[com spoilers dos episódios 8x23 e 8x24] “Eu não entendo como isso continua acontecendo.” A frase dita por Cristina Yang na metade deste decepcionante season finale da 8ª temporada Grey’s Anatomy, resume bem a sensação amarga de ver aqueles bons personagens repetidamente envolvidos em tragédias cada vez mais absurdas. Não sei você, mas eu não conheço ninguém que num espaço de oito anos tenha se envolvido em incidentes tão singulares com bombas, tiroteios e uma queda de avião. A tia Shonda Rhimes, contudo, parece achar isso tudo normal. E notem: não é que esses ditos ‘incidentes’, como destacou Yang, não possam ser usados como artifícios para se criar drama (porque podem e devem), mas quando uma roteirista outrora criativa vira refém deles para (tentar) chocar e provocar mudanças numa trama, é sinal de que alguma coisa está errada. Ou não?

Depois de um 7º ano bastante irregular (salvo raras exceções como, por exemplo, o surpreendente e polêmico “Song Beneath the Song”), a 8ª temporada de Grey’s Anatomy vinha me agradando com histórias mais densas e com o aprofundamento mais sereno e maduro das relações já estabelecidas entre os personagens. Nisso, elogios para o bom desenvolvimento da história envolvendo Meredith adulterando os testes de Alzheimer para ajudar a esposa do Chief Weber lá nos primeiros episódios e de tudo que veio na sequência (mudança na chefia de cirurgia do hospital, o risco da adoção de Zola ser anulada e até mesmo os desdobramentos do conflituoso casamento de Yang e Owen que pautou as ações dos dois ao longo de toda temporada e impactou diretamente o relacionamento deles com outros personagens).

Sendo assim, quando colocamos todos os grandes eventos que esse até então bom 8º ano cobriu, fica ainda mais evidente quão equivocado foi esse desfecho escrito pela Shonda Rhimes que, sob o pretexto de dizer que “a vida pode mudar num instante” (frase dita por Callie Torres em dado momento), numa tacada não só descartou a chance de vermos uma personagem (Lexie) que vinha crescendo ganhar mais protagonismo, como ainda criou uma resolução boba no hospital (Owen demitindo Teddy ‘só’ porque ela convenientemente escondia uma proposta de trabalho melhor) para justificar um cenário que possa promover a permanência de Yang e até mesmo da insossa April e de todos os outros que sairiam (Karev, Jackson), mas que agora devem ficar para dar assistência aos que retornarem.
Enfim, com a temporada acabando de um jeito absolutamente frustrante, me pego pensando numa única coisa: será que já não é hora de parar de acreditar que Shonda Rhimes ainda consegue escrever boas histórias e abandonar de vez o Seattle Grace Mercy Death como Cristina sugeriu?
Outras observações:
- Tudo bem que sobreviver a um acidente aéreo deve ser um trauma e tanto, mas por que será que nenhum deles pensou em usar um celular (ou pelo menos procurar por um) para tentar comunicação e pedir socorro?
- E que tal um cirurgião que depende das mãos para trabalhar e dá uma pedrada numa delas que, sabe-se lá como, ficou presa ao perfurar uma fuselagem?
- Alguma dúvida de que, se não morrer no início da próxima temporada, Mark Sloan se tornará um zumbi ambulante tomado pela depressão de ter perdido Lexie?
- Aliás, como a Ellen Pompeo é ruim nessas cenas em que Meredith precisa chorar, hein?
Considerações Adicionais de Bruno Carvalho
Como o Davi bem apontou acima, vale lembrar ainda que no episódio anterior, Migration, Shonda simplesmente criou do nada o tal “fenômeno” da migração de profissionais do hospital de forma muito conveniente e totalmente fora daquilo que a temporada vinha conduzindo até então. Foi forçado que, de uma hora pra outra, todos os médicos dos hospital (e até enfermeiros) começaram a receber propostas de trabalho para outros hospitais e projetos fora do Seattle Grace (algo que nunca havia sido ventilado pela própria série desta forma). Ou seja, sem saber concluir aquilo que ela mesmo começou (e bem, diga-se), ela acabou criando no episódio Migration uma necessidade besta para justificar o próprio acidente aéreo, numa espécie de Deus Ex Machina inverso e desnecessário. Isso é preocupante, porque a necessidade comercial de encerrar a temporada com uma “catástrofe” acabou se tornando um imenso tiro no pé para a criadora e roteirista e para a série. Grey’s Anatomy havia amadurecido muito nesta temporada e com esta dupla de episódios, Migration e Flight, Shonda tem agora o um potencial “jump the shark” (termo televisivo que descreve o momento exato em que a série se perdeu). A diversidade de focos (com Private Practice, Off the Map e Scandal) prejudicaram e muito uma das séries mais regulares em termos narrativos e criativos da TV aberta americana. Pena.
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