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Por: André Costa

Crítica | Uma bomba chamada Quarteto Fantástico

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[alguns spoilers de leve à frente] Quando um grupo de executivos de Hollywood decide que precisa comprar novos helicópteros, chamam um diretor promissor e um elenco interessante para um filme de super-heróis porque olha quanto dinheiro Vingadores fez, então traz aí o Quarteto Fantástico, uns efeitos de computador e uma campanha de marketing agressiva e não precisa de muito mais para fazer um filme.

O grande mérito deste novo Fantastic Four é servir como contra argumento da famosa máxima “a prática leva à perfeição”: quarta tentativa de levar o primeiro grupo de heróis da Marvel para o cinema, é também a quarta expedição que leva Reed, Sue, Johnny e Ben vertiginosamente em direção ao fracasso, reunindo uma série de decisões tão preguiçosas e amadoras que é pertinente questionar se a maior parte dos 122 milhões de dólares gastos foi queimado em uma fogueira junto com o roteiro.

Porque a película nada mais é do que uma colagem de temas e conflitos já vistos um milhão de vezes e que, aqui, são usados justamente por já terem sido vistos um milhão de vezes, mesmo que a história não comporte eles. Por exemplo, a certa altura o Coisa diz a Reed “parei de acreditar nas suas mentiras há muito tempo“, e a cabeça do espectador quase entra em colapso tentando entender a ideia da frase porque Reed não havia dito nenhuma mentira e eles na verdade ficaram um tempão sem se ver, o que basicamente impossibilita tal diálogo. É apenas uma frase de efeito colocada para tentar definir algum drama, e Fantastic Four faz isso como se não houvesse amanhã: como Johnny é rebelde, alguém fala que ele não gosta de obedecer ordens, mesmo que isso nunca aconteça; Victor aceita voltar ao projeto por causa de Sue, mesmo que o interesse dele por ela nunca seja retomado; Sue fala a Johnny “parece que achou sua vocação” tipo oito segundos após ele entrar no projeto, mesmo que nunca fique clara a participação dele (“eu construo qualquer coisa“, diz o rapaz, em uma tentativa demente de justificar sua presença. Então por que não construiu um roteiro bom, jovem?).

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Isso tudo emite partículas radiativas que impedem o espectador de se aproximar das personagens ou da história, até porque cada uma daquelas pessoas é hiperbolicamente unidimensional (Johnny é rebelde, Sue é eticamente correta, Reed é inteligente, Victor é arrogante) ou sequer isso (a principal característica de Ben é minério). Não há uma preocupação em construir uma relação, em mostrar aquelas pessoas interagindo nas situações (há apenas um plano mostrando eles se divertindo. Dura cerca de um tweet), e o resultado é que a equipe reunida pelo Dr. Storm soa menos como um grupo e mais como um sistema de suporte a diálogos. Não ajuda também a história seguir em frente com soluções dissolvidas em preguiça –  Sue e o Dr. Storm simplesmente pipocaram na feira de ciências, sério? Reed ligou para Ben no meio da noite e chamou ele para se juntar à equipe na viagem, sério? Tudo que precisa para uma máquina interdimensional funcionar é ajuste no código-fonte, SÉRIO? -, mergulhando Fantastic Four em uma atmosfera de “vamos fazer tudo de qualquer jeito e azar” que torna o filme um amontoado de patetices, um conjunto de derrotas, uma história que soa quase ofensiva – não consigo imaginar o quão niilista precisa ser a visão da humanida de uma pessoa para que ela acredite que o público realmente aceitaria tais desenlaces.

Nem mesmo as cenas de ação conseguem desfibrilar a coisa, porque:
a) são incrivelmente mal coreografadas, sem nenhum momento realmente empolgante e com sérios problemas de mise-en-scène (vejam todas as vezes que Sue aterrisa com sua bolha invisível e chorem com a falsidade do movimento);
b) o CGI utilizado à exaustão é tão feio que provavelmente jamais tenterão fazer uma paródia 8-bits do filme, já que não teria muita diferença (vejam a cena de Reed na maca e chorem com involução da computação gráfica);
c) elas quase nunca acontecem (o que já nem sei se é algo ruim ou bom, mas chorem de qualquer jeito).

Em suma, Fantastic Four é uma coleção de clichês (“não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o futuro“, diz Sue Storm, cujo nome de super-herói é Biscoito da Sorte), cenas óbvias (dá para antecipar a forma como Victor vai voltar a continentes de distância), conflitos abandonados à própria sorte (percebam que o perrengue entre Ben e Reed nunca é resolvido e fica por isso mesmo), frases de efeito e, e aqui é só uma hipótese que levantei agora, cigarros de crack distribuídos durante a produção. Qualquer resquício de lógica é varrido para baixo do tapete e o único momento realmente bom da película (quando Victor volta à Terra e sai aterrorizando o quartel) cria uma situação absurda no clímax (por que ele simplesmente não fez o quarteto explodir que nem fez com os soldados?). Aliás, o clímax é tão rápido e mal construído que parece algo feito na noite anterior e finalizado às duas da manhã quando os realizadores já estavam sem saco e não se importavam com nada e queriam realmente era dormir. A única reação provocada pelo momento mais dramático do filme é uma ou outra bufada de impaciência.

Josh Trank, o diretor, falou que a versão lançada é diferente da que ele tinha há um ano e que seria, de acordo com o rapaz, bem melhor (foram feitas refilmagens, o que sugere insatisfação do estúdio com o material). Pode ser verdade, pode ser que o sujeito esteja também tirando o dele da reta, mas uma coisa fica clara: quando o diretor diz que o resultado final não é bom, isso também diz muito sobre quão fantástico o filme realmente é.

1star

9 respostas para “Crítica | Uma bomba chamada Quarteto Fantástico”

  1. Erivelton Freitas disse:

    Concordo com tudo dito! Quarteto Fantástico é a prova de que não é porque um filme é da Marvel, ou carrega o peso da marca Marvel que ele é necessariamente bom!

  2. Wallace Barroso disse:

    Marvel mas produzido pela Fox e não pelos estúdios Marvel. Agora me vem o medo do que vão fazer com os X-men e Deadpool.

  3. Marcos disse:

    Parece que Deadpool não terá problema.

  4. Magnosama disse:

    sou obrigado a concordar em tudo,

    o filme é mesmo uma boxta.

  5. Erivelton Freitas disse:

    Homem-Formiga foi a prova que a Marvel Studios (Disney), nem sempre acerta, o filme passou se arrastando pela marca orçamentaria de US$ 130 Milhões no USA. Quase que fracassava.

    E outra, tem muito fanboy aí dizendo e achando que por ser um Grupo de Super-Heróis da Marvel, ou uma franquia da Marvel, o filme se torna automaticamente bom, mas aí está a prova de que não é por aí e nem nunca vai ser!

  6. rebeca disse:

    disse tudo que pensei desse filme. Esse filme é tão ruim que eu dormi no cinema e meu namorado tb. Perdemos toda parte da luta. E eu dificilmente durmo assistindo um filme. Queria descobrir um buraco negro e jogar esse filme dentro

  7. Vitor Ferreira disse:

    E não somente Homem Formiga Erivelton, Ultron pra mim é um ultraje. O filme é fraco, sem profundidade, so tem ação e efeitos especiais. Se querem trazer Guerra Civil as telas, que obscureçam um pouco suas tramas, para ai justificar e ser plausível seus filmes futuros. Meu medo é que Guerra Civil seja uma discussão boba entre heróis, “para que as crianças entendam”.

  8. Bruno Alves de P. Xavier disse:

    Homem-Formiga é um bom filme e foi um acerto em alta aprovação da crítica (vide notas no Metacritic/ Rotten Tomatoes / IMDb) e público, só não conseguiu emplacar tanto na bilheteria, ficando na frente só de Incrível Hulk, entre os filmes da Marvel Studios. Talvez por não ser um herói tão conhecido, tenha contribuído.

  9. Bruno Alves de P. Xavier disse:

    Cap America: Guerra Civil deve ser melhor pois quem vai dirigir são os Irmãos Russo, e deve seguir o tom de Cap America: Soldado Invernal (que é ótimo).

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