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Crítica | The Six Thatchers e a reviravolta de Sherlock que ninguém queria

Pelos muitos bons momentos que já nos deu e pelo comprovado talento da dupla Cumberbatch e Freeman, Sherlock tem muito crédito e merece estar no rol das melhores séries já produzidas, mas depois de tanta espera pela estreia de uma nova temporada, a triste verdade é que esse episódio de retorno foi um tremendo balde de água fria. Não, The Six Thatchers não foi um episódio horrível, mas infelizmente creio que ele estará inevitavelmente na parte baixa da lista dos mais pros menos memoráveis capítulos da série quando ela se encerrar.

Pera aí, então quer dizer que você não gostou da reviravolta final? Não, não gostei. E diria até que ela foi, para mim, a pior parte do episódio todo com uma mise-en-scène carregada na artificialidade e no excesso de diálogo expositivo de uma vilã que parecia saída de um filme ruim do 007. E pior que isso: imperdoável terem transformado o que poderia ter sido a morte impactante de Mary num espetáculo frio (eu não senti nada vendo aquilo) que diminuiu a personagem num infeliz estereótipo machista (o papel mais importante da vida dela foi ser esposa do Watson? É sério isso, Gatiss?) e que no fim parece ter servido apenas como reles artifício barato do roteiro escrito pelo intérprete de Mycroft para criar um novo conflito entre Sherlock e Watson.

E se esse foi o pior momento do episódio, também não dá para ignorar quão frustrante e preguiçosa foi a resolução, logo na abertura, do gancho criado no fim da terceira temporada. Afinal, foi no mínimo lamentável que depois do ótimo The Abominable Bride, Mark Gatiss tenha decidido livrar o detetive da acusação de assassinato do Charles Magnussen da maneira mais fácil e conveniente possível (altera um vídeo e tá tudo bem?) simplesmente para poder dar sequência à trama sem maiores explicações. Ademais, toda aquela antecipação da volta de Moriarty também ficou só na promessa, fazendo com que este episódio trouxesse o maior anti-clímax da série, com uma reviravolta que ninguém queria.

A propósito: para quê usar o bom conto Os Seis Napoleões como inspiração pro título desse retorno, se ele virou apenas uma desculpa para mostrar o detetive resolvendo um caso em menos de 20 minutos e para reduzir o mistério da destruição das estátuas de Thatcher à caça de um pen drive? Aliás, se o pen drive era tão importante, por que o tal Ajay resolveu escondê-lo numa peça daquelas em vez de simplesmente destruí-lo quando podia?

Pois é, lógica não parece ter sido o forte do Gatiss no desenvolvimento do roteiro desse The Six Thatchers que para piorar tudo um pouco mais, ainda resolveu desconstruir o John Watson que conhecíamos da forma mais desinteressante possível fazendo com o que o sujeito íntegro que a série nos apresentara até então, resolvesse, sem qualquer motivação minimamente razoável para tal (se é que existe), esquecer que era recém casado e pai, para alimentar um flerte com uma desconhecida. Ah, mas você não sabe se ela se aproximou dele como parte de um possível plano do Moriarty, alguém poderia apontar. Sim, é claro que essa possibilidade existe tendo em vista que o falecido(?) vilão poderia usar um Watson emocionalmente desestabilizado para atingir Sherlock, mas também é igualmente verdade que isso não diminuiria o fato do parceiro do detetive ter cedido ao flerte tão facilmente, certo?

Problemático como foi, o retorno de Sherlock, contudo, também teve lá seus pequenos bons momentos dignos de nota. Tecnicamente, a montagem seguiu apresentando opções criativas durante os fades e até em alguns poucos raccords, assim como a fotografia que, optando por tons progressivamente mais escuros, mergulhava Sherlock principalmente em sombras que apontavam o caminho que viria a seguir com o desfecho do episódio. E se a metralhadora falatória (sempre impressionante ver como o Cumberbatch consegue falar tanto e tão rápido), bem como o humor peculiar do personagem título continuam presentes (“É meu aniversário?”, perguntava ele para Lestrad depois de saber das circunstâncias do caso envolvendo a morte do filho do ministro), foi curioso ver e descobrir que essa versão do detetive também tem resistência e habilidade para confrontos físicos dignos dos melhores filmes de ação mais recentes.

E se o Sherlock que termina o episódio parece diferente daquele que começa (quando poderíamos imaginar que ele mostraria qualquer traço de remorso ou ainda que procuraria terapia?!), pelo menos nisso o roteiro de Gatiss acerta, já que lança o personagem numa jornada nova onde, inseguro, teoricamente terá que confrontar o peso das consequências de sua presunção e de como seu egocentrismo afeta diretamente vidas alheias. Que esse prognóstico aliado à indicação da aparição do terceiro irmão Holmes (ou seria irmã?) se prove interessante e que os dois próximos episódios escritos por Steven Moffat tirem o gosto amargo deixado por este The Six Thatchers contextualizando-o, quem sabe, sob uma nova e melhor perspectiva.

Davi Garcia
é administrador, cinéfilo, viciado em séries desde a estreia de The X Files, colecionador entusiasta do formato Blu-ray. Fundador dos lendários blogs Dude, We Are Lost! e DudeNews.
http://twitter.com/dav1garcia

Categorias: Críticas, Séries/TV, Sherlock

Postado em: 04/01/2017 | 13:56

  • Douglas Couto

    Infelizmente concordo com tudo =/ vc foi preciso nessa parte “E diria até que ela foi, para mim, a pior parte do episódio todo com uma mise-en-scène carregada na artificialidade” eu fiquei tão descorfortável com aquela cena, aquele pulo da Mary aaargh por que ela simplesmente não empurrou ele?

    To esperando muito que os próximos deem sentido a um monte de coisa que esse apresentou. Pela primeira vez fiquei com a impressão que o episódio não fechou nesse, ele depende do que vem a seguir. o problema é se não vier e for isso aí mesmo. Gatiss sempre foi o mais fraco dos três roteiristas, mas nem ele tinha entregado algo tão pouco inspirado, desleixado em vários momentos.

  • richard

    1) O último episódio da temporada anterior terminara com uma grande tensão após o protagonista ter assassinado a sangue frio o vilão, na presença de múltiplas testemunhas. Ficava a pergunta: como o Sherlock sairia dessa? A resposta decepcionou todos os fãs: a inteligência britânica conseguiu que algum gênio da “fringe science” manipulasse o video para parecer que o tiro não tivesse partido da arma dele e assim o inocentasse. Conseguiu se safar graças a proteção das autoridades amigas e da utilização de uma ciência que não existe. Bastante parecida com a solução do episódio da “morte do Sherlock” que foi bastante decepcionante, com a atenuante de terem feito algumas piadas em torno dela. Mas fica essa impressão: a série acaba a temporada com “cliffhangers” só para provocar impacto, mas apaga as consequências deste na temporada seguinte.

    2) O Sherlock ficou intrigado com o mistério das cabeças quebradas, sem ter uma razão para tanto. Primeiro, a falta de um objeto naquele altar não teria nada de estranho ou criminoso, no máximo haveria um delito contra a decoração de interiores. Mesmo que se faltasse algo naquela mesinha, a empregada ou o vento poderia ter destruído essa coisa. Além disso, naquele momento já tinha sido resolvido o mistério do jovem queimado (que foi interessante) e a quebra da estátua não teria nenhuma ligação com este. E mesmo sabendo que um meliante entrara no apartamento para quebrar a estátua, o mistério não seria capaz de seduzir o Sherlock por ser óbvio que haveria um contrabando escondido nela (não seria um grande mistério). A trama foi forçada para tentar fazer uma homenagem aos livros clássicos do Sherlock.

    3) Mas o que achei mais idiota foi o Sherlock, por duas vezes, ter encarado o vilão completamente desarmado e sem apoio.

    4) Minto, só não foi mais idiota do que o sacrifício da Mary, agora um mãe, de ter mergulhado em direção à bala. Nem o sentimento de culpa da Mary por ter alvejado anteriormente o Sherlock justificaria esse sacrifício tolo. Além de ser um subterfúgio estúpido para criar tensão entre a dupla de protagonistas.

    5) Por derradeiro, o mistério principal não comportou nenhuma dedução instigante do detetive. Achou a Mary usando um GPS e resolveu a identidade do mandante confrontando todas as “inglesas” envolvidas na operação até conseguir uma confissão.

  • Rodrigo Oliveira

    o problema foi a grande expectativa que o otimo gancho final da 3 temporada criou

    gerando assim uma grande decepção

  • Jaqueline Trevisan Pigatto

    Não vimos 3 anos de Sherlock pra chegar nisso. Confiemos em Moff e Gatiss…aposto que tudo faz parte de um plano maior. Não confio no que vi, pensem em The Six Thatchers como Abominable Bride. Não foi ruim, apenas estranho. Quem está contando essa história? Por que tantas falas recicladas? Por que vários detalhes nos cenários parecem irreais?
    A expectativa só aumenta pro próximo domingo!

  • Daysio Sidney

    Concordo,Davi. Mesmo o Sherlock com episódio bem morno ainda sendo bom, nos acostumamos com a qualidade da superior da série se comparadas a outras. Também não fiz boa digestão do episódio. Achei a trama principal confusa apesar dos diálogos expositivos e uma vilã
    x-machina,apesar do bom foreshadowing no inicio do ep, talvez por isso também não senti nada com a morte de Mary, que foi vendido pela produção como algo chocante. Ao menos até agora, muito inútil aquele flerte de John e a mulher do ônibus. Não se foi problema do roteiro com alguns furos ou de uma direção que parecia muito apressada em entregar as coisas. Talvez com Moff tivesse sido diferente. Destaque positivo para as a montagem e fotografia boas como sempre.

    Easter-egg : Mais alguém viu o outdoor na do vilão da temporada em determinada cena?

    Outra falha :John,quando aparece digitando no blog está na verdade com um arquivo .jpeg aberto.

    https://uploads.disquscdn.com/images/b5ccc3087fc8f01055262a94c71701a2d0d14af39ee86248c491b98d04e0a4f5.jpg