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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Mad Men 7×08: Severance

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Mad Men está de volta com sua excelência habitual para os sete últimos episódios que nos deixarão órfãos desta que é uma das melhores séries já feitas na TV. Embora a AMC considere Severance o oitavo episódio do sétimo ano, o que tivemos foi claramente uma season premiere, com o avanço no tempo que costuma abrir as temporadas: encerramos ano passado com o pouso na lua (julho de 1969) e retornamos agora com Richard Nixon discursando sobre o envio de tropas ao Camboja  (em abril de 1970). A série enfim concluiu seu percurso nos anos 60 e avança para a década seguinte nessa reta final, decepcionando os fãs que apostavam na teoria que relacionava Megan com os assassinatos de Charles Mason. Mad Men nunca foi uma série óbvia e fico feliz de não ter seguido este caminho.

O que temos aqui, na verdade, é um trajeto de desilusões e felicidade postiça que sempre esteve no âmago da produção, de forma sutil e elegante. É um episódio triste, como a publicidade que nos inventa desejos e nos estimula a consumir para disfarçar um vazio interior: os personagens estão muito bem e ricos com o acordo feito com a McCann-Erickson, mas por toda parte só há lamento por “vidas não vividas”. A abertura do episódio já nos insere nesse mundo de aparências, com a suposta sedução entre Don e uma bela mulher usando chinchila, que logo se revela uma seleção de elenco para um de seus clientes. O interessante na ilusão é o quanto ela se aproxima de ser verdadeira: sabemos que Don gosta do papel de dominador (“você não deve falar”) desde seu joguinho sexual com Sylvia na sexta temporada; e ele está de azul, o que deve marcar a primeira vez em que não está de camisa branca no trabalho. É o máximo, aliás, que teremos de mudança no visual do personagem, enquanto muda-se a década e muitos à sua volta (os bigodes de Ted e Roger, além da barba de Stan, como os mais evidentes da chegada dos anos 70).

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A partir daí, o que se segue é uma representação, se não do fracasso, ao menos do vazio que não se consegue preencher com tudo que os personagens conquistaram até aqui, ainda ressoando os momentos finais do episódio anterior, em que o fantasma de Bert Cooper cantava que “as melhores coisas da vida são de graça”. O estopim é o incômodo que Don sente ao achar que conhece a garçonete que os atende. Algumas pessoas ficaram um pouco confusas com isso, e como Mad Men é sempre complexa, podendo ou não dar continuidade a isto nos episódios seguintes, inclusive, talvez seja irresistível tentar dar interpretações além do necessário. Penso de modo simples: Don viu uma garçonete que, fisicamente, lembra muito um certo tipo de mulher de grande importância em sua vida (Midge, Megan, Sylvia e, claro, Rachel). No dia seguinte, conversa com Joan sobre a Topaz e estratégias de vendas de meia-calça em lojas de departamento, que é a área de atuação da família de Rachel. É o suficiente para sonhar com ela e talvez até haja mais referências (teria que rever todos os episódios em que ela aparece). O fato de que ela morreu pouco antes é apenas uma coincidência que Don tenta relacionar ao sonho e dar algum sentido. Como a garçonete deixa bem claro para ele, além de outras hipóteses igualmente possíveis: ele sempre sonhou com ela ou soube da morte antes do sonho.

(Aqui um parêntese: esta sequência com Don se abrindo para a garçonete parece uma típica cena de diálogos expositivos para explicar o drama do personagem, artifício que Mad Men não costuma se utilizar, sempre muito brilhante na forma como representa os conflitos internos confiando na inteligência do espectador; mas ficou bastante coerente com o momento vivido por Don, que no início do episódio conversa franca sobre sua infância pobre, o que mostra uma outra mudança no protagonista – uma maior abertura ao outro, capaz de externalizar algumas de suas preocupações)

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Este elemento de sonho, de acaso e também de destino está muito forte no episódio, com vários comentários atribuindo a uma força alheia aos personagens o que acontece ou deixa de acontecer: a aeromoça que vai ao apartamento de Don, Peggy e seu encontro, Pete se referindo à sua vida na Califórnia. Da mesma forma, Ken também logo cria uma relação entre a conversa com sua esposa e a demissão na manhã seguinte, interpretando como um sinal da vida de escritor que não teve. O curioso, e triste, é que ele abandonará esta ideia para aceitar o trabalho em que se tornará cliente da SCDP, apenas por vingança. A vida não vivida continuará assim.

O mesmo para Don, que vislumbra nos filhos de Rachel (alguém que, segundo a própria irmã, viveu a vida que queria, e nem importa que seja verdade ou não quando se está morta) o que poderia ter tido, culminando num desses momentos iluminados de Jon Hamm, que em um único olhar revela todo o lamento do personagem. Para completar, Peggy e Joan lidam de formas diferentes com o vazio que não conseguem preencher, mas a partir do conflito entre as duas, ainda que o inimigo (o machismo da época) seja o mesmo. A primeira muda de ideia quanto ao encontro, após ouvir a insinuação de que não é atraente; a segunda prefere ressaltar exatamente o que ouviu, e decide ser a podre de rica que compra mais roupas provocantes e, de quebra, humilha alguém que está na posição que ela já esteve.

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Ainda vale notar que toda a tristeza dos personagens parece fruto da própria vida profissional. Não deve ser por acaso que não vemos ou sequer ouvimos menção aos filhos de Don, Joan ou Pete. O único a se explorar laços familiares, Ken, é aquele que abandona a empresa. Peggy sequer pode ter uma aventura romântica em Paris porque seu passaporte não fica em casa, e sim no escritório. Dois episódios atrás, em The Strategy, tivemos aquele final genial com a nova família que agora janta fora de casa. Mas a família era postiça, composta de pessoas do trabalho (Don, Peggy e Pete) e o jantar na verdade era um lanche de fast-food. As aparências venceram a realidade porque a grande ironia era que esses três certamente se entendem e estão mais felizes entre eles do que se estivessem entre seus familiares. Mas este excelente Severance mostra que é uma felicidade insuficiente. Ou ainda, que talvez seja a única possível, pois após tantas conquistas, o que ecoa ao final é a música cantada por Peggy Lee: é tudo o que há?

5star

Mad Men é exibida toda segunda às 21h na HBO. A segunda parte da sétima temporada terá sete capítulos. Siga o Hélio Flores no Twitter e acesse o blog Sobre Séries!

3 respostas para “Crítica | Mad Men 7×08: Severance”

  1. Cristiane Hardt disse:

    A série, brilhantemente, continua retratando que as coisas não mudaram muito nos tempos de hoje. E retrata perfeitamente a frustração da vida de muitos publicitários.

  2. Felipe Fonseca disse:

    eu nem preciso mais de episódios como o do burger chef ou carrousel. o charme dos últimos episódios é suficiente. fora que o começo do episódio é um panorama tão bacana do don que pra mim já é mais um desses momentos memoráveis.

  3. isabela alves disse:

    Adorei a crítica e realmente concordo com tudo! Que série, meus amigos…

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