The Newsroom: The 112th Congress

[com spoilers do episódio 1x03] Os responsáveis por tornar The Newsroom uma série estupidamente romântica não são os olhares furtivos trocados por Jim e Maggie, ou mesmo o conturbado passado amoroso de Will e Mac. O jornalismo de Aaron Sorkin é pintado sob a visão de um jovem repórter recém-chegado à redação; lista Gandhi como herói particular e afirma enfaticamente que pretende ser a mudança que deseja ver no mundo. Seu roteiro é imbuído de ideais que se perdem no cotidiano das emissoras e empresas de mídia, em meio a reuniões com anunciantes e ao compromisso ingrato com os números da audiência. O retrato sonhador fica ainda mais delineado neste terceiro episódio, The 112th Congress. Não encarem meu ceticismo da maneira errada: a dose semanal de romantismo é absolutamente saudável e bem-vinda. O episódio cobre os seis meses de noticiário que antecederam as eleições para o Congresso americano de 2010. Will McAvoy, rosto e voz da Atlantis Cable News, inicia sua cobertura com um sincero e comovente pedido de desculpas aos espectadores. Responsabiliza-se pelos erros cometidos ao escurecer a linha entre publicidade e reportagem e se compromete a fornecer informação destituída de entretenimento.

Em face a uma América polarizada e seus eleitores envolvidos em um eterno cabo de guerra entre Republicanos e Democratas, McAvoy confirma sua intenção em servir as notícias que o país necessita, e não as que ele gostaria de ouvir. Sorkin constrói o herói que os Estados Unidos merecem e precisam. Por favor, empreste sua capa, Batman. A sala de notícias se transforma em um tribunal onde McAvoy é um promotor sem medo de levar os poderosos ao banco dos réus. Contudo, a decisão endossada por Mackenzie McHale e grande parte da equipe não é apoiada pelos grandes executivos da Atlantis World Media. Preocupados com o declínio da audiência e com o ataque direto a políticos poderosos, eles aparecem em cenas intercaladas ao noticiário questionando Charlie Skinner, o presidente da divisão. A iluminação da sala de conferências é análoga a de um interrogatório: Charlie e sua simpática gravata-borboleta não cedem à intimidação da CEO Leona Lansing (Jane Fonda) e mantêm McAvoy alheio aos problemas, para que seu foco permaneça no trabalho.

Em seu discurso inicial, o âncora expôs a preocupação em fornecer ao público os mais diversos ângulos de um mesmo fato. Deixa claro que sua opinião pessoal não seria imposta ao telespectador. Esta não é a preocupação de Aaron Sorkin. Seu viés liberal está presente em cada linha do texto, desde as críticas ao movimento Tea Party, passando pelo desmantelamento do argumento conservador de que impostos não devem ser elevados para milionários, chegando ao casamento gay.

As preocupações republicanas são proferidas por figuras suspeitas e ridicularizadas por McAvoy. Somente um conservador, cujo discurso é de crítica à parcela radical do partido, parece digno de respeito. Seu isolamento do resto do grupo só serve para enfatizar o quanto Sorkin o considera um caso especial e único em meio a centenas de fanáticos. A mensagem política explícita fez com que muitos críticos franzissem o nariz e criticassem a postura do criador. No entanto, The Newsroom é um produto cultural, e não uma notícia. Uma série não precisa ser isenta, não deve prezar pela objetividade. Aaron Sorkin está livre para escolher seus mocinhos e vilões e transmitir a mensagem de sua escolha. E esta é: equilíbrio não significa realidade, verdade ou lógica. Enquanto ele acreditar nos argumentos democratas, irá promovê-los sem moderação.

Um ponto positivo deste episódio em relação ao anterior foi a ênfase menor nos relacionamentos amorosos e nas neuroses carregadas de exageros das personagens femininas. Mac reagiu negativamente ao desfile de garotas jovens e belas que McAvoy promoveu no escritório, porém os ciúmes não foram acompanhados de um tom caricato ou afetações infantis. Enquanto isso, Maggie e Jim tiveram uma conexão real quando ele a ajudou a superar uma crise de pânico munido de seus misteriosos conhecimentos de enfermaria. Muito apropriado. Pena que a moça ainda esteja envolvida com Don, antagonista de Jim tanto no campo romântico, como na área ideológica.

Os diálogos apressados e os múltiplos intertextos, que mencionam obras como Inception, Rocky II e até 2001: Uma Odisséia no Espaço, fazem de The Newsroom uma série envolvente. Já sua abordagem do jornalismo e seu resgate de valores perdidos a tornam relevante. The Newsroom é o noticiário que gostaríamos de ver. Só nos resta esperar que a vida imite a arte.

por Lorena Piñeiro

Tags: , , ,

Comente no Facebook