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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Mad Men 7×13: The Milk and Honey Route

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Não dava pra imaginar que o penúltimo episódio de Mad Men seria todo de Pete e Betty (além de Don, claro), dois personagens que foram detestáveis por tantas vezes ao longo desses anos que chegam a dividir as opiniões dos fãs, sobrando até mesmo injustiças com Vincent Kartheiser e January Jones, sempre ótimos nos papeis. Felizmente a série deixa claro que nunca os menosprezou e lhes brindam com este incrível The Milk and Honey Route.

Comecemos por Betty, que protagoniza as cenas mais emocionantes e fortes. Sempre pareceu um caminho óbvio e inevitável, numa série em que todos fumam, que o câncer atingisse alguém do elenco principal. Que Betty seja a vítima não deixa de ter algo de cruel. Ela que em um dos primeiros episódios da série (Babylon) disse que preferia desaparecer a ficar velha; que no episódio passado disse a Don que era mais jovem que ele, e sempre seria; que enfim está feliz por fazer algo que sempre quis, voltando aos estudos. Se muito já se falou sobre Matthew Weiner gostar de maltratar a personagem, este seria o golpe final.

Mas o que temos é uma belíssima conclusão para Betty, dando dignidade e afastando qualquer sinal de sadismo por parte do autor. A começar pela brilhante sequência da revelação da doença: é triste e impactante não só pelo diagnóstico, mas porque o médico informa a seu marido, retomando a situação da primeira temporada, quando Don recebia do psiquiatra informações sobre o tratamento dela. Betty reduzida a um corpo que é propriedade de outro. Sempre lhe coube o papel de esposa-troféu, na saúde (a beleza) e também na doença.

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A partir daí, no entanto, ela assumirá a autonomia de sua própria vida, recusando alternativas de tratamento. Mas não por orgulho e teimosia, como seu marido pensa, ou porque ama uma tragédia, como diz sua filha (todas características típicas de Betty, aliás), mas porque aceita o inevitável com a dignidade de quem tem filhos para se preocupar (e tendo visto na sua própria mãe o efeito que esse tipo de coisa pode ter) e de fazer o que se gosta até não conseguir mais. Ter controle sobre sua morte quando pouco teve em boa parte da vida. Não há honradez maior. Que isso venha manifestado em uma carta para Sally onde mostra finalmente compreender a filha com quem teve tantos atritos (“Sei que sua vida será uma aventura”), só torna tudo mais devastador. Que entre as instruções para após sua morte haja recomendação de como vesti-la e deixar seu cabelo, é prova de como a série é sempre fiel à verdade de seus personagens. Como se não bastasse, ainda há mais dois momentos de arrancar lágrimas: Henry Francis desabando após dizer a Sally que não havia problema em chorar; e Sally sentando à mesa, ocupando o lugar de Betty, com Gene no colo.

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Essa despedida de Betty já entra para a galeria dos momentos inesquecíveis de Mad Men, e se falo em despedida é porque dificilmente poderiam nos dar uma imagem final melhor que a deste episódio:

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Pete, por outro lado, parece ter um final bem mais feliz, ao se reconciliar com Trudy. O que há de comum entre essas duas tramas, no entanto, é que elas desconstroem, ou no mínimo complicam, um dos temas recorrentes da série, que é a impossibilidade dos personagens em mudarem, e permanecerem nos mesmos erros. Betty claramente mudou. Mas Pete depende muito de como enxergamos o que acontece aqui: ele é sincero quando diz ter mudado e aprendido com os erros, mas fala em querer ter um novo começo. Alguns episódios atrás é ele quem diz uma das frases-chave dessa reta final: “acha que vai recomeçar a vida e fazer tudo certo, mas e se nunca passar do começo?” Seria este um indício de que nada vai mudar?

Não é possível ignorar também a fina ironia que surge com a sequência em que conversa com o irmão sobre seus comportamentos diante das mulheres serem moldados pela figura do pai. A ironia é apontar essa repetição de padrões num episódio em que Pete decide trabalhar para uma companhia privada de aviação, quando seu pai morreu em um acidente aéreo (no episódio Flight 1, da segunda temporada). E é bom frisar que essa mudança de emprego vem graças à intervenção de Duck Philips, mais uma pessoa presa à repetições (voltou a beber, voltou a se envolver na vida de antigos colegas). Se uma tragédia se anuncia aí, ou se o relacionamento com Trudy está fadado aos mesmos erros, são coisas que poderão ficar em aberto, caso os personagens não voltem no episódio final. E aí será um final feliz apenas se deixarmos as entrelinhas de lado.

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E então chegamos a Don Draper. É engraçado como a cada episódio falamos sobre o personagem perder algo e, mesmo na estrada após abandonar o emprego, há ainda algo a se despir. Desta vez, o nosso plano final é Don em um ponto de ônibus no meio do nada, após se desfazer do carro. Mas o tom é bem diferente: não é um final com o protagonista perplexo com a vida que tem (Severance), nem confuso com um apartamento sem móveis (New Business), ou assustado com um futuro incerto (The Forecast) ou mentindo para si e para outros sobre fins e começos (Time & Life). Ele está sorridente, como se finalmente conseguisse encontrar uma paz interior. E que bela rima faz com o piloto da série, onde ele diz numa reunião com a Lucky Strike que “felicidade é ter um carro novo”.

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Obviamente que esta paz vem com a possibilidade de finalmente confessar seu último pecado numa reunião de veteranos de guerra (bêbados, ainda por cima), onde ninguém o julga. Don Draper estaria pronto para voltar a ser Dick Whitman? Mas o que significa ser Dick Whitman? Novamente um retorno à primeira temporada: ao oitavo episódio, The Hobo Code, onde Dick, ainda criança, conhece um andarilho cujo estilo de vida ele acabaria adotando de certa forma, tentando uma vida nova a cada dia (indo para a guerra, assumindo nova identidade, novas mulheres, casamento repentino etc.). E Don/Dick, ao fim deste penúltimo episódio, nunca esteve tão próximo de ser um real andarilho. Importante lembrar que o homem que ele conheceu em The Hobo Code era de Nova York e, só após deixar esposa, trabalho, hipoteca (lembremos que Don estava de apartamento novo), e seguir como um “vagabundo”, conseguiu dormir em paz novamente. Este seria um final bastante coerente e satisfatório para a série, ou ao menos para seu protagonista. Exceto por uma coisa: no início do episódio tivemos uma cena com Don e Sally ao telefone.

Não haveria motivos para Don retornar à Nova York, mas sabemos que ele em breve entrará em contato com a filha. Descobrir sobre o câncer de Betty, a terceira mulher importante de sua vida a sucumbir desta doença (depois de Anna Draper e Rachel Menken), e que seus filhos não terão mais uma mãe. Talvez a única responsabilidade capaz de impedir que ele tenha a liberdade de um vagabundo? Não tive a oportunidade de rever os episódios finais das temporadas de Mad Men, que muito provavelmente encerram ideias gerais que devem retornar no fim definitivo da série, mas me parece que, exceto pela quinta temporada, a presença de Sally e irmãos teve importância fundamental no desfecho das demais.

Mas aí entramos no frutífero reino da especulação. É fascinante como a série não permite um vislumbre sequer do que nos aguarda no episódio final. Há o inevitável salto no tempo. Ou será que continuaremos de onde este acabou (a primeira vez na história da série, presumo)? E o salto será de dias, semanas ou meses? Anos? Mas e além disso? Eu não concordo com o que muitos dizem sobre todos os personagens já terem basicamente encerrado suas trajetórias, embora seja plenamente possível que tenhamos apenas Don Draper nesta hora final. Mas confesso que ficaria desapontado com a triste despedida de Joan; com a risível participação final de Roger; e mesmo com a chegada triunfal de Peggy na McCann. Esta última tem com o protagonista uma relação tão forte que seria lamentável que a despedida de ambos, juntos em cena, tenha sido quatro episódios atrás (The Forecast) quando ela achou que ele desdenhou de seus planos para o futuro. E, obviamente, há Sally.

O fato é que desde sempre a série brincou com as nossas expectativas. Acredito, inclusive, que toda a trama de Don no Motel Sharon seja bem representativa disso: algo parece suspeito no dono, e na apresentação de sua esposa Sharon; Andy, o faxineiro, também parece estranho; tudo soa deslocado, até aparecer uma bela mulher na piscina, e depois a festa dos veteranos que parece apontar pra outro caminho, com alguém que esteve na Coréia reconhecendo Don; os bebâdos invadindo seu quarto e lhe dando uma surra… a construção narrativa cria expectativas ora imediatamente frustradas, ora em suspense, e que não levam a nada excitante, a nenhum clímax. Este parece um resumo de boa parte da série.

Como Betty diz sobre Sally, Mad Men “march to the beat of its own drum”, e cabe a nós apreciarmos este ritmo e nos adaptarmos a ele. Foram oito anos assim, não espero que seja diferente com o series finale. A única certeza é que será inesquecível.

Falta apenas um.

5star

3 respostas para “Crítica | Mad Men 7×13: The Milk and Honey Route”

  1. Estácio disse:

    simplesmente adorei a sua crítica do episódio!

  2. Helio Flores Filho disse:

    opa, valeu Estacio! :)

  3. Romildo Medeiros disse:

    Cara, sensacional sua review. Não sei como você tem a capacidade de memorizar ou buscar essas referências dentro da série, mas parabéns. haha

    Sobre o Don e a Peggy: há faz tempo que afirmo que eles, mesmo sem saber ou querer, seguem sempre o mesmo caminho. Nos altos e baixos, nas atitudes e nos posicionamentos, em tudo, nós podemos ver que existe uma semelhança enorme entre os dois – talvez por isso se tenha criado essa relação paternal tão profunda.

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