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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Mad Men 7×11: Time & Life

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Foi por acaso que acabei revendo o piloto de Mad Men após ter visto este sensacional Time & Life, e há uma ligação maravilhosa entre ambos: no primeiro episódio da série temos Don salvando uma reunião com a Lucky Strike, ao ter uma ideia genial no último minuto. Para apresentar esta ideia, ele explica que a publicidade se baseia na felicidade. “Felicidade é um outdoor que reafirma que seja o que você estiver fazendo, está tudo bem“. E termina, quase num sussurro, como se estivesse falando para si e internalizando uma filosofia para a vida: “You are OK“.

Ao longo dos anos, vimos muito deste Don salvador, com lábia, retórica e ideias que fizeram sua fama e da agência, e agora, a quatro episódios do fim definitivo, tivemos a ruptura final em um episódio que sinalizava mais uma vez para a mágica do protagonista (muito semelhante aos episódios Shut the Door. Have a Seat. e For Immediate Release, com a criação, respectivamente, da Sterling Cooper Draper Pryce e Sterling Cooper & Partners), salvando a empresa de ser totalmente tragada pela McCann Erickson. Mas acabou, não há solução possível e, ao fim de uma noite de bebedeira que mais parecia uma despedida final entre os personagens, Roger, que estava presente naquela primeiríssima reunião com a Lucky Strike, se despede de Don dizendo: “You are OK“. A publicidade venceu.

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Grandes séries, por mais tempo que durem, permanecem fiéis e coerentes a certas ideias gerais e a uma visão de mundo do seu idealizador. Ainda no piloto, Rachel diz a Don que não se casou porque nunca amou. Ele diz que o que ela chama de amor foi inventado por caras como ele. É um comentário cínico, certamente, mas é uma “verdade” que a série perseguiu e demonstrou através de seus personagens, os costumes e os valores dessa época, em que a felicidade muitas vezes é apenas a aparência dela e, no fim, só torna as pessoas mais miseráveis (Lou Avery se despede dizendo a Don “aproveite o resto da sua vida miserável” e tenho que concordar com um crítico que tuitou que esta bem poderia ser a frase final da série). Daí o golpe final na agência vir, para os sócios, em forma de vitória com sabor amargo, e a sequência no bar é bastante representativa de toda essa ideia geral, vista nessas sete temporadas, da aparente felicidade que o seu ramo vende.

Matthew Weiner parece querer dizer também que trata-se do fim de uma certa utopia com a vitória definitiva do corporativismo, um certo idealismo de que se é possível alcançar fama e dinheiro (e felicidade?) e ainda manter sua liberdade. Os sócios conseguem as contas dos sonhos de qualquer publicitário, mas ainda nesta época pode-se considerar uma derrota alcançar isto em troca de sua independência e ser apenas uma engrenagem de uma máquina muito maior que eles. Mesmo Peggy busca outras opções, ainda que haja uma promessa de quadruplicar seu salário em alguns poucos anos na McCann-Erickson. Isso fica ainda mais claro naquele final em que Don diz para os funcionários da SC&P que este é o começo de algo, e não o fim. Certamente que é um começo, mas nada promissor. E Don, que há alguns episódios vem encerrando sozinho nas últimas cenas, continua no centro do quadro, mas cercado de pessoas igualmente desesperançosas.

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O outro trunfo do episódio foi retomar a gravidez de Peggy, também no início da série. De uma forma mais direta que a sua relação com Julio ano passado, que vai em um crescendo espetacular: da sua inabilidade com crianças para gravar um comercial, ao conflito com uma mãe (que solta uma frase matadora “você faz o que quer com seus filhos…”) e finalmente a abertura com Stan, que talvez seja a melhor pessoa de toda a série (bom ouvinte, ele logo percebe o que aconteceu e parece sempre dizer as coisas certas, além dessa relação bonita em que ambos ficam no telefone quando trabalham cada um em sua sala). É mais um momento especial de Elisabeth Moss na série, desses de nos deixar horrorizado de como esta grande atriz não venceu um único prêmio pelo papel.

Mad Men caminha para um final com encerramento honroso para seus principais personagens, e Peggy desabafando sobre como é fácil para os homens seguir uma carreira independente de filhos, ao contrário das mulheres, e como não querer saber do filho abandonado é a única forma de uma mulher seguir adiante, parece ser um fim digno para essa trama tão antiga e importante (para seu relacionamento com Pete e com Don, inclusive). Não acho que há necessidade de retornar a este assunto, ou mesmo um suposto encontro entre mãe e filho, como muitos já especularam.

No mais, ainda há vários destaques de um episódio tão emocionalmente forte:

– Várias informações sobre a vida pessoal de boa parte dos personagens: acho que é a primeira vez que somos informados que Ted se separou e que Jim Cutler realmente aceitou sair da agência na negociação com a McCann. Também vemos que Joan e Roger (que dividem um momento de intimidade, mas não romântico, no início do episódio) mantém seus relacionamentos, ela com Richard (ainda se mostrando o homem dos sonhos, capaz de marcar uma viagem imediata para NY apenas para consolá-la por “um dia ruim no trabalho”) e ele com a mãe de Megan;

– “What’s in a name?”, pergunta Don, evocando Shakespeare (Romeu & Julieta) e resumindo um dos temas do episódio. É o fim da Sterling Cooper, mas também é o nome de Pete Campbell que não é o suficiente para manter sua filha na mesma escola que é tradição da família;

– É um excelente episódio para Pete também. Não só um alívio cômico, com duas grandes frases (“Bigode?!”, ele pergunta quando sabe o tipo de homem que a filha desenha, e “O rei ordenou!”), mas onde dá um soco bem dado defendendo a honra da família e de Trudy, justamente em um episódio dirigido por Jared Harris, o saudoso Lane Pryce que também deu um soco bem dado em Pete. Mais: além de uma melhor relação com Trudy, ele tem um belo momento com Peggy (a quem resolve avisar antecipadamente sobre a decisão da McCann, após vê-la com uma criança, uma dessas cenas em que a série diz tanto apenas com gestos, olhares e a história dos personagens) e outro com Joan, em que ele diz boas palavras de conforto (lembrando que foi Pete quem intermediou a “transação” em que ela virou sócia);

– Falando em Joan, que cena dolorosa de se ver na reunião com a McCann. A ansiedade em saber que grande conta seria dela, e Jim Hobart para em Don. Mas inicialmente ele fala em cinco contas (Buick para Roger, Otho para Ted, Nabisco para Pete e Coca-Cola para Don). Esperemos que o próximo episódio mostre o que o futuro lhe reserva;

– Don tenta mais uma vez encontrar Diana, após dois recados que ela deixou (e desistiu depois). O curioso é que, enquanto dele não sobrou nem os móveis, foi justamente isso que sobrou dela;

– Mas nem tudo está perdido para Don. Apesar de perder a esposa, os móveis, o apartamento e, agora, a agência, ele ainda tem Meredith. A cena em que ela pergunta se ele também quer perdê-la só poderia ficar melhor se ela se servisse uma bebida e sentasse com o chefe para lamentar os novos tempos;

– Há sempre vários detalhes e humor em cenas rápidas e uma bem divertida aqui é quando Roger chama as três secretárias e diz que elas estão demitidas. Dura menos de 5 segundos, mas é suficiente para vermos Dawn e Shirley desesperadas e o olhar zombeteiro de Caroline, que conhece bem o chefe que tem.

Faltam três episódios para o fim.

5star

2 respostas para “Crítica | Mad Men 7×11: Time & Life”

  1. Zizi disse:

    Bela crítica, Hélio! Gostoso acompanhar, nas séries bem feitas, este período de encerramento que costuma retomar temas para fechar suas pontas soltas e arrematar a história. No tema dos filhos não criados gostei muito da cena do Roger lamentando não ter um filho para continuar o nome da família.
    Curiosa com o final.

  2. vigomide disse:

    Crítica digna do excelente episódio :)

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