Batman: The Dark Knight Rises

[com leves spoilers] Apoiado pela recepção positiva de sua visão para uma das criações mais icônicas do mundo dos quadrinhos, Christopher Nolan fez o que parecia improvável para um filme do gênero: subverteu a fórmula e criou, a partir de Batman Begins, algo que transcendeu a simples definição filme de super-herói, ampliando o universo do homem morcego transformado, em The Dark Knight, num complexo e brilhante estudo que expunha de forma crua e surpreendente a natureza moral que define o conceito de bem e mal por vezes confundido atrás das máscaras de mocinhos e vilões. Sendo assim, ainda que empalideça em alguns momentos (principalmente quando comparado com seu antecessor), Batman: The Dark Knight Rises estabelece uma rima temática perfeita com seus predecessores encerrando a trilogia com impacto e relevância.

Não, The Dark Knight Rises não é um filme perfeito. Tem problemas – sobretudo de ritmo nos dois primeiros atos por conta do excessso de personagens/subtramas e pela exposição excessiva no último -, mas quando acerta e ele acerta muito, diga-se, revela uma produção tecnicamente impecável (nos efeitos, na fotografia e na sempre imponente trilha de Hans Zimmer) que expande ainda mais as ideias do segundo filme, reforçando a tensão que se agiganta na sombra do caos e da anarquia que ganha forma na ficção, mas que no contexto atual poderia muito bem eclodir no mundo real dominado por líderanças e instituições cada vez mais fracas e homens cada vez mais manipuláveis por discursos populistas. Uma noção, aliás, que ganha força a partir do curioso vilão Bane, um terrorista tão sociopata e inteligente quanto o Coringa, mas que diferente deste, surge como um oponente muito mais físico do que psicológico para um Batman inicialmente mais fragilizado pelas marcas e escolhas às quais se submeteu.

Interpretado de forma marcante por Tom Hardy numa composição difícil de um personagem que exige um constante espírito ameaçador que se reflete nos olhares e principalmente pela sua voz (um motivo a mais para que não se assista o filme em sua versão dublada!), Bane é a força motriz da trama que sacode Gothan City e coloca tipos tão diferentes como a bela e eficiente Mulher Gato de Anne Hataway; a misteriosa Miranda de Marion Cotillard ou o jovem e idealista policial Blake de Joseph Gordon-Levitt na periferia e posteriormente no centro das ações. Oito anos depois dos eventos mostrados em The Dark Knight, é o vilão que dá início, a partir de um elaborado plano, ao fim dos tempos de paz sustentados pela mentira por trás do mito de Harvey Dent. A mesma mentira que consumiu o comissário Gordon afastando-o de sua família e provocou, para desgosto do zeloso Alfred (em atuação primorosa de Michael Caine ), a reclusão de Bruce Wayne que aqui ressurge amargurado pela dúvida e pelo conflito de não conseguir dissociar-se da máscara e da identidade que assumira como protetor da cidade e dos valores que ele abraçara.

Fazendo eco à trama de Begins em seu ato final, o grandioso desfecho imaginado por Nolan revisita a ideologia da Liga das Sombras liderada por Ra’s al Ghul construindo uma crítica que questiona com eloquência o poder e os perigos de revoluções radicais. Além disso, quando o filme termina é fácil se render à reflexão que ele fomenta em torno da ideia de que são as ações motivadas pelo bem maior e os sacrifícios oriundos que formam os verdadeiros heróis e os mitos. E como se isso fosse pouco, a sequência final deixa, de forma elegante amparada pelo aspecto emocional, uma última grande questão: será mesmo que a lenda chegou ao fim?

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