Séries:

A nova era das sitcoms

love sitcom

À primeira vista, séries como Love e Master of None possuem pouco em comum com Friends, How I Met Your Mother, The Big Bang Theory e outras. Do processo de gravação (com ou sem plateia) até a fotografia, passando inclusive pela trilha, sentam em sofás separados nesse grande lounge que é o mundo das séries. São abordagens completamente diferentes, objetivos completamentes diferentes e estilos completamente diferentes. Ainda assim, é preciso perguntar: será que essas novas comédias estão pegando o bastão passado pelas sitcoms tradicionais?

São coisas bem distintas, claro, mas a linguagem audiovisual, assim como o público, evolui (em um sentido de mudança, não de ser necessariamente melhor ou pior), e o século XXI  tem sido particularmente efetivo em séries de drama que riram na cara dos modelos até então consagrado (LOST, The Sopranos, Breaking Bad, 24, Game of Thrones, vocês sabem, a patotinha de sempre). Seja experimentando no formato ou mandando às favas as convenções do gênero, essas obras ajudaram a moldar uma audiência que não se contenta mais com as antigas fórmulas (caso da semana, nenhuma sensação de perigo com relação às personagens, maniqueísmo bem delineado etc). O mesmo está acontecendo com as séries de humor.

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Ajuda também o fato de que muitas comédias hollywoodianas estão pendendo para esse lado menos idealizado e mais palpável, onde o humor se junta a uma atmosfera por vezes agridoce, melancólica (Top 5, Mistress America, todos do Judd Apatow, (500) Days of Summer e por aí vai). E esse é o caminho que séries como Louie, Master of None e Love estão trilhando: conciliar o humor com uma profundidade dramática maior para ilustrar as situações do cotidiano de forma interessante e envolvente. Ou seja, assim como as tradicionais sitcoms, são obras que se propõem a abordar com humor situações do dia-a-dia – namoros, emprego, amizade, festas, intimidade, dificuldades, jantas, questões financeiras -, ainda que nem de longe o conteúdo seja o mesmo.

A maior diferença parece ser que as novas comédias preferem se aprofundar nas situações ao invés de expandi-las. Por exemplo: em Love, um encontro desastrado entre duas pessoas possui momentos de constrangimento, mas são contidos e acabam funcionando para reforçar determinada conexão; em Friends, um encontro da Rachel com um sujeito de auto estima tão nuclearmente detonada vai mais para o lado da caricatura, aproveitando a situação (encontro) para criar uma cena cujo objetivo não é comentar sobre o mundo dos encontros, mas sim ser o gatilho de uma busca da piada através do exagero. Em Love, o cenário de duas pessoas se conhecendo se bastou. Em Friends, ele abriu as portas para a série brincar com outros elementos. Além disso, levando em conta também Louie e Master of None, entram em cena diversas questões sociais (racismo, sexismo, minorias, sustentabilidade) que não apareciam com tanta ênfase nas sitcoms tradicionais – até porque não eram tópicos debatidos com tanta abertura quanto hoje em dia.

louie

Entretanto, a mudança na abordagem não distancia o objetivo dessas novas séries do objetivo das mais antigas, que é comentar com insights e esperteza os eventos do cotidiano. São aqueles momentos que todos nós reconhecemos quando aparecem em tela por  fazerem parte das nossas vidas também – e um dos principais talentos de um artista é expressar aquilo que as pessoas já sabem, mas ainda não se deram conta que sabem. Nesse ponto, Loves e Master of Nones e Louies da vida funcionam de forma muito mais eficiente como um espelho, já que não há aquela idealização de um determinado (e irreal) estilo de vida encontrada em outras sitcoms. E, como bom reflexo artístico de uma realidade banal, as novas produções trazem na bagagem essa melancolia com a qual qualquer pessoa pode se identificar (e sem precisar recorrer a grandes reviravoltas para isso). Há um componente dramático muito claro nessas séries, que, até mesmo por questões de bastidores (mudança do público, dos canais de veiculação, das regras de transmissão, da forma como os shows de TV são comprados e distribuídos), podem se dar ao luxo de diminuir o volume das piadas para observar as personagens com mais cuidado. Tal qual a vida, as novas sitcoms não enxergam seu universo unica e exclusivamente através do humor.

Não acho que seja questão de um ser melhor do que o outro (até porque Friends continua no meu top 3) nem de um substituir o outro (odeio como tudo nova que chega automaticamente precisa substituir seu predecessor). Mas é interessante perceber como o gênero pode se transformar sem fugir de sua ideia inicial, trazendo coisas diferentes e interessantes para o espectador. Atualmente, há um público renovado e que está exigindo novas características nas séries que assiste – incluindo aí o cuidado e a produção cinematográficos e uma profundidade maior nos temas abordados. O resultado disso? As novas sitcoms.

André Costa
é cinéfilo, publicitário, zagueiro, leitor ávido e autor convidado do Ligado em Série.
http://www.melhorquenada.com

Categorias: Notícias, Séries/TV

Postado em: 08/03/2016 | 14:13

  • Thiago OC

    Já tinha tido essa mesma reflexão e, assim como você, não acho que exista melhor ou pior ou um substituto, apenas uma expansão do gênero que vem se reinventando. Na minha reflexão ainda vejo séries que estão no meio do caminho entre os dois tipos comentados acima, como Modern Family ou Community por exemplo.

  • Lucaa

    Master of None e Love nem deveriam ser consideradas séries de humor, já assisti ambas e não lembro de um episódio em que dei uma risada. Enquanto isso se eu abrir um ep aleatório de Friends tenho certeza que vou rir.

  • André Nique Costa

    Pois é. Eu pensei em citar Community, mas acho que fica pelo meio do caminho mesmo – até porque a série foi crescendo e mudando um pouco sua abordagem (no final foi puxando um pouco mais para o lado da “dramédia”, ainda que não em um nível Louie, hehe). Modern Family eu não conheço bem, mas valeu pela contribuição.

  • André Nique Costa

    Oi Lucaa. Eu achei que tiveram vários momentos engraçados, mas, de fato, não é como Friends, que tem uma sequência de piadas uma atrás da outra. É um tom mais cadenciado.

  • adrianotenorio

    Interessante a abordagem do texto. E no contexto proposto acho The Big Bang Theory deslocada tanto em relação às suas contemporâneas quanto às novas comédias, pois suas situações parecem cada vez mais desconectadas do cotidiano atual mesmo para uma comédia. Alguns episódios chegam a soar como uma novelinha recheada de referências geek para dar alívio cômico.
    Bom, minha impressão.

  • Ivan Calaça

    Cara, eu me acabo de rir com Love. Gosto justamente porque não é um humor fácil, disposto a fazer piada com qualquer coisa e a qualquer custo.