais e (tentar) extrair humor deles. Bastos também chegou mais comedido no cenário que imita a Grand Central Station de Nova York e conseguiu fazer piada consigo mesmo e com o programa, ressaltando as diferenças gritantes entre o original e esta versão licenciada (“o convidado musical do programa em NY esta semana foi Mick Jagger, aqui recebemos um ‘não’ de Frank Aguiar“), brincou com o fato de ser exibida em um domingo e ainda soube dar várias indiretas em seu monólogo sem o desfile costumeiro de ofensas (algo que Marcelo Adnet do Comédia MTV já domina). Mas o problema veio nos blocos seguintes.

Daria até para relevar o fato da atração ser em um domingo se fosse boa. Mas não é. As esquetes foram longas, arrastadas e sem punchlines. Atores competentes do teatro como Anderson Bizzocchi do grupo Companhia Barbixas de Humor ficaram completamente vendidos pelo texto ralo, desconexo e sem graça. Aliás, o “ao vivo” do programa não deixou nada a desejar ao do UFC da Globo, ironizado pela própria atração. Com apenas dois cenários “móveis” disponíveis nos estúdios da Rede TV! em Osasco, a proporção do tempo realmente ao vivo da atração foi baixíssima. Mas os quadros gravados (que lá fora são utilizados para ganhar tempo enquanto atores trocam o figurino, maquiagem e marcações) também eram pavorosos, mal editados e denotavam a falta de timing cômico, seja em pré ou em pós-produção (a paródia musical com motoboys/boy bands, então, fraquíssima). O programa ainda fez de tudo para vender a imagem de Bastos como “bad boy da comédia”, mas o que se viu foi um esforço artificial para pintá-lo desta forma num quadro estilo Arquivo Confidencial do Domingão do Faustão (estranhamente apresentado por uma mulher, embora contasse com arte e trilha do programa apresentado por Fausto Silva). E o Rafinha que conhecemos retornou no Weekend Update Brasil (que dor escrever isso) com o seu festival de patadas e sem ter um segurança na porta para forçar o espectador a assinar termos “anti-ofensa” (como existe em seu show “Proibidão”).

Mas o grande problema deste Saturday Night Live Brasil nem foram ofensas ou o próprio Rafinha: mesmo com um orçamento mais folgado, já que as cotas de patrocínio foram vendidas para os próximos 6 meses, a atração conseguiu ficar aquém de qualquer quadro que o Comédia MTV ou Furo MTV levam ao ar com recusros mínimos. No início, Bastos ironizou a “qualidade” do humorístico popularesco da Globo Zorra Total antes mesmo de provar ser capaz de superá-lo. E não foi. Foram 90 minutos de piadas sem graça, momentos vergonhosos, elenco sem foco e um roteiro fraco. A resposta veio do próprio público, que abandonou a atração no meio. O programa registrou mínimas de 0.4 (praticamente “traço”) segundo o Ibope e fechou com média de 0.9. Faltou competência, direção, texto, montagem e, principalmente, uma correta adaptação do formato à realidade cultural brasileira. E é só o tempo dos processos começarem a acumular para que o canal tire mais um programa de Bastos, já que, segundo o próprio disse em entrevista à Revista Época, sem ofender ele não sabe fazer graça.
Observações:
- O final do programa ainda creditou Lorne Michaels, o criador e showrunner da atração original, como “Lorne Michael” [sic].
- O que foi a atração musical Marina Lima, hein? Doloroso.
- Curiosamente, os primeiros minutos do programa seguinte Sexo a 3 apresentado pelo cirurgião plástico mulherengo Dr. Rey, conseguiu ser mais engraçado que toda 1h30 de Saturday Night Live Brasil.




