Séries:

Crítica | O amor é só um escapismo em The Leftovers 3×04: G’Day Melbourne

Foto: Divulgação/HBO

[contém spoilers] A Austrália é um prato cheio para simbolismos de relacionamentos: possui regiões desérticas, foi uma colônia penal e abriga animais de outras dimensões. E todos esses se aplicam à situação de Kevin e Nora, os pombinhos que viajam para Melbourne neste G’Day Melbourne e descobrem que, na verdade, o relacionamento é apenas uma muleta para ajudá-los a enfrentar a solidão amarga de uma busca condenada por algo que nunca terá resposta (assim como a origem dos animais bizarros que vivem na Austrália).

Se em Down Under foi a jornada de Kevin Garvey Sr. que abraçou o coração do espectador com espinhos, G’Day Melbourne leva o relacionamento de Kevin e Nora para a aula de ciências e disseca ele com um bisturi. Nora nunca esteve muito confortável brincando de casinha, é verdade (e com bom motivos), mas o episódio calcifica o distanciamento dela em pequenos detalhes: abandonar Kevin na fila sem problemas; resolver um possível conflito (o dinheiro) com sexo; insistir em ir sozinha para o encontro; e por aí vai.

Foto: Divulgação/HBO

O próprio fato de a moça contar ao chefe de política toda a história da máquina e do dinheiro, sempre com uma naturalidade incrível, indica que a opinião do Kevin sobre ela não significa muito. Tal qual uma fila de banheiro, a vida de Nora é uma espera agitada por algo incerto. Ela se apega a algumas missões como se fossem boias salva-vidas, mas nunca dura muito, e o que G’Day Melbourne faz é, aos poucos, cutucar a personagem até chegar ao limite. Jamais saberemos se Nora realmente tinha a intenção de entrar na máquina; entretanto, a reação da investigadora de fraudes ao ser barrada torna tudo ainda mais trágico, pois ela mesma parecia querer descobrir isso, descobrir se tinha coragem de tentar se juntar à sua família, e agora precisa lidar para sempre com a incerteza. E tudo acontece justamente por causa de sua mentalidade pragmática  (em uma cena que também joga mais drama em cima do homem que ateou fogo em si mesmo em Down Under), algo que é característico desde o 14 de outubro.

(aliás, aqui cabe um parênteses: será que Nora foi recusada por estar grávida? Afinal, quando ela e Kevin fizeram o que o povo gosta no aeroporto, a câmera fez questão de enquadrar o ícone do fraldário. Pouco depois, a moça estava literalmente com um bebê na mão. Ok, ela diz que não tem como, mas não seria a maior surpresa da história da maternidade na família dela, visto o ocorrido com Mary)

Ao lado de Nora, Kevin precisa aprender novamente a diferenciar a vida real da fantasia enquanto flerta com a possibilidade de ser um messias. Outro que nunca realmente se encontrou após o 14 de outubro, o chefe de polícia perde o chão totalmente quando descobre que Evie existe apenas no seu lóbulo frontal. Lembrando que ele já passou por tudo isso de forma muito mais intensa com a Patti, é bem compreensível que Kevin decida abandonar tudo (Nora, Evie, respostas, o livro de Matt) para seguir um outro caminho sem saber realmente para onde ir (também é emblemático que volte para os braços do pai, como uma criança perdida e sem rumo). A ideia de que ele não pode voltar para a casa sugere mais o não ter realmente um lar e menos algo operacional.

Foto: Divulgação/HBO

Isso tudo leva à contenda entre o chefe de polícia e a investigadora de fraudes. É uma cena incrivelmente tensa onde um tenta deliberadamente machucar o outro (alguns diálogos soam explícitos demais, com Nora dizendo como Kevin se sente e vice-versa, e sobre coisas que a série já havia estabelecido, mas não chega a incomodar) – e cujos contornos dramáticos ganham injeções de anabolizante graças à câmera instável e à ópera que oblitera tudo na trilha. Os planos fechados dão força a diálogos como “diga ao Matt, ele vai querer colocar na porra do livro” ou “nós não falamos sobre merda nenhuma”. É uma briga bíblica.

A própria direção de arte ajuda a construir o clímax adicionando elementos caóticos (o livro, o fogo, o sistema anti-incêndio). E isso passa, claro, por atuações monstruosas de Justin Theroux e Carrie Coon – que fica melhor a cada dia (incrível como a Nora dela é enérgica e inquieta mesmo quando não parece enérgica e inquieta, como se nunca relaxasse). Eles se separam brigando porque é a única forma de se separarem, mas é desconcertante ver duas pessoas que vimos sofrer tanto e que deviam ter um mínimo de empatia pelo outro se machucando dessa forma.

Entretanto, o ponto de The Leftovers é justamente esse: ninguém superou o 14 de outubro. As pessoas estão em estradas solitárias buscando algo que dê sentido à essa existência. Quando Kevin vê Evie pela primeira vez, ela está segurando um cartaz dizendo “Surah 81“. É uma passagem do Alcorão que descreve um cenário quase apocalíptico e um renascimento posterior, principalmente de iluminação espiritual. Com o aniversário do desaparecimento chegando e novas perguntas não respondidas (explosão? Voos cancelados?), talvez exista algum grande acontecimento à espreita.

Resta saber se isso vai ser o suficiente para preencher o vazio que vive dentro de Kevin, Nora, Matt, John, Kevin Garvey Sr. e tantos outros.

André Costa
é cinéfilo, publicitário, zagueiro, leitor ávido e autor convidado do Ligado em Série.
http://www.melhorquenada.com

Categorias: Críticas, HBO, The Leftovers

Postado em: 11/05/2017 | 10:17

  • Marilise Soares De Zotti

    Excelente crítica, André! The Leftlovers terminará com chave de ouro

  • Douglas Couto

    De onde vc tá tirando esse Down Under? Kkk é Crazy Whitefella Thinking rs. Bela crítica, btw

  • André Nique Costa

    Assim espero, Marilise! Por enquanto essa 3a temporada tá impecável, vamos acender velas para que continue assim até o final.

  • André Nique Costa

    Haha obrigado. Espero que os episódios (e as críticas) continuem boas até o final da temporada.