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Crítica | Sem Jack Bauer, 24 Horas retorna com mais do mesmo

Em tempos de remakes, reboots e afins, era mesmo uma mera questão de tempo até que a Fox suspendesse a curta aposentadoria de uma de suas séries de maior sucesso dos últimos anos. Sem Jack Bauer, mas com todos os outros elementos que transformaram 24 Horas num hit, os criadores da série original apostam agora no novato Eric Carter (Corey Hawkins do filme Straight Outta Compton e de The Walking Dead) para contar a história de mais um dia em que a segurança dos EUA é ameaçada por uma conspiração terrorista. Ou seja: tirando a mudança de protagonista, 24 Horas: O Legado não traz absolutamente nada de novo pro formato que já conhecíamos. O que, dependendo da perspectiva e até da expectativa de cada um, pode ser muito bom ou muito ruim.

Como o ex-fuzileiro jogado no centro de uma nova conspiração, o Eric Carter feito por Hawkins não deve muito ao que nos acostumamos a ver Bauer fazer. Eficiente na ação como o veterano, Eric Carter, contudo, vem de um contexto diferente e não é um agente típico da CTU como era o personagem de Sutherland. Aparentemente confiando apenas na personagem de Miranda Otto (que faz a ex-diretora da CTU), Carter se vê envolvido numa trama que sugere a presença de um traidor no alto escalão das agências de segurança à medida em que seus companheiros vão sendo eliminados por homens ligados a um terrorista morto por ele e seu grupo alguns meses antes.

E é justamente nesse sentido que 24 Horas: O Legado se apresenta como mais do mesmo para o espectador, visto que embora até tente fazer algumas mudança cosméticas  aqui  e ali (as fontes que indicam a passagem de tempo, por exemplo, deixam de ser amarelas dando lugar pro azul), a fórmula – com tudo de bom e de ruim – que popularizou a série original  está praticamente toda lá repetida sem qualquer grande novidade ou variação temática. Assim, temos o macguffin da vez representado pela busca a um pen drive com planos de ataque do terrorista morto; um traidor misterioso potencialmente dentro da CTU; um político proeminente em plena campanha eleitoral (papel de Jimmy Smits) que acaba ligado aos eventos da vez e por aí vai.

E se isso já é frustrante o bastante (afinal, quem gosta de ficar vendo a mesma história contada repetidamente com pouquíssimas variações?), também o é ver que os realizadores de 24 Horas: O Legado, Manny Coto e Evan Katz, não tenham feito qualquer esforço para tentar afastar a série da ideia de ser um reflexo fiel e atual da visão distorcida das políticas de Trump e cia. A série precisa de um vilão facilmente odiável? Ah, diga que ele é veio do mundo árabe, claro. A ameaça é uma célula adormecida que já está em solo americano? Fale que ela veio de um país estrangeiro como a Chechênia, por exemplo, que vive em conflito com outra superpotência. O novo protagonista é negro? Indique que seu irmão vive do crime, evidentemente…

É provável que muita gente não enxergue nada disso como problema e abrace esse novo capítulo sem qualquer questionamento e com o mesmo senso de urgência das temporadas da série original, mas particularmente não consigo ignorar o fato de que 24 Horas: O Legado, conscientemente ou não, esteja legitimando ideologias de caráter tão vil reforçadas pelos mesmos estereótipos de sempre. “Ah, mas 24 Horas sempre fez isso, cara”, alguém pode dizer. Sim, é verdade, mas parece que com a realidade cada vez mais próxima da ficção, os criadores da série perderam a chance de tentar fazer algo genuinamente novo e que pudesse de fato justificar sua continuidade sem parecer um panfleto do discurso de Steve Bannon.

Ligado Entrevista: Miranda Otto, de 24 Horas: O Legado!

Nesse contexto, ainda que funcione como thriller de ação (e há sim algumas boas sequências como, por exemplo, a que encerra o episódio), não consigo deixar de imaginar como o tal  Legado poderia ser muito mais interessante se essa nova iteração fosse centrada numa busca pelo paradeiro de Jack Bauer mesmo que o personagem só pudesse aparecer, sei lá, no último episódio. Com Kiefer Sutherland ocupado fazendo Designated Survivor (que “coincidentemente” guarda várias semelhanças com 24 Horas no que tange a ter uma trama centrada em conspiração), o time de roteiristas desse spin-off não dá – pelo menos no primeiro episódio – qualquer indício de que a trama vá referenciar o personagem que consagrou o ator, deixando para os fãs da série, portanto, a ideia de que mais do mesmo (com um perfil ainda mais conservador) sem o Jack Bauer, é tudo que eles tem a oferecer agora. Damn it!

24 Horas: O Legado já estreou nos EUA. No Brasil a série estreia com episódio duplo nesta quinta, 9 de fevereiro, à 00h na FOX.

Davi Garcia
é administrador, cinéfilo, viciado em séries desde a estreia de The X Files, colecionador entusiasta do formato Blu-ray. Fundador dos lendários blogs Dude, We Are Lost! e DudeNews.
http://twitter.com/dav1garcia

Postado em: 06/02/2017 | 16:01

  • Guilherme Henrique

    Gostei muito do episódio. Jack Bauer era um personagem dá era Bush que simplesmente não se encaixa mais no contexto atual, vide a piada que é feita em um episódio de Desiganed Survivor. Eric já é um espelho do jovem americano que ve no exercito uma escapatória dá completa falta de perspectiva pro futuro que assola a população. O ator também muito bom só achei ele muito magro, falta uma presença mais imponente pras cenas de ação.
    Quanto a série ser mais do mesmo, acho complicado mudar muito pois a fórmula de 24 é muito engessada mas acredito que esse novo contexto era Obama vai agregar muito a serie

  • Lucas Ferrarezzi

    Prezado Davi Garcia,

    Falando sinceramente, senti uma certa má vontade na sua análise, não?! Se fosse pra ser outra série, pra início de conversa não se chamaria 24 horas. Os responsáveis por ela já explicaram: ” trata-se de uma expansão do universo de 24 horas, com novos personagens”.
    Observando as credenciais que você exibe, Davi, deduz-se que a ficção ocupa parte central de sua vida, não é mesmo? Assim sendo, por que permitir que se imiscua essa preocupação ideológica _ acachapante e maniqueísta_ na sua análise sobre uma série de TV? Não percebe você que, ” consciente ou inconscientemente”, sua visão está refém de um politicamente correto estúpido e vazio? Se for pra defender valores ideológicos da dona Hillary, ou do partido democrata_ como está sendo cobrado pelos ” progressistas” de Hollywood_, é bom lembrar_ ou se informar_ que foi exatamente o Partido Democrata quem financiou e financia o EI, docemente chamado, pelos democratas, de ” rebeldes moderados”_ e tome matança gratuita em nome do cinismo ideologicamente correto! Acresça o fato de que, tivesse sido eleita, dona Hillary confrontaria a Rússia,como ela mesma declarou, e o que poria, de uma vez por todas, a paz mundial_ e nossa própria sobrevivência, enquanto espécie_, em risco, não é verdade?
    Dessa forma, Davi, convido você a analisar a obra ficcional em si, pura e simplesmente. É agradável assisti-la? É emocionante? É bem dirigida? Os atores são bons? Também cumpre não esquecer, Davi, caso você tenha assistido a série original, que 24 horas levou, como nenhuma outra até então, as séries aos píncaros da glória, ditando regras para a própria Hollywood. Mais: nenhuma tivera, até então, a ousadia de não só matar presidentes norte-americanos como, também_ e muito além da sincera abordagem sobre terroristas islâmicos_ desmascarar os próprios norte-americanos como os maiores terroristas, numa visão altamente corajosa e maravilhosamente livre de quaisquer amarras ideológicas. E se ainda não bastasse, como se poderia imaginar, com apenas o primeiro episódio de 2001, que 24 horas tornar-se-ia essa referência obrigatória para a televisão mundial?
    Portanto, prezado Davi, sugiro mais calma, mais equilíbrio e, também, um pouco mais de respeito com os premiadíssimos roteiristas da premiadíssima série. Ao fim e ao cabo, se a obra estiver aquém, critique-se, nenhuma dúvida. Mas deixemos nossos corações e mentes abertos para a ficção, tão -somente, ok?
    Abs,

    Lucas Ferrarezzi.

  • Cris Martins

    Davi concordo com você sou fã de 24 horas e digo que depois de ver a estréia ontem queria que a FOX,reprisasse todas as temporadas.
    Nao gostei prefiro a original,estão gastando dinheiro a toa.
    Amo o Jack Bauer, querer fazer algo que ja conhecemos com um ator que nao e tao famoso,e furada.

  • Leonardo Martins

    Lucas, tive o trabalho de logar, tão somente para concordar contigo.

  • Adelson Junior

    Porra, é foda num darem ao menos uma explicação sobre o Jack. O q os russos fizeram com ele ? Torturaram. Mas só isso ? Enfim, num é possível que os envolvidos na série vão deixar por isso mesmo.