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Crítica | A Qualquer Custo mostra a justiça e a desolação da América abandonada

A Qualquer Custo é a história de dois irmãos que saem por aí assaltando bancos e sendo durões. Mas também é a história de pessoas que não têm para onde correr. De lugares abandonados por Deus e pelo seu próprio país. De gente condenada pela ganância corporativa e por ter não ter nascido na família certa. Conforme vai contando a intensa história dos irmãos Howard, David McKenzie aponta sua câmera para uma América desolada e esquecida que fica comendo poeira.

Já no primeiro plano de filme uma pichação dizendo “dois tours pelo Iraque e nenhuma ajuda para nós” dá o tom do filme: A Qualquer Custo retrata o oeste do Texas como o primeiro passo em direção ao Velho Oeste. Por isso a produção aposta em uma paleta de cores dessaturada, que ressalta a secura local, acompanhada por uma câmera na mão para deixar tudo bastante urgente. Os cenários são desolados: casas a quilômetros de distância uma da outra, pastagens sem grama, ruas vazias, carros que parecem possuir menos potência do que um ventilador e o eventual fogo bíblico queimando as terras verdejantes de Deus. É o lugar onde mais pessoas carregam armas do que smartphones. Uma civilização sem nada para perder, cuja natureza se mostra tão inóspita quanto comer arroz e feijão de madrugada.

Nessa região desprovida de calor humano, a justiça é um quadro negro onde quem chegar pode escrever o que quiser. Sim, Toby e Tanner são caçados pela instituição policial competente, mas os pormenores da situação colocam os moradores no modo “QUERO VER O CIRCO PEGAR FOGO”, fugindo do maniqueísmo aparente. Os irmãos roubam exclusivamente de um banco que, como diz um dos locais, “vem me roubando há 30 anos“, e essa raiva das instituições permeia todo o filme – tanto que as pessoas na lanchonete sequer ajudam Marcus Hamilton a conseguir pistas porque enxergam nos dois Howards uma espécia de resistência estilo Robin Hood. É um Texas onde ninguém é de ninguém, nem mesmo o comportamento moral.

Com isso, todas as personagens que transitam pelas poeirentas cenas acabam construindo a personalidade da região (e o Texas é praticamente uma personagem em si). Da garçonete que não quer devolver uma gorjeta quando solicitada pela polícia aos caubóis levando o gado para longe do fogo e amaldiçoando a profissão, passando pelo parceiro de descendência indígena que precisa aguentar as provocações de Marcus, A Qualquer Custo monta um cenário complexo de desesperança. Quase um ambiente selvagem, como prova o simpático senhor que decide entrar no tiroteio em um dos assaltos de forma quase instintiva.

E claro, o filme se preocupa em tridimensionalizar os dois protagonistas também. À primeira vista, Toby pode parecer o esperto e bonzinho enquanto seu irmão é o tradicional psicopata ensandecido babando por uma glória de sangue, mas aos poucos os estereótipos se expandem: Tanner sofre ao entrar no quarto onde a mãe estava doente, exibe uma lealdade quase cega e um amor genuíno pelo sangue do seu sangue, define sua trajetória em diálogos naturais que mostram o horror de sua infância; da mesma forma, Toby se mostra implacável e violento quando a situação exige, embora suas motivações sejam sempre nobres e altruístas.

Há um roteiro preciso por trás disso, que leva a narrativa de forma natural até o momento na trama onde quantidade realmente grande de merda atinge um ventilador enorme. Além disso, fuzila o público com alguns one-liners inspirados (“como você ficou longe da prisão por tanto tempo?” “Não foi fácil” ou “Você sabe o que isso me torna? Um comanche“) e investe tempo na relação entre Tanner e Toby (como o plano dos dois brincando perto da cerca, por exemplo). Ajuda também ter um elenco afiado, com Chris Pine despejando carisma, Ben Foster chamando na insanidade total e Jeff Bridges obliterando tudo com seu timing cômico certeiro e trejeitos de tiozão do interior que sabe o que faz. Para completar, a trilha espetacular de Nick Cave e Warren Ellis é mais imersiva do que qualquer efeito 3D de qualquer blockbuster por aí.

Fui pobre a minha vida inteira. É como uma doença passada de geração para geração” Toby explica em determinado momento. A Qualquer Custo registra em cartório esse diálogo, sustentando ele com uma ambientação desolada, jogando em cena personagens cujos sonhos possuem expectativa de vida menor que um Stark e já atiraram no poço qualquer esperança de qualquer coisa. No meio disso tudo, encontramos dois irmãos que desandam estrada afora comentendo crimes por um único motivo: o amor incondicional à família. Não à toa, o momento de maior carinho entre ambos é quando Toby defende Tanner no posto, uma cena incrivelmente violenta, mas que, ao mesmo tempo, deixa carimbada na retina do espectador a importância que o irmão tresloucado teve/tem na vida do protagonista. E demonstração de amor através da violência é o máximo que podemos esperar deste mundo cruel apresentado por esta produção incrível.

André Costa
é cinéfilo, publicitário, zagueiro, leitor ávido e autor convidado do Ligado em Série.
http://www.melhorquenada.com

Postado em: 06/02/2017 | 10:09