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Por: André Costa

Crítica | Jurassic World

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Sessenta e cinco milhões de anos após o último rompante de criatividade de Hollywood, o Jurassic World é um parque que atrai milhares de visitantes com seus dinossauros feitos de Lego genético. Então há um problema de segurança que resulta em confusão, caos, ganância, convenções preguiçosas, militares e dentes.

É incrível como Jurassic World (Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros) se mostra desconcertantemente incapaz de entender a própria mensagem que deseja passar: assim como o parque que dá título ao filme, a produção se mostra tipo nem aí para os dinossauros e se preocupa só com o espetáculo, mais dentes, mais destruição, mais coisas legais para botar no trailer e chamar as pessoas. É uma neurose tão grande em fazer a coisa parecer escandalosamente grandiosa que a história em si fica ali, naquela bolsinha pequena da mochila onde ninguém mexe, enquanto os realizadores se dedicam a escrever mais linhas de códigos para CGI do que escrever o filme.

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O principal problema é que não há aquele maravilhamento com os animais. Os dinossauros soam quase como McGuffins para a produção de cenas onde pessoas estão atrás de carros e um focinho do tamanho de uma kitnet aparece fungando. Isso pode até funcionar no início para mostrar como a coisa toda se tornou banalizada naquele universo; só que a ausência de um deslumbre com a presença dos bichos torna Jurassic World nada mais do que a brincadeira de pique-esconde mais perigosa do mundo (há alguns momentos que tentam capturar isso, como Gray abrindo a janela e outro momento envolvendo Owen, Claire e um brontossauro, mas são muito poucos e muito pontuais). A esterilidade emocional do filme diante dessa turma que recém saiu da extinção bombardeia nuclearmente o envolvimento do espectador. Dinossauros não precisariam estar ali, pois o fato de serem dinossauros não faz diferença. É um filme de monstros e gente correndo. Ponto final.

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Muito disso vem do excesso de personagens, impedindo que um deles assuma a função de conectar o público com o amor pelos dinos. É um grupo inteiro de homo unidimensionales, com arcos dramáticos tão previsíveis quanto o resultado de amontoar um monte de bichos selvagens e vorazes no mesmo lugar, e que durante a maior parte do tempo se resumem a uma função (Owen é o brother dino; Claire é a executiva objetiva e mergulhada na carreira; Heskins é o militar desprovido de córtex pré-frontal; e assim por diante). Além disso, os dramas são atirados de qualquer jeito e nunca resgatados (o divórcio, a distância de Claire), os militares são quase vilões da Disney (Heskins chega a sorrir com a possibilidade de arrastões jurássicos) e as poucas características são logo extintas por meteoros (Masrani fala primeiro que a ideia do parque é maravilhar as pessoas para logo depois comentar que não quer detonar seu investimento). Não é apenas uma questão de não investir minimamente nas personagens: Jurassic World constantemente caminha pela fina linha que marca o início da falta de sentido.

Tanto que não há uma visão clara do que a produção quer atingir, já que, com uma frequência irritante, tentativas de humor varrem a suposta tensão para baixo do tapete (como um beijo específico quase no final). Também não há uma preocupação muito grande com a suspensão da descrença – Claire de salto alto no meio da selva, alguém correndo mais do que um dinossauro, a intervenção final – e a entrada dos militares em cena é a coisa mais sem justificativa da história desde a convocação do Robinho para a seleção. Ao menos Jurassic World consegue tropeçar em algumas sequências boas de ação, ainda que o trailer tenha estragado coisas que poderiam ser bem impressionantes – os destaques ficam para um ataque voador específico e a luta final, épica a ponto de merecer um travelling circular bem executado.

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Além disso, apesar do roteiro raquítico, Chris Pratt consegue usar seu superpoder (carisma) para tornar Owen uma figura agradável e competente, enquanto a simpatia de Bryce Dallas Howard faz de Claire alguém minimamente humana (mesmo quando ela parece ser mais distante). O resto do elenco se limita a andar e falar, com exceção de Vincent D’Onofrio, que consegue andar e falar mal. E é triste também que a trilha não atinja os níveis de grandiosidade necessários – o que, em se tratando de Jurassic Park, é crime federal -, deixando na expectativa quem vai ao cinema esperando ser johnwilliamszado. No final das contas, é um filme exibicionista, feito para mostrar a capacidade dos animadores em criar coisas que não existem em CGI (que funciona muito bem na maior parte das vezes, importante destacar), feito por quem acredita que o espetáculo é feito na publicidade e expectativa e divulgação nas redes sociais, e não na produção. Os poucos momentos de humor que funcionam (“não, com ele!“) e cenas bem construídas não fazem a película funcionar. Querer que Jurassic World seja um equivalente ao mágico primeiro filme da franquia talvez seja exigir demais, mas a impressão é de que foi realizado como um relatório de números por alguém que não vê nada de espetacular no que deveria ser o objeto de admiração do filme. E se os realizadores não enxergam isso, como conseguirão fazer o público enxergar?

2star

25 respostas para “Crítica | Jurassic World”

  1. Danielle Raphaela Voltolini disse:

    Li nos dois primeiros parágrafos da sua crítica. Cinéfilos, como você se auto denomina, devem entender uma coisa: blockbuster não precisa (e na minha opinião) nem deve ter discussões filosóficas sobre o tema principal do filme, não precisa ter um puta de um roteiro, super amarrado, com personagens super bem elaborados. Blockbuster serve pra divertir, pra aliviar o stress de uma semana longa de trabalho, para te entreter por aquelas 2 horas e, se o tema for especial pra você, vai te marcar, mesmo com as falhas que vocês cinéfilos vão apontar. Jurassic Park marcou a minha infância. Jurassic World me fez sair da sala de Imax com um sorriso eterno no rosto. Eu vi o que eu queria ver: DINOSSAUROS! Eles são as estrelas desse filme. Eles enchem os olhos. Chorei com as mortes dos dinossauros, vibrei com as lutas dos dinossauros, senti medo dos dinossauros. Os personagens humanos… puf. Não fui lá pra ver eles (mentira, fui ver o Chris Pratt, e adorei o papel dele). O resto foi a mais pra mim.
    Quem faz crítica de blockbuster deve pensar de um jeito mais tranquilo e despretencioso, como o filme à qual ele está julgando.
    Nâo quero levantar polêmica, mas fico muito chateada ao ver que você deus míseras 2 estrelas para um filme que tratou com tanto respeito a franquia original. Desculpe, só a minha opinião de fã.

  2. Robson Donizetti Ferreira disse:

    Acabei de assistir o filme, e sim esperava mais ate porque dava pra ser feito.
    Principalmente na parte de roteiro.
    Senti falta da tensao que havia no outro filme.
    E tem uma cena que nao tem como deixar passar:
    Como se corre mais que um t.rex?
    O filme nao é exatamente ruim, sò esperava um pouco mais mesmo.

  3. pastel disse:

    Concordo plenamente.

  4. Downloaded the Level disse:

    Pois eu assino em baixo essa critica, e sou fa de Jurassic Park, esse filme foi decepcionante.

    Diria que isso nao eh Jurassic Park, e sim um filme que parece Jurassic Park, porem, pra crianca.

    Muita comedia, quase nada de suspense (como a trilogia), muita censura (nao ha uma cena de alguem realmente ferida), pouco foco em dinossauros.

    A frase que mais concordei com esta critica: “enquanto os realizadores se dedicam a escrever mais linhas de códigos para CGI do que escrever o filme.”

  5. Wesley Neto disse:

    Não! Críticas assim me dão dor de cabeça, ouço muitos, e quando digo “muitos” você deve ter uma noção de quantidade relativa a isso. Então muitos comentários, muitas críticas positivas também em relação ao filme, porque meu Deus, um roteiro super elaborado? Dar uma prioridade maior a cada dinossauro apresentado? Abraçar o tema, como se fosse voltar tudo novamente e explicar de onde eles vieram como são feitos e para que? Ou o que, esperar que seja uma coisa bombástica como o primeiro filme, que foi uma super e inédita novidade, mesmo com efeitos pouco melhores que os atuais? Se trata de um filme para família, F-A-M-Í-L-I-A, jovens, CRIANÇAS e adultos, ninguém vai à um cinema, em especial um menino(a) de 14-15 anos para se deparar com um roteiro glorioso, ou esperar que os dinossauros saiam da tela, e saiam devorando todo um mundo? calma ai, é 3 ou 4D não 100D, o filme não poderia demonstrar maior evolução com o tempo, os efeitos, os dinossauros em aparição que são a novidade, e concordo que o filme se baseou mais nas atrações ao público que viria ao Park, como impressiona-los e fazer com que esse público se expandisse, sim, porém, eles não ofuscaram os dinossauros, do início ao fim, se tratou da I-REX, que acabou por dar maior credibilidade a ela durante todo o filme, mas se tratava dela, repito… do inicio ao fim, se tratava de como o park estaria aberto novamente desde o incidente de uma maneira mais divertida, que as pessoas de todo o mundo pudessem ir e contemplar, e em relação aos expectadores, de como nos prendeu, de uma forma que surgia perguntas como: quem iria derrotar a I-REX, muitos optavam pelo Mosassauro outros pela Rexy e no final acabou por as duas juntas matarem-a, no final, se haveria uma continuação com o mesmo elenco, ou como o park iria permanecer e se iria depois do incidente novamente. Mas sempre tem alguém insatisfeito com o resultado apontam erros, que chega ate a surpreender.

  6. Otavio Lima disse:

    Falou tudo,

  7. Bruno Sousa disse:

    “Críticas assim me dão dor de cabeça.”

    Que críticas? Críticas diferentes das suas?

    “Mas sempre tem alguém insatisfeito com o resultado.”

    Claro!

    Não vivemos em uma ditadura de gosto, opinião ou pensamento.

    Aprenda que outras pessoas têm opiniões e críticas diferentes das suas.

    Hoje em dia vejo os críticos, em todos os sites, recebendo reclamações de pessoas que simplesmente não entendem que pessoas pensam, gostam e opinam de forma diferente.

    Hoje o crítico não pode achar nada ruim. Tem que achar tudo ótimo e olhe lá!!! Tem que gostar de todas as séries e todos os filmes! Porque se não vem meia dúzia reclamar do crítico. E alguns extremistas chegam a atacar o escritor de forma pessoal.

    Ê meu amigo. O buraco é mais em baixo.

  8. Magnosama disse:

    basicamente concordo com a avaliação,
    achei o filme patético…

  9. Mateus Kühn disse:

    Me poupe…. deixa eu adivinhar, você assistiu o filme dublado? Jurassic World foi uma porcaria. Há tempos que eu não via um filme tão sem sentido como este, sem uma história lógica, sem algo que valesse meu tempo.

  10. Marcus Vinicius Lima Martins disse:

    Jurassic World me trouxe a nostalgia e amor que eu tinha por dinossauros. O inéditas o do primeiro filme é impossível de ser replicado, mas pude ter fagulhas de outrora.

  11. Guilherme Libman disse:

    Comentário absolutamente perfeito, Andre. Que filme ruim! A velocidade dos filmes atualmente não permite se envolver com nenhum personagem. Como num filme de Jurassic Park, o T-rex aparece só no final?? O garotinho do filme não chora 1 lagrimazinha, mesmo quando é quase devorado por 1238 dinossauros. E ainda faz piadinha.. Nossa. Que saudade do 1º filme!

  12. Anderson Lima disse:

    Tirou as palavras de minha boca!

  13. Anderson Lima disse:

    Normal. Você é 1 em um milhão!

  14. Anderson Lima disse:

    Apoiado!

  15. Anderson Lima disse:

    Completamente contrário à crítica – mas respeito a opinião de quem a fez – achei o filme incrível. Nostalgia pura. Claro que foi inferior ao primeiro, mas ainda assim, foi grandioso e incrível.

  16. Thiago Sarkisoff disse:

    a pergunta é…

    se o Parque de hoje é no mesmo local que o anterior…

    o que aconteceu com os dinossauros que ali habitavam? os que ficaram na ilha após o 3 filme, se reproduziram e tudo mais…. o que aconteceu com eles?
    eu só precisava saber disso… uma historia que encaixasse no filme de hoje.

    o filme em si, é legal… tem suas mentiras, assim como toooooooooodos os filmes atuais tem.

    mas correr de um T-rex de salto alto …. :/

    outra coisa… o parque estava um caus… derrepente o t-rex salva o dia… e sai andando na moralzinha?
    sem querer arrumar uma treta com o velociraptor?

    paraaaa!

    respeito a opinião de todos… mas se puderem responder essa minha duvida de que o que aconteceu com os “dinos” q habitaram a ilha antes. agradeço.

  17. Danielle Raphaela Voltolini disse:

    Que vida triste que deve ser a sua…

  18. David Wolf disse:

    Gente eu admito que esperava mais também, mas francamente? Eu cheguei lá com a expectativa que estava vendo o filme da minha vida, então não é atoa que acabou não surpreendendo. O único grande problema para mim é a previsibilidade do roteiro, eu adivinhei que o dinossauro Indominous era meio velociraptor, adivinhei que eles já tinham tido um rolo, adivinhei que os pais dos meninos iam se separar, mas francamente o primeiro filme também não é assim? Vi você falando sobre personagens vazios, mas lembremos que no primeiro filme é exatamente a mesma coisa, tirando algumas partes filosóficas, o Alan é um aficionado por dinossauros ‘de verdade’ e odeia tecnologia (odeia ao ponto de não saber colocar um cinto, oi?), a namorada dele mexe com plantas, mas acaba ficando apagada o filme todo só com esse negócio de ter filhos e faz pouquíssimos comentários pertinentes a plantas, o velhinho é o esteriótipo de vovô rico, acho que nem preciso falar do Malcom, certo? Deixando claro, eu amo o primeiro filme, e o terceiro também, e adoro essas personagens, mas não podemos dizer que são as melhores do mundo. Adorei essa ideia dos dinossauros serem como qualquer outro bicho, eu adoro dinossauros e sofria ao ver eles falando assim deles ou os tratando assim e francamente me emocionei muito quando a principal viu a morte daquele braquissauro notando que provavelmente era a primeira vez que ela encostava em um dinossauro. Não achei as personagens tão vazias assim, o menininho Gray roubou a cena inúmeras vezes, nem preciso falar do Owen ele roubou a cena TODAS as vezes que aparecia, admito que me decepcionei um pouco com a Claire, mas tudo bem. Eu achei linda a cena da batalha final onde eles finalmente mostram que os dinossauros de verdade são bem mais do que monstros, são animais inteligentes e sensíveis capazes de criar laços, me emocionei muito com a Blue ajudando o Owen até o final e convenhamos quando aquele T-rex rugiu no final deu vontade de gritar junto com ele, agora a ilha voltou ao que deveria ter sido desde o 1° filme um santuário gigante de dinossauros. Eu espero muito uma continuação que explore essa parte dos militares, já que deram a deixa, se for bem trabalhado seria bem interessante ver esses animais sendo explorados fora das ilhas.

  19. Mateus Kühn disse:

    Me poupe Danielle. Volte para o Fantástico Mundo de Bob… Como se essa crítica foi a única que detonou esse filme… Você mal era nascida quando saiu o primeiro filme!

  20. Thiago Lee disse:

    Falou tudo! Realmente, os personagens do primeiro filme não são tão profundos quanto o crítico quis fazer parecer. E os dinossauros apareciam muito pouco. O que ocorre é que em 1993 tudo era uma grande novidade, por isso a sensação de deslumbramento, que, infelizmente, já não ocorre mais, pois já vimos seres demais feitos em CGI, inclusive dinossauros.

  21. Thago disse:

    Crítica é um texto pra quem tem o mínimo de exigência sobre a qualidade do filme. Pra quem só queria ver dinossauros, qualquer merda tá bom mesmo. Você que se diz fã, acha comparável o pavor das crianças do original com as similares desta produção? O protagonista que mais parece o capitão américa com o Ian Malcolm do primeiro filme? A Dra Sarah… Enfim

  22. Danielle Raphaela Voltolini disse:

    Voltarei mesmo… lá é um mundo bem melhor que esse recheado se gente que só sabe criticar o que os outros fazem, e que não sabem relevar alguns pequenos erros em detrimento da grandiosidade de outros. Estava olhando rapidinho o seu profile no Disqus e ele só comprova essa minha teoria de que você é uma daquelas pessoas negativas que não faz nada para melhorar as coisa, exceto ficar na frente do computador reclamando de tudo… “Google: você quis dizer HATER.”
    Se eu mal havia nascido quando JP estreiou, e dai? Lembro de assisti-lo tantas vezes na infância que ele me marcou, figurando um dos meus filmes favoritos da vida. Esse seu argumento foi bem fraco, tá?
    Mas dane-se… você não gostou, que pena. Eu amei… bom pra mim! Eu soube investir o meu dinheiro, você não. Bom pra mim, ruim pra você.

  23. Mateus Kühn disse:

    Foi me rastrear, procurar meu profile no Discus? Olha que eu também sei rastrear e sei inclusive fazer uso melhor das informações. Vamos encerrar esta conversa antes que você fale mais alguma coisa que vá se arrepender depois. ;)

  24. Lucas Adamis disse:

    Aquilo não são dinossauros seu estúpido! São monstros! Esse tipo de filme é um desrespeito com os animais que eles eram e com o livro que deu origem a essa franquia!

  25. Mayara disse:

    Excelente crítica. Exatamente isso: a própria crítica do filme é o problema do filme. Eu falo que achei o filme mais sem “alma” que vi em um bom tempo.
    Parece q falta vontade de fazer um filme que transmita qualquer sensação que não seja a adrenalina passageira, que é a contraprestação de um ingresso super caro em 3D com cadeiras que se movimentam. O objetivo do cinema atual é somente fazer dinheiro, nada memorável, e esse filme é um reflexo do público que fez de Transformers uma das franquias mais rentáveis do mundo: às favas com o roteiro, mais CGI mais CGI mais CGI. O filme até arranca um pouquinho de nostalgia, o começo dele é bem competente, mas da fuga da Indominus em diante, o filme é só ladeira abaixo.
    Jurassic Park é único e nenhuma das três sequências lhe faz jus, isso pq ainda achei esse quarto um pouco superior ao segundo e ao terceiro filme.
    Pior que tem gente usando o critério de bilheteria como sinônimo de qualidade. Minions estão mandando “olá” pra esse argumento.

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