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Por: André Costa

Crítica | Community 6×08: Intro to Recycled Cinema

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[com spoilers do episódio 6×08] Dois minutos. Foi isso que Intro to Recycled Cinema precisou para esmagar uma torta na cara de Hollywood, do mercado das celebridades, dos bordões fáceis, da preguiça e do nonsense que permeia toda essa zona fílmica. E seguiu pelo mesmo caminho nos vinte e seis minutos seguintes, misturando tapões na cara da indústria, metáforas de academia, ficção científica e até mesmo drama em uma narrativa surpreendentemente harmoniosa e concisa.

Afinal, trata-se da realização de um filme motivada por coisas como dinheiro, exploração da fama súbita de um ator, obrigação desse ator de cumprir um contrato e total falta de preocupação com o resultado final. Dentro do universo de Community, a trama conflita bem as características das personagens – o pragmatismo de Jeff, a visão íntegra de Abed, a vontade de Anne de ser sensual, a preocupação de Britta em não objetificar as mulheres etc. E, como com frequência acontece na série, a má vontade inicial dá lugar a um envolvimento do grupo de estudos no filme, chegando ao ponto de Jeff não querer cortar sua cena e travar um diálogo dramaticamente profundo com Abed envolvendo suas próprias inseguranças – que, da forma brilhante como Community costuma fazer, tem seu grande insight representado na frase “Annie tira uma bomba de lasers do decote”.

Aliás, Intro to Recycled Cinema é um representando digno da subversão das convenções que a série costuma fazer – o discurso inspirador, por exemplo, proferido com o objetivo de ajudar alguém a fazer algo ruim, é uma metáfora com academia. Não há nenhum pudor em explorar a falha de caráter das personagens, que se tornam salientes e acabam aproximando aquelas pessoas (como no já citado diálogo entre Jeff e Abed). Mais do que isso: mostrar as vulnerabilidades da turma faz com que tenham uma certa dependência entre eles, um grupo de desajustados que se reconhece como tal e acolhe seus semelhantes, o que atinge o ápice na divertida (e sob certo ponto de visto até sensível) cena em que Chang retorna.

Claro que o episódio também é um deleite visual, preenchendo corações com o que há de mais apurado na tradicional escola artística do CGI sucata. As soluções para desdobrar o pouco material em que Chang se envolveu beiram a genialidade – a forma com que ele dispara a arma é a Capela Sistina de Intro to Recycled Cinema – e produzem alguns dos melhores momentos da temporada. Além disso, continua lá o humor afiado, seja na forma de diálogos (“que as vezes é a única forma de sobreviver”, o monólogo da bola de bilhar) ou na forma de gags físicas (Jeff imitando um movimento de levantar peso, o visual absurdo do Glip Glop, enfim, basicamente tudo que se passa por ficção científica). A rotatividade dos temas, indo do sumiço de Chang à preocupação de Abed à cena de Annie ao diálogo no clímax, confere um ritmo dinâmico à narrativa e evita a repetição de piadas, aproveitando também para criar alguns cenários de Sci Fi incríveis com papel alumínio e homenagear Star Wars (e, considerando a data de estreia do episódio e a data em que lançaram o trailer do próximo filme da saga, poderia apostar que não é coincidência). Como se não fosse o suficiente, pequenas referências a episódios passados (como os frisbees e o “vou dar um soco no seu coração) recompensam o espectador com aquele sorriso involuntário.

Debaixo de todas essas questões, há uma paródia clara (quase cegante, eu diria) das recauchutagens, da produção industrial e do oportunismo que tomam de assalto a indústria, onde os cem metros rasos pelo lucro fazem com que muita porcaria seja lançada com os realizadores sabendo que é porcaria e não se importando. E em Intro to Recycled Cinema ainda vemos um diretor idealista se corrompendo frente às necessidades do mercado e um ator desistindo de algo que considera essencial para que o filme tenha a metragem necessária para ser vendido. Pior que isso, a recepção entusiasmada do público mostra que não há critérios quando há propaganda envolvida (literalmente, no caso, já que é o “Ham Girl Guy” que cativa todos). No fim das contas, o “Recycled” do título faz referência a muito mais do que um filme B feito por alunos em uma universidade.

5star

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