A Estreia de Anger Management

[com spoilers dos episódios 1x01 e 1x02] Charlie Sheen, Charlie Harper, Charlie Goodson… Anger Management é a série que marca o retorno do ator à TV após sua conturbada saída de Two and a Half Men. A sitcom em formato tradicional com plateia (estilo que já está quase extinto na TV aberta e faz o caminho ilógico para a TV a cabo americana) deixa claro desde suas cenas iniciais que vai incorporar no seu texto referências à “vida real” do ator e

seus recentes problemas: “Você acha que pode me dispensar? Eu me demito! Acha que pode me substituir por outro cara? Não será a mesma coisa!”, exclama Goodson em seu monólogo de abertura. Aqui Sheen interpreta um ex-jogador de baseball que, após acessos de raiva, foi afastado do esporte e posteriormente especializou-se em terapia para o tratamento de raiva. Ele conduz sessões em sua casa e dá consultoria em presídios. Mas ainda que (levemente) baseada no filme homônimo estrelado por Jack Nicholson, Anger Management aparentemente não pretende desenvolver o assunto, mas tão-somente utilizá-lo como pano de fundo para o humor misógino, depreciativo e pouco refinado que parece perseguir o ator em seus trabalhos. E enquanto a série de Chuck Lorre foi bem sucedida pelo menos por incorporar no antigo protagonista as características da vida pródiga de Sheen, aqui ele soa claramente desconfortável e fora de lugar na pele do tal terapeuta “ex-raivoso”.

Ele é uma versão mais “família”, menos ácida e bem menos interessante de seu “alter ego” Charlie Harper (e as comparações são inevitáveis, já que a própria série cita indiretamente Two and a Half Men sempre que pode). O elenco de coadjuvantes de Anger Management é inexpressivo (especialmente a atriz Selma Blair). Não há nenhum ator competente para servir de escada para as tiradas de Goodson (como Jon Cryer) e todas as histórias apresentadas até então lidam com algum tipo de envolvimento amoroso do protagonista, seja com sua ex-mulher (com qual ele tem uma filha), com sua colega psicóloga ou com casos do passado como jogador. O texto é lento, as piadas (ou melhor, “piadas”) demoram a vir e não dá para não pensar que, se a comédia fosse estrelada por outro ator (ainda que mais talentoso), ela dificilmente teria sequer sido aprovada pelo canal para entrar num lineup que tem as excelentes Wilfred e Louie exibidas em sequência. Anger Management é um retrocesso cômico até para o já em desuso gênero da sitcom multicâmera e nada mais do que uma mera desculpa encontrada por executivos do canal FX para capitalizar em cima da problemática fama do ator.

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