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Por: Bruno Carvalho

Crítica | O Hipnotizador, nova produção nacional da HBO

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Baseada em El Hipnotizador, HQ criada pelos argentinos Pablo De Santis e Juan Sáenz Valiente, a nova produção da HBO em parceria com a RT Features conta a história de Natalio Arenas, um hipnotizador que adormece as pessoas para desenterrar recordações escondidas no fundo de suas memórias. Por meio de sua habilidade, ele atua como um “detetive do inconsciente”, desvendando os mistérios que afligem aqueles que buscam sua ajuda. Inicialmente, O Hipnotizador merece destaque pelo seu esmero técnico em praticamente todos os aspectos: da ambientação de época que remete ao lúdico e casa muito bem com a temática apresentada, passando pela eficiente e pontual trilha sonora, até a invejável direção de arte que transforma as duas principais locações, um hotel e um teatro, em lugares intimistas e enigmáticos.

Infelizmente, o trabalho irrepreensível de produção está à dispor de um roteiro apenas razoável, numa trama que nasce dispersa e com problemas de ritmo. Fato é que O Hipnotizador não estabelece de forma contundente em seu piloto a que veio: como série procedimental, peca na apresentação do caso e de suas personagens, especialmente no que dá título à série. Apesar de competente, o argentino Leonardo Sbaraglia surge em tela como uma figura levemente esmaecida e sem claras motivações, assim como o elenco secundário, que é pouco delineado. Como drama, poderia iniciar uma história que fosse mais capaz de envolver o espectador e chamá-lo para seguir os outros 7 episódios que comporão a primeira temporada, já que o maior conflito (o de Arenas com o psicólogo vivido por Chico Diaz, Darek) fica “escondido” na maior parte do tempo. O piloto se desenvolve de forma lenta, apesar da chamativa premissa.

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Assim que chega à uma cidade indefinida no tempo e espaço (onde as pessoas falam português e espanhol), Arenas logo arruma emprego no principal teatro e mostra os seus dotes ao público. Ele passa a ser uma das várias atrações e acaba virando uma espécie de “facilitador” de revelações pessoais de seus atormentados voluntários, como se fosse um terapeuta de regressão que faz de suas sessões um espetáculo. Mas a execução, conforme citei acima, segue de forma arrastada e pouco instigante, especialmente quando o acurado visual que remete ao etéreo torna as pesadas revelações – como a de um pai que matou a própria esposa – numa aparente sequência de sonho, das várias inseridas no episódio, sem conferir a densidade dramática necessária. Além disso, como praticamente todos os personagens adotam um uníssono e contido tom de voz aliado à uma fotografia que oscila entre o sépia, o escuro e o granulado, a sensação inevitável ao final dos 60 minutos iniciais de O Hipnotizador é a de sonolência, ironicamente.

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Mas a direção eficiente de Alex Gabassi traz boas surpresas, como, por exemplo, um belo “truque de câmera” para evocar um momento de confusão em determinado ponto do episódio, o que em termos de linguagem é bem interessante. Espero, sinceramente, que a série torne esta caprichada e bela produção numa história que engrene logo e mereça espaço fixo no disputado horário nobre das noites de domingo HBO, principalmente se focar mais na rivalidade entre Arenas e Dalek e deixar os “casos da semana” – que buscam evocar uma complexidade narrativa que a série não apresentou neste capítulo de debute – para um segundo plano. Por enquanto, temos apenas uma interessante história de base que poderia ser muito melhor aproveitada.

3star

ss