[com spoilers do episódio 5x04] Se havia alguma dúvida de que Breaking Bad narra a história de um pacato sujeito e a sua trajetória de desconstrução para seu lado mais perverso e obscuro – e que esse caminho não tem volta -, o capítulo desta semana praticamente anulou qualquer esperança de vermos Walter White um dia se redimindo. Não, ele não faz mais pela família, por dinheiro ou por conta da doença. Walter agora gosta de ser o homem que se tornou e passou a criar uma realidade indulgente que não apenas permite, mas justifica e ratifica seus atos. Sabiamente deslocando praticamente toda a narrativa para a casa da família White, percebemos que a personalidade “Heisenberg” agora é dominante. Esta transformação, inclusive, me lembra muito a do Narrador de Fight Club (O Clube da Luta) em Tyler Durden: no começou, o lado “mau” aparecia pontualmente e apenas quando necessário; hoje ele está completamente consumido pela nova persona.

Breaking Bad ainda deu vários indícios que simbolizam essa ruptura com o antigo Walt como, por exemplo, o abandono de seu antigo e surrado carro, entregue pelo preço simbólico de US$ 50,00 ao mecânico. A “bagatela” evidencia o desprezo que ele hoje sente pelo sujeito passivo que um dia foi. Mas o grande destaque do episódio, claro, aconteceu em seu terceiro ato com a tensa conversa entre marido e mulher. Foi naquele quarto que a sociopatia do químico (que se tornou ainda mais evidente após ele ter derrotado Gus Fring) surgiu com uma faceta que agora torna impossível torcermos pelo protagonista, especialmente quando ele passa a torturar psicologicamente sua esposa. Adotando enquadramentos de câmera que traduzem um sentimento de claustrofobia sentido por Skyler, o capítulo se encerrou com um emblemático tique de relógio, focado em plano detalhe, simulando uma contagem regressiva que também pode denotar a urgência e a provisoriedade daquela situação. Aliás, considero este um dos grandes marcos no caminho de Walter, especialmente aquele que provavelmente catalisará acontecimentos que culminarão na misteriosa cena no futuro que vimos no início da temporada.
Fifty-One teve ainda vários momentos interessantes, como o mergulho de Skyler em uma desesperada busca por fuga, a sagacidade de Hank ao intuir que o verdadeiro “Heisenberg” ainda está vivo e a lembrança de que Mike é um sujeito frio, impiedoso e que não medirá esforços para conseguir o que quer. E pela primeira vez Breaking Bad estabeleceu com maior precisão quanto tempo se passou desde o início da série: pouco mais de 1 ano.
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Comentários Adicionais, por Dierli Santos
- É interessante como Skyler, tão criticada no início de Breaking Bad, tenha ganhado quase tanta profundidade quanto os outros personagens da série. Enquanto Walter foi perdendo o medo e ganhando ambição durante as temporadas, ela parece ter percebido que o marido passou dos limites. Presa a um homem que a deixa com medo e sentindo a necessidade de proteger sua família, seu desespero culminou no momento em que assume que torce para que o câncer de Walter volte e ele morra. Ao lado da cena da piscina, esses foram os melhores momentos do episódio.
- Como não ter pena de Jesse dando o relógio de presente para Walter? Incrível como apesar de ter passado por tantas coisas, de ser um produtor e traficante de drogas, do lado do sócio ele parece ser tão ingênuo. Ele não percebeu que foi manipulado no episódio anterior, assim como não imagina a culpa do amigo no sofrimento que passou. E nessas horas Bryan Cranston não cansa de surpreender com sua ótima interpretação, mesmo nas cenas mais sutis. Enquanto Walter usa Jesse como forma de sobrevivência no esquema, fica visível que ele realmente o considera e respeita.
- Um outro ponto que me faz pensar: Walter sabe que está mentindo quando fala que tudo o que ele está fazendo é pela família ou ele realmente ainda acredita nisso? Além do dinheiro e poder, ali é o único lugar onde sua inteligência pode ser usada, onde ele tem a emoção de poder vencer.





