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Twin Peaks: o retorno a um lugar maravilhoso e estranho

Foto: Divulgação/Showtime

[Contém spoilers] Twin Peaks, a cultuada série criada por David Lynch e Mark Frost em 1990, está de volta à TV a partir do dia 21 de maio no canal Showtime, com uma nova temporada que acompanha os acontecimentos na cidade 25 anos depois. Para quem não está familiarizado, é preciso começar dizendo que a produção foi um marco na televisão, gerou uma enorme base de fãs que celebra a série até hoje e envolveu telespectadores do mundo inteiro em torno de uma pergunta: Quem matou Laura Palmer?

O enredo da primeira temporada inicia com uma das cenas mais icônicas da televisão: a descoberta do corpo de Laura, estudante querida por todos na comunidade, mas que esconde muitos segredos. Para investigar o assassinato, chega à cidade o agente especial do FBI Dale Cooper, com suas técnicas investigativas extravagantes, que flertam com o oculto. Somos apresentados a um dos personagens mais singulares já criados para a TV, e Kyle MacLachlan faz um trabalho maravilhoso ao dar vida a esse agente que adora um bom café, tortas de cereja e possui um forte lado espiritual.

A série também retratou um dos locais mais marcantes da ficção: Twin Peaks, um lugar pitoresco e misterioso, cercado por uma floresta onde habitam poderes obscuros e com uma galeria de moradores excêntricos que nunca são muito bem o que parecem (assim como as corujas). Nessa cidade tudo é estranho, atraente e, ao mesmo tempo, incrivelmente trivial. É importante ressaltar que essa atmosfera fica completa através da maravilhosa trilha de Angelo Badalamenti, que criou temas clássicos e memoráveis que conseguem ser exóticos, tensos e até mesmo piegas em alguns momentos. Muito da peculiaridade do local e de seus habitantes fica evidente através da trilha, o que a coloca em um nível criativo que poucas conseguem atingir.

Antes de seguir adiante, preciso confessar que o revival de Twin Peaks é algo muito especial para mim. Foi a primeira série pela qual me apaixonei, lá pela metade dos anos 90. Não acompanhei pela infame exibição feita pela Globo, que cortou cenas e fez outras lambanças, mas posteriormente em VHS. Quando assisti ao piloto pela primeira vez, fiquei completamente hipnotizada, começando pela narração daquela estranha senhora segurando um tronco (a notável Log Lady, fundamental para a mitologia da série). Lembro até hoje do impacto que duas cenas em especial me causaram: a primeira foi a caminhada de Ronette Pulaski nos trilhos do trem, apenas ao som do vento; a segunda, o sonho de Cooper – e primeira aparição do Black Lodge: as cortinas vermelhas, o piso com aquele padrão preto e branco, as estátuas, a falecida Laura Palmer, um Cooper envelhecido e um anão todo de vermelho. Os personagens falavam de um jeito estranho (os atores decoraram suas falas de trás para a frente, causando aquele efeito) e eis que uma música etérea começa a tocar e o anão começa a dançar. Juntos, esses elementos construíram uma cena surreal, perturbadora e intrigante, tudo ao mesmo tempo. Como era inevitável, algumas coisas em Twin Peaks ficaram datadas, mas essa cena, que revi não faz muito tempo, segue impressionando.

Outro ponto digno de nota para falar sobre a série é que, em tempos em que ainda não se falava em narrativas transmidiáticas (desdobramentos de uma ficção em diferentes plataformas), Twin Peaks fez algo bastante inédito para a época: expandiu sua narrativa em dois livros: “O Diário Secreto de Laura Palmer” e “Dale Cooper: Minha vida, Minhas Gravações”. Ambos são bastante valiosos para compreender motivações, enriquecer backgrounds e fortalecer a própria construção desses personagens.

Ok, mas é hora de falar sobre o revival.

Pode-se dizer que quem é fã de Twin Peaks está em um misto de ansiedade, animação e medo, muito medo. A série foi um marco na TV, mas também teve seus problemas. Na segunda temporada, é evidente a decaída do enredo após Lynch ter deixado de se envolver tão diretamente, pois estava promovendo o filme Coração Selvagem. Também aconteceram divergências nos bastidores quanto a resoluções e novos arcos. A principal delas: Lynch e Frost, os criadores da série, não queriam revelar quem era o assassino de Laura Palmer. Nunquinha. A emissora fez pressão, argumentando que o público apenas assistiria à segunda temporada para descobrir o culpado, e ganhou a briga.

A partir daí, a série visivelmente desandou, o exotismo dos personagens ficou menos natural e alguns arcos ficaram consideravelmente desinteressantes, para não dizer chatos (tenho especial pavor da parte em que James conhece Evelyn e todos os seus desdobramentos, a aproximação de Donna com Harold Smith também não me agrada muito e acho a loucura temporária do Benjamin Horne, com sua obsessão pela guerra civil americana, bastante insuportável). Ainda assim, a temporada tem alguns bons momentos, especialmente na reta final. O último episódio, dirigido pelo próprio Lynch, traz novamente a dinâmica e a qualidade que foram perdidas durante grande parte da segunda temporada, com destaque para a sequência durante o concurso da Miss Twin Peaks e o ótimo cliffhanger que encerrou o finale. O único problema é que a série foi cancelada prematuramente, pois o público foi abandonando a série após a revelação do assassino de Laura, e ficamos com aquelas dúvidas para sempre. Pelo menos era o que a gente pensava até 2014, quando finalmente anunciaram a tão desejada retomada de Twin Peaks.

Pensando na mitologia da série, faz muito sentido esse retorno acontecer 25 anos depois (como a própria Laura Palmer anunciou no sonho de Cooper), e isso pode dar muito certo caso Frost e Lynch, que escreveram todos os novos episódios, dirigidos por Lynch, acertarem o caminho que a história deve seguir. Apesar de existir aquela sensação de que não devemos mexer em algo sagrado, os fãs de Twin Peaks sempre ficaram com o gosto amargo de algo inacabado. Em uma matéria recente do The New York Times, Frost reforça isso ao dizer que a série foi encerrada de forma insatisfatória para todos, especialmente para eles, e que agora possuem a oportunidade de finalizar o que começaram.

O enredo exato da retomada da série ainda está rodeado de mistérios, e Lynch tem evitado qualquer pergunta sobre isso. Ele também afirma que se trata de uma história em 18 partes, e não de episódios. Mesmo sabendo pouca coisa sobre a trama, existem algumas perguntas principais que gostaríamos de ver respondidas, levando em conta o series finale (que agora se transforma em um season finale).

Foto: Divulgação/ABC

1. O que aconteceu com Dale Cooper?

Após entrar no Black Lodge em busca de Annie Blackburn, sequestrada por Windom Earle, Cooper aparentemente sai vitorioso e resgata a moça ainda com vida. Porém, a temporada termina com um cliffhanger daqueles: Cooper aparenta ter sido possuído por Bob. Agora, 25 anos depois, precisamos saber se ele conseguiu se livrar do espírito maligno, por quanto tempo ficou possuído e se cometeu algum crime enquanto isso, dando continuidade à obra de Bob.

2. Que forma Bob e Mike irão tomar?

Bob e Mike, os dois espíritos parasitas que habitam o Black Lodge, são personagens fundamentais para a mitologia de Twin Peaks. Eles foram interpretados, respectivamente, por Frank Silva, que já morreu, e Michael J. Anderson, que não teve interesse em reprisar seu papel. Considerando que os espíritos poderiam assumir outras formas, é possível que sigam presente, porém representados por outros atores. A única coisa que não dá para imaginar é Twin Peaks sem esses dois personagens.

3. Qual o destino de Audrey após a explosão da bomba?

No final da segunda temporada, Audrey se acorrenta ao cofre do banco de Twin Peaks como forma de protesto. Enquanto isso, Pete e Andrew abrem o cofre de Thomas Eckhardt e encontram uma bomba, que acaba detonando. Tudo sugere que os três morreram, mas a confirmação do retorno de Sherilyn Fenn ao elenco nos deixa com dúvidas quanto ao destino de Audrey. Pode se tratar apenas de uma pequena aparição, em forma de flashback? Pode, claro. Mas se considerarmos o livro de Mark Frost, “A História Secreta de Twin Peaks”, Audrey Horne acabou sobrevivendo à explosão.

4. Iremos rever Donna?

Em Twin Peaks: Fire Walk With Me, filme de Lynch que mostrou os últimos dias de Laura Palmer e serve como prequel da série, Donna foi interpretada por Moira Kelly, já que Lara Flynn Boyle não quis participar do filme. Nenhuma das atrizes está no elenco do revival, então podemos imaginar que Donna não aparecerá. Sabemos que sua família estará de alguma forma nos novos episódios, mas, no caso de Donna, apenas se for interpretada por uma terceira atriz – o que pode ficar confuso demais. Talvez seja melhor imaginar que, após descobrir que seu pai biológico era na verdade Benjamin Horne, Donna cortou relações com a família e deixou Twin Peaks.

5. O que o elenco do revival revela sobre Annie Blackburn e sobre alguns personagens que morreram durante a série?

Heather Graham, que interpretou Annie, não está no elenco do retorno da série. Ela acabou morrendo no hospital? Voltou para o convento? Bob conseguiu matá-la em outro momento?

Já outros atores que tiveram suas participações confirmadas, como Sheryl Lee (Laura / Maddy) e Ray Wise (Leland Palmer), nos deixam com dúvidas se aparecerão no Black Lodge ou em flashbacks, já que os personagens que interpretaram foram mortos. Ambos são tão competentes que torço para que tenham algum papel fundamental no enredo.

6. Veremos Diane finalmente?

Até hoje, não sabemos exatamente quem é Diane. Ela aparenta ser a secretária ou assistente de Cooper, pois é a ela que ele se dirige em suas clássicas gravações. Existem teorias de que ela sequer existe, pois jamais a vimos ou ouvimos sua voz. Porém, quando anunciaram que Laura Dern, atriz queridinha de Lynch, estaria no revival de Twin Peaks, especulou-se que ela poderia interpretar a famosa Diane. Mas devido ao gosto de Lynch por um bom segredo, é provável que Diane siga sendo um eterno mistério. E talvez seja melhor mesmo permanecer assim.

Existem ainda outras perguntas, mas tudo indica que pelo menos algumas das aguardadas respostas virão a partir do dia 21 de maio. De qualquer maneira, mesmo que muitas dúvidas continuem no ar, rever a cidade de Twin Peaks e seus personagens tão queridos para nós fãs será uma jornada e tanto. Estaremos esperando ansiosamente para retornar a esse lugar maravilhoso e estranho, bebendo um café preto como a meia-noite em uma noite sem luar.

Enquanto isso, que tal rever uma recapitulação da série e o último trailer?

Ana Bandeira
É publicitária e autora convidada do Ligado em Série.

Postado em: 12/05/2017 | 12:46