Séries:

Como o Brasil se tornou o mercado internacional mais importante da Netflix

Na semana passada enquanto Reed Hastings, CEO e co-fundador da Netflix, desembarcava por aqui e fazia um inusitado keynote sobre Netflix no país, em Nova York eu testemunhava Todd Yellin, VP de Produtos da empresa, mencionando – ao lado do apresentador Bill Nye – o nosso país em diversos momentos. Desde conjecturando sobre as preferências de uma dona de casa paulistana até ressaltando o sucesso crescente que a série original 3% surpreendentemente teve nos EUA, uma coisa é certa: o Brasil está definitivamente no radar da gigante do streaming. Digo mais: somos o primeiro grande marco na trajetória de crescimento global da empresa.

História recente

Me lembro nos idos de 2012 quando recebi o telefonema de uma assessora da então recém-chegada no Brasil, a Netflix, uma empresa de streaming que timidamente tinha um sistema instável e com pouco conteúdo, quase todo ele dublado. Escrevi isso em 2011 logo depois da chegada deles aqui. Ela queria agendar um papo informal comigo e com outros representantes da imprensa especializada em séries pra entender um pouco mais sobre o comportamento do assinante e porque, especialmente, a adesão à plataforma estava tão baixa.

“O povo quer opções de áudio, legendas e dublagem e séries simultâneas com os EUA”

Disse eu para a surpresa dos presentes, sustentados por uma pesquisa que apontava a dublagem como preferência nacional. Meus colegas à época confirmaram que esse era o caminho a se seguir. As séries originais deles – o lançamento de House of Cards era iminente – já viriam assim, sem “travas” territoriais, mas com relação aos idiomas, poucas semanas depois grande parte dos títulos já se encontravam legendados – alguns com legendas bem problemáticas, é verdade – mas logo depois isso foi se estabilizando. Esse é o tipo de resposta rápida que fez com que a gigante de streaming entendesse as peculiaridades e particularidades para se fazer sucesso no Brasil e, driblando adversidades, rapidamente chegou onde poucos levaram décadas para reinar, como é o caso da Globo – mais sobre isso adiante.

Reed Hastings anunciando a chegada da Netflix ao Brasil (2011)

Pouco depois veio a distribuição de hot boxes – pequenos servidores com alguns dos títulos mais acessados no país – que servem para diminuir o gargalo de nossa limitada infraestrutura de banda larga, fazendo com que o título fosse rapidamente exibido para o usuário. Uma diferença de alguns segundos que faz toda a diferença. Em seguida, a empresa conversou com fabricantes de várias marcas e acelerou a disponibilidade de SmarTVs por aqui, estrategicamente equipadas com o aplicativo vermelhinho. Hoje, apenas alguns anos depois, é ilógico comprar uma TV sem Internet e, especialmente, sem Netflix, fazendo com que concorrentes como Amazon Prime, GloboPlay e FOX App pegassem carona na medida e lançassem seus próprios aplicativos na TV. Aliás, assistir Netflix no computador, smartphone ou em tablets se tornou as últimas de uma série de opções, algo que concorrentes como a HBO GO ainda não se deram conta.

Finalmente, eles introduziram novos meios de pagamento, inclusive via cartão de débito, débito em conta e gift cards, para que o usuário sem cartão de crédito pudesse assinar sem problemas. Só faltava fazer com que o grande público confiasse em assinar essa tal Netflix, algo que o boca a boca aliado à uma forte campanha on air nas principais emissoras resolveram muito bem. A estratégia deu certo. Quando a Netflix aterrissou aqui seus principais concorrentes eram NetMoviesTerraTVMuuSaraiva Digital. Onde estão todos esses hoje, hein?

Original is the new Black

De lá pra cá a história é bem fresca em nossa memória e conhecemos muito bem: ano após ano a empresa investiu em séries, filmes, documentários e especiais originais. Cada vez mais ela precisa licenciar menos conteúdo de terceiros: o produtor hoje quer cortar o intermediário e licencia suas criações direto à gigante do entretenimento, que sabiamente coloca seu almejado selo “Original”, uma marca que – embora não garanta o sucesso imediato – faz com que a distribuição instantânea alcance o maior número de fãs possível, independente do gosto ou preferência.

Um produto não precisa agradar a todos para estar na Netflix, aliás, como o próprio Yellin comentou no painel em NY, a empresa nem está atrás disso. São as parcerias, então, que fizeram da Netflix esse midas do licenciamento global de conteúdo. Eles sequer possuem estúdios próprios como a Globo, por exemplo.

Pelo menos não por ora.

Uma briga de gigantes “vem_aí”

Não à toa o nome “Globo” está no vocabulário de Reed Hastings. Embora afirme que não queira produzir novelas, o executivo sem querer se mostra encantado com a forma da vênus platinada fazer seus negócios: ela controla 100% da criação, produção e distribuição com talentos próprios, exclusivos, inhouse e conquistando um público cativo e fiel. Thiago Lopes, diretor de marketing da empresa no Brasil, disse em entrevista à Bloomberg que a Netflix terá atingido seu objetivo quando “todo Brasileiro tiver um programa favorito na Netflix”, tal qual hoje tem com a Globo.

Reed Hastings de volta ao Brasil

Ainda que esse paradigma esteja relativamente longe, é importantíssimo notar que o Grupo Globo está se mexendo. Além de reforçar a presença da Globo Play, sua plataforma online, o principal canal aberto anda dando uma linear repaginada em sua programação, seja investindo em uma linguagem mais jovem – como o Tá no Ar e a troca de Pedro Bial por Thiago Leifert no Big Brother Brasil – como quebrando seus próprios tabus, mostrando pós-horário nobre, um escancarado nu frontal masculino no elogiado Amor & Sexo.

Isso só mostra que o caminho da Netflix no país é o do crescimento e a última investida aqui é em conteúdo original local: além de 3%, Hastings anunciou a comédia Samantha! e em breve vem aí a série da Lava Jato, que será o game changer definitivo para a gigante do streaming no Brasil e colocará todos os brasileiros, independente de classe social e posição política, comentando os episódios da produção de José Padilha que já nasce controversa e explosiva sem nem ter escalado um só ator.

José Padilha (Narcos)

O break even, segundo afirma a Bloomberg, já foi atingido em solo tupiniquim e agora o que vem é lucro. Números não oficiais dão conta de que o faturamento da empresa no Brasil com assinaturas pode já ser maior que o do SBT com cotas de anúncios.

Reed Hastings não estava nas redondezas e decidiu dar uma “passadinha” pra ver como a gente está. Ted Sarandos não abriu um sorriso de fora a fora quando, no TCA em julho do ano passado, veio conversar comigo (foto ao lado) e com parte da imprensa brasileira que cobria o evento. Eles sabem que de país das “telenovelas”, o Brasil rapidamente está se transformando no país do streaming e ele estará com os dois pés fincados aqui quando isso acontecer.

Agora é só uma questão de tempo.

Bruno Carvalho
é crítico e especialista em TV, tradutor, advogado e fã de séries desde que foi fisgado por Friends em 1994 e hoje é o editor-chefe do site de séries mais seguido do Brasil! Contato: contato@ligadoemserie.com.br
http://twitter.com/ligadoemserie

Categorias: Críticas, Netflix

Postado em: 12/02/2017 | 16:52

  • (Quase) todo esse texto poderá se contradizer em um futuro não tão distante se duas palavras se tornarem realidade: Internet Limitada.

    Caso tudo permaneça, aí sim o país do streaming vai pra frente…

  • Juliano Cavalca

    Acho importante o esforço deles de pinçar séries aclamadas e as tornarem populares , como Mad Men e Breaking Bad. Pode ser mais caro no longo prazo, mas elimina o processo de tentativa e erro.

  • Juliano Cavalca

    Olha a quantidade de gente que “misteriosamente” começou a falar de People Vs OJ Simpson nos últimos 10 dias, hehe.

  • Maria Isná Castro

    Eu fui ver a diferença de uso da internet antes e depois de eu assinar a Netflix. Segundo consta no contrato, a minha assinatura me garante um total de 80Gb. Antes da Netflix eu usava 25-30% desses 80Gb. Depois da Netflix eu uso 180-200%, chegando a 280% durante as férias. Então, é. Internet limitada = tchau, Netflix. :(

  • Azeneu

    A Netflix trás muita comodidade, vc ter todos os episodios ali disponível a um click e mesmo vc não tendo uma das melhores banda largas, ainda sim a qualidade do vídeo é do áudio e uma coisa admirável, e agora nos trás a comodidade de baixar determinados títulos pra usufruir do aplicativo quando se está off-line. Netflix está com a fórmula certa pra fazer sucesso.

  • Azeneu

    Eu atribuo isso a comodidade, todos os eps disponíveis, não precisa baixar não tem leg na reprodução do vídeo como acontece com outros aplicativos. E só assistir e ser feliz

  • XenaBR

    mas com certeza a Netflix vai fazer alguma coisa pra não deixar passar isso, senão terão que amargar prejuízos

  • XenaBR

    certo! fora que tu não precisa procurar informações sobre seriados, aparece ali como sugestão e a pessoa se interessa ou não.

  • Netflix, eu nem assisto mais aquela porcaria de GLOBO. Sou Netflix 100%

  • Bruno Xavier

    Sinceramente a Netflix já conseguiu chegar em um patamar que conseguiu conquistar até mesmo o público casual que não tem a noção do significado de “streaming” tão pouco da revolução que isso vem trazendo pra maneira de consumo de entretenimento, é de uma forma que todas as pessoas já compram suas TV novas destinadas ao uso dessa plataforma mesmo aquelas que não tem tanto conhecimento, mas sabem que essa tal “Netflix” que funciona na internet, tem vários filmes e séries.

    Só a comodidade de você ver seu filme ou série preferidos sem necessitar baixar versões piratas, na legalidade e com a maior disponibilidade de áudio e legendas possíveis é de valer cada centavo, além das incríveis produções originais que conquistam cada vez mais os assinantes.