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Crashing: Pete Holmes fala ao Ligado sobre traição, stand-up e religião

A premissa de Crashing é bastante recorrente em comédias: um marido chega em casa e encontra a esposa na cama com outro homem. A diferença é que dessa vez a história é autobiográfica. Pete Holmes, criador e protagonista da série da HBO, se inspirou em uma fase bastante sombria de sua vida, quando foi traído e acabou na rua depois de um divórcio.

“Eu era muito religioso, me casei aos 22 anos com a minha primeira namorada e quando tinha 28 ela teve um caso. Para a série, nós mudamos alguns personagens e deixamos tudo mais agitado, porque um divórcio é bastante tedioso na vida real. Mas ainda é tudo muito emocionalmente verdadeiro”, contou o humorista ao Ligado.

A ideia de transformar uma história de traição em uma comédia não colou logo de cara. Quando apresentou a premissa a Judd Apatow, de GirlsLove, o famoso diretor não viu futuro. “Não achei que parecia uma comédia, era só uma história triste e trágica“, contou Apatow em uma entrevista à revista The Village Voice, em março. Apenas depois que Holmes reescreveu tudo, transformando a série na jornada de um comediante sem experiência e sem grana, é que ele topou dirigir o piloto e produzir a atração do novato comediante.

“É engraçado olhar pra um período triste da minha vida e pensar que eu transformaria aquilo em uma piada”, comentou Pete, que encontrou uma maneira de rir da própria tragédia: “Você consegue fazer isso enxergando pelos olhos de outras pessoas. Por mais que seja triste para o personagem, olhando para o cenário todo eu imagino que a situação foi engraçada para quem estava de fora”.

Além da traição, outro detalhe trágico da vida de Pete acabou alimentando a série: o período em que ficou “sem teto”. Daí o nome da série, “Crashing“, que nos EUA é uma gíria para “dormir no sofá dos amigos”.

“Na vida real, o tempo que cobrimos na série levou 15 anos. Fiquei quebrado por muito tempo”, conta o criador, hoje com 38 anos. 

Para ele, a tragédia também é um ingrediente importante da comédia:

“Eu acho que uma sobremesa deve ser doce, mas com um pouquinho de sal. Gosto quando uma série é engraçada, mas também tem a capacidade de tocar seu coração! É isso que faz as pessoas quererem ver mais”, revela.

Pete também conta como passou de sem-teto a estrela da HBO:

“Fui fazendo o máximo de apresentações que eu conseguia. Conheci outros comediantes melhores, ouvi conselhos deles e aprendi muito. Daí comecei a fazer turnês e me apresentar em outras cidades. Lentamente você vai evoluindo, e espera que a pessoa certa veja sua performance e lhe dê uma oportunidade”

Com uma premissa similar a Seinfeld, e mais recentemente LouieCrashing mostra a trajetória de um comediante que faz stand up, mas para Pete existe uma diferença importante:

“Ele está no começo da carreira, então ele não é muito bom, e isso é engraçado. Além disso ele também é religioso em um meio cheio de ateus. Ele está sofrendo com o coração partido mas não quer sair, encher a cara e usar drogas”.

Apesar de ter vivido em um universo completamente alheio à religião, ele diz que ainda mantém uma certa identidade espiritual:

“Não me considero religioso exatamente daquele jeito. A minha religião era mais focada em tentar ser uma boa pessoa, não xingar, essas coisas. Agora eu vejo que religião é mais a sua compreensão de Deus e do universo, não é tentar sem bom aos olhos de outras pessoas, é uma coisa mais profunda, pessoal e particular, que eu ainda busco todos os dias!”, filosofa.

Pete comenta também o situação atual da política americana, com Donald Trump na presidência, e a influência disso produção de entretenimento:

“Com as eleições, as pessoas estão muito tensas e infelizes. Acredito que isso faz com que elas procurem por séries, filmes e até músicas que sejam mais positivas”.

Além de Pete, Crashing conta com vários nomes consagrados da comédia estadunidense, como Sarah Silverman (The Sarah Silverman Program), T.J. Miller (Silicon Valley), Lauren Laokus, George Basil, Vanessa Bayer (Saturday Night Live), Artie Lange, Todd Montesi, entre outros:

“Nós sempre escrevemos o roteiro pensando nos convidados. Nunca pedimos para um ator mudar seu estilo, sempre adaptamos a série ao ator. Essa foi uma das razões porque eles gostaram de fazer parte do projeto”, diz Pete.

Como toda boa comédia, a improvisação também é parte fundamental de Crashing.

“Nós escrevemos a cena e, na hora de gravar, fazemos uma vez de acordo com o script, mas todos os outros takes são feitos com improvisos. No final das contas, de 80% a 90% das piadas são improvisadas. Contanto que a estrutura da história permaneça, nós podemos brincar livremente e nos divertir”, comemora o comediante.

Crashing exibiu 8 episódios em sua 1ª temporada na tela da HBO e já foi renovada. Os episódios podem ser assistidos ou reassistidos pelos assinantes na HBO On Demand, no Now e HBO GO. O especial de stand-up Pete Holmes: Faces and Sounds também está disponível na plataforma.

Micheli Nunes
Micheli Nunes é jornalista e especialista em cinema e TV. Trabalha com entretenimento e cultura pop há 10 anos e acompanha mais séries do que tem coragem de admitir.

Categorias: Crashing, Entrevistas, HBO

Postado em: 13/04/2017 | 20:44