Girls

[contém leves spoilers da 1ª temporada] Girls, comédia da HBO criada e estrelada por Lena Dunham, conta a história de um grupo de meninas de vinte e poucos anos que tenta levar a vida em Nova York. Dunham também escreve e dirige a série ao lado de Judd Apatow (Freaks & Geeks), que atua como produtor executivo. Depois de um início controverso (principalmente por conta do piloto esquemático e do burburinho causado pelas atrizes serem parentes de famosos), a comédia terminou seu primeiro ano como uma das melhores estreias da última temporada. Em apenas dez episódios, a série conseguiu apresentar de maneira divertida e honesta as dificuldade e angústias de quatro amigas que estão apenas iniciando sua vida adulta. Acredito que esse seja um ponto que a diferencie de shows como Sex and the City, por exemplo, outra produção focada no público feminino e ambientada nessa cidade: elas não têm glamour, carreiras de sucesso ou elaboradas discussões sobre sexo. A comédia é muito mais sobre a busca da verdadeira identidade das meninas do que sobre sua relação com sexualidade ou com a cidade. Mesmo quando exagera aqui e ali, Girls consegue ser singela nos detalhes e realça de forma pontual os defeitos latentes dessas personagens. Todas elas são egoístas e tem motivações egoístas.

Hannah é a aspirante a escritora que não consegue um trabalho remunerado e se mostra insensível com o término de namoro de sua amiga e colega de apartamento. Marnie é a menina perfeita com um namorado perfeito, mas que não suporta mais o relacionamento já morno e não consegue ficar alegre com a felicidade da amiga. Jessa, que eu considero a mais inverossímil de todas, é inconsequente e só faz aquilo que tem vontade. Sua prima Soshana, a mais ingênua e inexperiente das quatro, carrega em si o estigma de ainda ser virgem. A relação de amizade real entre as garotas é um dos pontos fortes da história. A cena em que Marnie e Jessa, que até então não tinham muito em comum, conversam sobre os defeitos da Hannah em determinado momento, mostra bem o quanto a roteirista entende o universo feminino. E as tramas, ao longo da temporada, se amarraram perfeitamente, construindo um cenário que permitiu um rápido, mas crível desenvolvimento destas personagens.

O humor da comédia é realmente peculiar, capaz de ser bem sucedida ao abordar (e fazer graça com) temas polêmicos como aborto e drogas. Entretanto, a sempre interessante condução da série faz com que esses elementos contribuam para a qualidade da narrativa. A trilha sonora é um destaque a parte, incluindo bandas da cena indie The Vaccines, Belle & Sebastian e a cantora sueca Robyn. Embora tenha alguns personagens caricatos – como o ex-namorado de Hannah, interpretado pelo competente Andrew Rannels (do musical The Book of Mormon) -, a série equilibra bem os demais. Adam, o namorado de Hannah, chega ao final da temporada como um sujeito bem diferente do que ele era quando começou. Suas atitudes (que antes beiravam a misoginia) mudaram à medida em que eram espelhadas nas transformações vividas pela protagonista, e isso acabou criando um casal adorável. A produção tem um quê hipster/indie em locações descoladas no bairro de Brooklyn em Nova York que contribui ainda mais para compor o sempre agradável clima da série. E algumas características como o sorriso de Hannah na cena final do sétimo episódio ou sua serenidade ao caminhar na praia de Coney Island no capítulo final, são tão sutis que nem parecem propositais. Girls é uma bela série escrita por uma jovem de apenas 26 anos, um pouco acima do peso e com talento para contar histórias.

Girls estreia este mês, dia 23 de Julho, na HBO Brasil.

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