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Após votação, nova greve dos roteiristas deve parar Hollywood já em Maio

Aconteceu ontem em Universal City, Los Angeles, a votação do Sindicado dos Roteiristas para iniciar uma nova greve. Mais de 900 membros do sindicato compareceram e, de acordo com os presentes, há indicação clara de que o SIM vai ganhar e que uma nova greve será autorizada.

O Sindicato dos Roteiristas dos EUA, o WGA, pediu no começo do mês uma autorização a seus 12.000+ membros para iniciar uma nova greve. O impasse deriva de negociações frustradas com a Aliança de Produtores de Filmes e Televisão, que quer cortes nos planos de saúde do Sindicato. Produtores culpam a diretoria do Sindicato de interromper as negociações abruptamente.

O presidente da entidade Howard Rodman, disse:

“Uma autorização para greve não é algo que consideramos simples. É, como sabemos profundamente, um passo assustador. Mas é necessário.”

Se autorizada, a greve pode começar já no dia 1º de maio e pode afetar praticamente todas as séries em produção para o Fall Season e para o início de 2018, incluindo The Walking DeadThis is UsWestworldInumanos, The Crown, todas da Shonda Rhimes e Dick Wolf e muitas outras.

Segundo o Sindicato, os Produtores queriam uma redução de 10 milhões de dólares nos planos médicos, bem como outros cortes que, a partir de agora, deveriam ser repostos com a própria remuneração dos roteiristas, e não mais subsidiados. O Sindicato classificou isso como “medida draconiana” e “inaceitável’. O contrato atual entre as entidades encerra-se dia 1º de maio, exatamente 10 anos após a greve de 2007.

A Diretoria do Sindicato alega que a Aliança de Produtores registra lucro recorde de 51 bilhões de dólares anualmente e que por isso não vai ceder. Se aprovada a greve, Hollywood praticamente para e a única saída para que isso não aconteça é um acordo que dificilmente sairá.

A grande greve de 2007

Muitos talvez não se lembrem, mas no ano de 2007 tivemos uma grande greve que estancou a produção. Na época o motivo era justamente o repasse de valores a roteiristas referente à transmissões via streaming, até então experimentais e que, segundo a Aliança, não geravam receita significativa. Os roteiristas queriam um repasse pela transmissão de programas, filmes e séries em plataformas digitais como sites e aplicativos, anos antes da Netflix surgir.

As partes, então, encerraram as negociações (tal como está acontecendo agora) e os membros formaram piquetes na porta de canais e estúdios como forma de pressionar para um acordo. A greve de 2007 parou a indústria do entretenimento por 100 dias e causou prejuízos da ordem de bilhões de dólares para o mercado.

Os efeitos da greve

Com roteiristas parados, Hollywood e toda a produção nos EUA praticamente para. Séries, filmes, talk-shows e até programas de variedade não podiam continuar no ar, pois dependiam e dependem exclusivamente de roteiros. Poucos profissionais furaram os piquetes. Muitas séries já garantidas para uma temporada completa simplesmente tiveram que cortar o número de episódios e encerrar temporadas sem finalizar arcos dramáticos em andamento.

Algumas das atrações afetadas foram LOST (4ª temporada), Prison Break (3ª temporada), Breaking Bad (teve a 1ª temporada com número de episódios reduzida), Grey’s Anatomy (4ª temporada reduzida à metade, gerando toda a confusão com Katherine Heigl e sua saída) e muitas outras. Algumas tiveram inclusive temporadas inteiras adiadas como Battlestar Galactica24EntouragePrivate PracticePushing Daisies. O aguardado spin-off de Prison Break, intitulado Prison Break: Cherry Hills, jamais chegou a sair do papel. Filmes em desenvolvimento pararam e só aqueles que já estavam com o roteiro 100% entregue puderam ser produzidos.

A greve também gerou a proliferação de reality-shows, game shows e realities de competição. Isso porque esses programas são classificados como “não-roteirizados” e não exigem um membro do WGA para serem produzidos. Foi uma greve que mudou e moldou Hollwyood como temos hoje e os efeitos de uma nova greve na era do “too much TV” pode ter repercussões ainda maiores, já que estamos no ápice da produção audiviosual.

Bruno Carvalho
é crítico e especialista em TV, tradutor, advogado e fã de séries desde que foi fisgado por Friends em 1994 e hoje é o editor-chefe do site de séries mais seguido do Brasil! Contato: contato@ligadoemserie.com.br
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Postado em: 19/04/2017 | 10:15

  • adrianotenorio

    Uma curiosidade…será que os serviços de streaming (Netflix e afins) sofrem menos influência (teriam um tempo de produção menor para uma temporada, por exemplo), ou em termos de impacto na produção não tem diferença? Na greve de 2007 não tinha esse cenário como o de hoje na produção de conteúdo.

  • O impacto em séries que estão em desenvolvimento é o mesmo. A diferença é que algumas séries da TV aberta mantém desenvolvimento enquanto são exibidas. Começando me maio afeta praticamente tudo que estaria pra estrear na Fall Season e que não está gravado.

  • Danilo

    Muito bacana poder ver um mundo sindicalizado nas terras do Tio Sam. Enquanto no Brasil, a classe artística é totalmente apática nos EUA ela é sindicalizada