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Por: André Costa

Crítica | The Leftovers 1×04: B.J. and the A.C.

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[com spoilers do episódio 1×04] Se o terceiro episódio de The Leftovers se focou no padre Matt, este B.J. and the A.C. se abraça em Kevin, Jill e Tom – que vocês devem conhecer como a Família Grunhido, já que passam o tempo todo sendo agressivos, rangendo os dentes e organizando uma fanfarra de palavrões. Isso infelizmente faz com que este episódio, ao contrário do anterior, resvale na absoluta falta de empatia com as personagens, tornando-se um grande amontoado de perda de tempo (e os diálogos misteriosos e pretensiosos só pioram a coisa).

Claramente buscando colocar as tramas dentro do mesmo pote, a série procurou costurar uma narrativa em torno do mesmo tema: bebês (o da Christine e o simulacro de plástico de vinte dólares que fez as vezes de Jesus no presépio). Esse maternalismo súbito já resulta em uma introdução que poderia ser a mocinha do próximo Transformers (embora bonita, sem conteúdo ou significado nenhum), mas a vaca vai mais para o brejo porque The Leftovers não se preocupou em  desenvolver as histórias, construir uma base para o público entender e se envolver com cada elemento e ação. O que sobra são personagens seguindo o GPS do roteiro, tomando direções e decisões simplesmente porque alguém mandou, a versão televisiva do noivo durante a organização do casamento.

Assim, quando B.J. and the A.C. filma o sumiço do boneco como se fosse algo importante, e o mantém na trama como se fosse algo importante (inclusive fazendo o carro de Kevin apagar quando ele associa Jesus a um palavrão), não sabemos exatamente o motivo (parece inclusive bem normal que um boneco suma de um presépio em uma cidade onde os jovens queimam a pele com metal por diversão). Por que Jill se importa com o boneco? Qual o significado que ele tem? Ou, se não for o objeto em si e sim a relação com o pai, por que ela faz isso? É porque ela é uma adolescente e, pela lei dos estereótipos, precisa ser irritante? E Kevin? Até existem algumas interpretações possíveis – é o irmão/filho ausente, representa as pessoas que pegaram um trem para ninguém sabe onde, a esperança, a fé, é encontrar pelo menos um dos sumidos -, mas em nenhum momento The Leftovers realmente bota fermento nessas possibilidades. Sem temperar um dos elementos principais do episódio com algum Sazon sabor significado, Kevin e Jill são apenas pessoas birrentas sendo birrentas como sempre.

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O mesmo acontece com Tom. Quando o episódio começa, ele está suando estresse, e o único motivo que o espectador pode imaginar para isso é o rapaz ter ficado nervoso por não ter aparecido no brilhante Two Boats and a Helicopter (seria justificável). Ok, a certa altura ele fala que estão fugindo por seis semanas, mas não é o suficiente: a produção têm que mostrar o quanto a jornada é difícil para envolver o público, criar algum momento ou evento que faça o espectador perceber esse cansaço, mas prefere deixar isso de lado e tentar criar mistério com alvos na testa e malucos sem calça. Ou seja, Tom acaba surgindo como só mais um birrento agressivo sem motivação nenhuma, um depósito de “fucks” à mercê de coincidências surgindo para tentar colocar obstáculos interessantes na sua trajetória (deu para perceber que a médica ia suspeitar dele a continentes de distância).

Mesmo o momento reservado para o drama e intensidade soou como se a série estivesse desesperada para tirar lágrimas dos nossos olhos. Afinal, que tipo de pessoa faz aquilo? Não era mais fácil para todos (incluindo o público) simplesmente ter deixado a carta debaixo da porta? É necessária uma suspensão da descrença do tamanho de um porta-aviões para aceitar a naturalidade da cena, e ela nunca chega, deixando a situação despida de carga dramática sem pudor nenhum. B.J. and the A.C. parece ter corrido para as soluções mais rasas, acreditando que basta não fazer sentido para ser misterioso, que basta ter alguém levantando o tom de voz para ser emocionante.

Há alguns momentos ali que podem ser um acerto a longo prazo, entretanto – a ação de marketing do G.R. não deixa de ser interessante, embora mostre que a série se passa em um universo alternativo onde a fechadura não foi inventada, e a relação entre o sonho e o caminhão tombado intriga um pouco. Ainda assim, é meio difícil levar a sério uma seita que quer convencer as pessoas de algo mas simplesmente se recusa a explicar (quando Kevin faz uma pergunta, Patti simplesmente dá as costas e vai embora, porque isso é misterioso) ou ser envolvido por uma pista-recompensa que não acredita na inteligência do espectador (Christine olha os corpos e grita “como no sonho“, porque um dos públicos-alvos da série é de pessoas que só assistem aos cinco minutos finais dos episódios). The Leftovers já mostrou que consegue fazer coisas sensacionais, mas até aqui tem sido instável. Resta torcer para que o talento que produziu o episódio piloto e Two Boats and a Helicopter não tenha sumido também no famoso 14 de outubro.

2star

 

Uma resposta para “Crítica | The Leftovers 1×04: B.J. and the A.C.”

  1. Nathalia Almeida disse:

    tb achei fraquíssimo esse epi :/

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ss