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Crítica | Punho de Ferro é uma gigantesca e aborrecida bagunça

Parte I | episódios 1 a 8 | Sem spoilers

Há um quê de insurgência na trajetória das três primeiras séries da Marvel na parceria com a Netflix: um advogado cego, uma detetive resignada no vício e um ex-prisioneiro injustiçado que encontram no vigilantismo um significado maior para suas vidas nos esquecidos subúrbios de uma grande metrópole. É nessa linha, pelo menos à princípio, que Punho de Ferro estabelece seu heroi Danny Rand (Finn Jones, de Game of Thrones). Vi oito (de 13) episódios desta primeira e, tomara, única temporada, que estreia nesta sexta 17 de março no serviço de streaming.

A quarta aventura do acordo que vai reunir o grupo Defensores até começa promissora e razoavelmente bem, mostrando a chegada do rapaz quase indigente à Nova York, até ensaiando algum alívio cômico aqui e ali. Ele havia sofrido um acidente de avião com os pais quando criança e sobreviveu na cidade etérea de K’un Lun, depois de ter sido resgatado por monges. O local, segundo o cânone, somente aparece em plano terrestre periodicamente e, por conta disso, ele cresceu e se tornou um mestre de kung-fu e um dos poucos a dominar a arte do… Punho de Ferro (um soco brilhante e forte que aparece e desaparece quando o roteiro assim exige).

Vivendo como um mendigo nas ruas de Nova York (ainda que por 10 minutos), Danny precisa provar que é o legítimo herdeiro das empresas Rand, hoje comandada pelo casal de irmãos que eram seus amigos de infância. Falhando em estabelecer o que é ser um “Punho de Ferro”, bem como o conceito e a natureza de K’un Lun, a série nos atira em um interminável e aborrecido drama corporativo (refletido inclusive nas fotos oficiais da série que ilustram este texto).

Aliás, é curioso que durante os capítulos iniciais, grande parte da narrativa é gasta com Danny tentando convencer de todas as formas possíveis e impossíveis que ele é quem diz ser para Joy e Ward Meachum (Jessica Stroup e Tom Pelphrey). Até num manicômio jogam ele (também por 10 minutos). Porém, quando esse conflito não é mais necessário, Rand consegue, a partir daí, provar quem ele é pra quem quer que seja, incluindo pra advogada Jeri Hogarth (Carrie Anne-Moss), apenas confirmando uma ou duas informações sobre seu passado.

Na trama Rand erraticamente acaba envolvido nos planos da Mão e é isso que aparentemente vai fazer com que os quatro herois se encontrem, com a ajuda de um easter egg do universo Marvel (leia-se Claire Temple). Mas em vez de colocar o especialista em luta nas ruas perseguindo bandidos e, quem sabe, esbarrando com Luke, Jessica ou Matt, o drama se desenrola em reuniões, salas de conferência, coletivas de imprensa e coberturas caras, repleto de jargão empresarial, conselhos, conselheiros, votos, sócios majoritários… argh. O que aconteceu aqui? Cadê o kung-fu? É só lá do meio pra frente que ele de fato põe a mão na massa, e olhe lá.

É com esse tipo de roteiro que estamos lidando, e não me surpreendi ao ver os nomes Scott Buck e Scott Reynolds, que cometeram as últimas temporadas de Dexter, como responsáveis criativos dessa atração. Mas antes “conveniência narrativa” fosse o único problema de Punho de Ferro. Não é. Trazendo provavelmente as lutas menos inspiradas de todas as produções desta franquia, o drama tem um protagonista nada carismático e sem um objetivo claro, e que jamais convence como “mestre supremo das artes marciais”, ainda mais quando literalmente nos obriga a testemunhar um playboy com ar de europeu tentando ensinar a sensei oriental Colleen (a ótima Jessica Henwick) como lutar na arte que ela já domina e, cof cof, ensina. Ela é a única personagem nova realmente interessante e minimamente coerente em toda a trama e é Colleen quem devia estar ensinando Rand a controlar suas habilidades que não estão 100% dominadas.

Mansplanningwhitewashing de lado, Punho de Ferro sequer entretém como seus antecessores. Não que DemolidorJessica JonesLuke Cage não tenham suas doses de problemas, pois têm, mas essas séries possuem identidades próprias (e um design de produção único e caprichado), protagonistas fortes, interessantes e que sistematicamente funcionam no universo em que são inseridos. O texto é mergulhado em diálogos expositivos e personagens mal construídos, cujas motivações (incluindo as do protagonista) são mais voláteis que o temperamento do Hulk (apenas para manter as referências na mesma casa) e as lutas claramente tentam emular as ótimas sequências vistas em Demolidor.

Assim não dá pra entender por que às vezes ele parece ter feito um voto de pobreza para, instantes depois, aparecer de terno controlando uma multinacional sem nunca ter tido o menor treinamento para conduzir qualquer tipo de negócio, ao mesmo tempo em que quer desvendar um esquema de tráfico de drogas dentro da empresa que acabara de assumir e até mesmo militar em uma causa ambiental. Em linhas gerais, Punho de Ferro quis, ao mesmo tempo, estabelecer e desenvolver um novo grupo de personagens, estabelecer e desenvolver os vilões da vez (que continuam péssimos, viu Marvel?), amarrar as pontas deixadas pelas séries antecessoras e costurar tudo num bem bolado para entregar para Defensores daqui a alguns meses. Nem uma criança hiperativa é tão dispersa quanto essa série.

Não foi a melhor das ideias. Não foi a melhor das execuções. Há algumas cenas mais avançadas (incluindo a do “””grande””” duelo do Punho de Ferro com o Tentáculo e, mais à frente, numa China pessimamente emulada no ~Brooklyn) que me deixaram com vergonha do que estava assistindo. Punho de Ferro é problemática do início até onde vi e, pelo andar desse barco, duvido muito que os últimos cinco capítulos que não vi vão magicamente consertar esse enorme deslize em forma de série. Que venham logo esses Defensores pra tirar esse gosto amargo da boca.

Parte II | Episódios 9 a 13 | com spoilers (clique para ler)

Bruno Carvalho
é crítico e especialista em TV, tradutor, advogado e fã de séries desde que foi fisgado por Friends em 1994 e hoje é o editor-chefe do site de séries mais seguido do Brasil! Contato: contato@ligadoemserie.com.br
http://twitter.com/ligadoemserie

Postado em: 16/03/2017 | 2:06

  • Bruno Sousa

    “playboy com ar de europeu tentando ensinar a sensei oriental”

    “Mansplanning e whitewashing”

    Militei™

  • cgjusten

    Kkkkkkkkkk… profundo conhecimento.. vou assistir , tomara que nosso crítico esteja enganado, mas pelo visto ele não está.

  • Danilo Souza

    É engraçado como os críticos ficaram obcecados com isso nessa série… “Ah, o protagonista é branco e sabe lutar kung-fu, -2 pontos de cara”

    Uma coisa é criticar o ator por não convencer que é um mestre do kung-fu, outra é criticá-lo pela etnia, que por sinal não diverge da original dos quadrinhos, então não sei porque chamar de whitewashing…

    Vou assistir e tirar minhas próprias conclusões, claro, mas saber desse foco em drama corporativo já me tira o tesão…

  • Interessante essa pontuação. Primeiro porque “o personagem ser assim” no material original não significa que um erro precisa ser perpetuado. Personagens faziam blackface antigamente também, e isso foi abolido. A arte evolui.

    Ademais, curioso também notar que dentre os mais de 3.000 toques que dei sobre a série, é nisso que focam – algo que (está na série) e eu sequer desenvolvi, preferindo deixar “de lado” para evitar esse mesmo “mimimi”. Que coisa.

  • Danilo Souza

    Comparar com o blackface é um exagero bem dramático de sua parte. Mas eu entendo seu ponto, e na verdade só questionei o uso do termo, que penso não se aplicar pra esse caso. De qualquer maneira, não sei se o Danny Rand não ser asiático seja um erro… Até porque um asiático mestre das artes marciais é um clichê, e certamente isso seria apontado.

    Mas eu só foquei nisso mesmo porque o resto não tenho como comentar sem ter visto a série. E sim, tanto você como outros críticos falaram que o Finn Jones não convence como mestre kung fu, o que deve tornar a cena no mínimo curiosa…

    Vou assistir mesmo, mas confesso que só pra cumprir tabela. Estava ansioso pela série porque esperava algo mais místico e com mais liberdades criativas que as anteriores, justamente pela premissa maluca. Além de eu ser fã de filmes de artes marciais… Mas tudo que li parece apontar pra uma outra coisa. Talvez eu até goste do drama corporativo, mas certamente não será a série do Punho de Ferro que eu queria.

  • Danilo, até cabe a discussão sobre ser ou não whitewashing sobre o casting em si, mas quando a série coloca o personagem (um homem caucasiano) orientando uma especialista no assunto (uma oriental treinada e professora na arte marcial), é impossível não apontar isso.

  • Danilo Souza

    Bem, quando eu assistir à série vou poder julgar melhor.

  • Magnosama

    Parece mesmo pavoroso,
    todos os erros apontados, são o tipo de coisa que realmente detesto em uma produção.

  • Bruno Sousa

    “Até porque um asiático mestre das artes marciais é um clichê, e certamente isso seria apontado”.

    Não só clichê, seria um estereótipo. O do asiático ensinando artes marciais para um branco. E quando aparece uma série que inverte isso, vira mansplanning e whitewashing.

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  • Marcelo Reis

    Luke Cage dá sono, preguiça; é chata pra cacete.
    Mas tanto esse portal (que gosto bastante por sinal) como a maioria da critica elevou a um patamar que até hoje não consegui entender.

    Vamos assistir e tirar nossas próprias conclusões.

  • Felippe Entrielli Riguette

    Luke Cage é a pior série que já assisti na vida e os críticos endeusaram. Seria o oposto o caso aqui? Só assistindo…

  • Marcelo Carvalho

    Luke Cage eu achei sonolenta, mas era muito bem produzida e os arcos dos personagem bem desenvolvidos, apesar que para uma série de heróis ficou devendo, porque o herói não queria lutar, só era usado como escudo para balas. Resultado, pouca ação e quando tinha as lutas eram mal desenvolvidas. Mas pelo que estou lendo sobre essa nova série a coisa piorou bastante. Acho que vou pular essa.

  • Rafa Almeida

    “nos obriga a testemunhar um playboy com ar de europeu tentando ensinar a sensei oriental Colleen (a ótima Jessica Henwick) como lutar na arte que ela já domina e, cof cof, ensina.”

    Com essa frase, chegamos a conclusão de que essa crítica não precisa ser levada a sério.
    Justiceiro social é câncer do século.

  • Sinceramente, eu acho não faz sentido apontar isso, mas cada um tem a própria opinião.

    > Japoneses criaram o Jiu-Jitsu, mas mundialmente os brasileiros são a referência pra essa palavra, e nenhum Grace é oriental.
    > Steven Seagal dava aulas de artes marciais japonesas no Japão, mesmo sendo americano e não descendente de orientais.

  • Pelo jeito abandonaram todo o conceito do personagem, a parte mística da coisa e a parte de heróis de aluguel também, mas pra falar a verdade nenhum trailer conseguiu me animar pra assistir essa série e o ator já era bem fraco em GOT. Espero que n estraguem a série do Justiceiro.

    Agora sobre vilões do Marvel, o homem púrpura e o Rei do Crime são mto bons na minha opinião. O cottonmotuh tava indo bem, mas aí do nada, Pah.

  • Choro

    Honestamente eu acho chato pra caralho uma galera que lê uma crítica inteira com vários argumentos e foca em reclamar de uma única frase perdida no meio. Ele prefere no texto inclusive não entrar no assunto…

  • Choro

    Pensei a mesma coisa. Inclusive fiquei um pouco preocupado qdo vi o Danilo dizendo que “pelo menos os outros protagonistas eram carismáticos”. O Luke Cage pra mim era tão caristmático quanto uma porta… Só tinha uma cara de entediado a série inteira

  • Daniel

    Sim, um caucasiano nunca vai poder superar um oriental em artes marciais…
    Mas quando é o Tarantino que faz uma caucasiana descer o cacete em vários orientais, aí é de boas, né?
    Afinal, ser fã de Tarantino é extremamente cult.
    Mas bem, tirando essa parte que não concordo, a série tem tudo para não ser grandes coisas mesmo. Já não achei grandes coisas Jessica Jones e Luke Cage apenas os primeiros episódios foram legais. Depois deu sono…

  • Michael WIllian de Souza Antun

    Crítica sem spoiler não pode né?

  • Michael WIllian de Souza Antun

    Ainda não assisti, mas achei a crítica bem pesada. Pelo tom do texto a série parece uma bomba. Espero que não seja.

  • Não tem spoiler ALGUM nesse texto.

  • Nerubian Anub’arak

    Um erro perpetuado. Um ERRO PERPETUADO. Eu fico imaginando os militantes no ombro do Stan Lee e Jack Kirby, dizendo, não é assim, muda aquilo ali, caucasiano? homem? Eu que gosto de desenhar e criar, fico imaginando a pessoa dizer que a ideia da minha cabeça, que minha criação está errada kkkkk

  • ClaytonGodinho

    Bruno, a série é ruim mesmo, chata como uma dor de dente. Agora os fãs da Marvel estão aprendendo que nem sempre a marca vai convencer alguém a falar bem.

  • Paulo Cesar Tavares

    Curioso que eu assisti, até agora, os mesmos 8 episódios de 13, e digo que estou curtindo bastante. Não entendo de onde veio tanta má vontade com essa série. Não entendo tanta má vontade com o Finn Jones, qye está muito bem como Danny Rand.
    Prefiro assistir os 13 episódios e tirar minhas próprias conclusões.
    Por enquanto, está muito legal!

  • Rick Pimentel

    Concordo com o que falou. Mas devia assistir tudo antes de querer ser o primeiro a fazer uma critica. Soa como a própria série, com ar de mal acabada.

  • Amigo, respeito seu ponto quanto ao mansplaining e o whitewashing, mas preciso descordar dessa vez:

    1- Quanto ao whitewashing, ele não existe justamente pelo personagem nunca ter sido oriental. Isso não é erro (por isso acho que sua argumentação do blackface não é válida, pq lá brancos interpretavam pessoas manifestamente negras). Diferentemente da discussão da Scarlett Johansson no Ghost in the Shell, que o whitewashing chega a ser perturbador.

    2 – quanto ao mansplaining eu acho que a série deixa bem claro que se tratam de lutas diferentes. Colleen Wing não ensinava kung fu, e isso ficou bem claro nas discussões deles, então ele acabava explicando o lado do aprendizado dele. Claro, nunca vimos o caminho inverso (ela ensinar a arte dela), mas isso considero mais a falha do roteiro do que uma misoginia subliminar.

    De resto, gostei muito da sua crítica. Apenas falando isso para complementar a discussão.

    Grande abraço!

  • ramon queiroz

    Kkkk tenho quase todas as HQs do punho de ferro é muito boa assim como a série.quem não conhece as HQs realmente acha série estranha,mas vale lembrar q punho de ferro foi criado na década de 70 quando o Kung Fu estava em alta principalmente por conta do bruce lee,por isso a quantidade de clichê.

  • ramon queiroz

    Leiam arma viva umas das melhores HQs do punho de ferro

  • Danilo Souza

    Mas como é que eu ia falar do resto sem ver a série antes? Tendo visto uns episódios, só agora posso falar que concordo com boa parte das observações do site. Série bem chatinha.