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Por: Bruna Bottin

Crítica | UnREAL e a manipulação do entretenimento

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[contém spoilers] No mês passado o Ligado em Série postou uma lista com algumas séries bacanas que não estão nos canais tradicionais. Foi dali que eu decidi assistir UnREAL, série que encerrou na semana passada sua primeira temporada na emissora norte-americana Lifetime. Para contextualizar: a história acompanha os bastidores de um reality show de relacionamentos e toda a manipulação que vem por trás de um programa desse segmento.

Manipulação, inclusive, é a palavra que define essa produção. O episódio que abre a temporada já mostra que ninguém está por ali na brincadeira. Quinn, interpretada pela enérgica Constance Zimmer (Entourage), é a produtora executiva de Everlasting (uma clara referência a The Bachelor, da ABC), e a responsável por trazer Rachel (Shiri Appleby, de Life UnExpected) de volta aos bastidores da atração, mesmo após a confusão que ela causou no finale da temporada passada.

Rachel chega nos manipulando desde o início. Você realmente não consegue entender de cara quais são as motivações da personagem para voltar a trabalhar em um ambiente hostil que a levou a perder a cabeça no passado. Mas ela vem como quem não quer nada, até que começa a fazer o que sabe melhor: conduzir e dominar o jogo.

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A atuação da atriz Shiri Appleby nos entrega uma anti-heroína que até o Heisenberg de Breaking Bad tiraria o chapéu. Ela consegue articular todos os acontecimentos e, ao mesmo tempo, vender a ideia que se preocupa com as pessoas em sua volta. A verdade é que Rachel é uma pessoa mentalmente perturbada e não está nem aí para ninguém – incluindo ela. Um ótimo exemplo é o episódio onde a personagem traz o violento ex-marido de uma das competidoras ao programa apenas para forçar a situação onde Adam (Freddie Stromer) sairia como o príncipe encantado salvador da pátria.

Rachel cria a situação, se arrepende após o suicídio da participante e depois supera isso por descobrir que outra produtora foi tão baixa quanto ela. Pra piorar, ela ainda consegue convencer a irmã da falecida a ler uma falsa carta de suicídio – tudo para garantir a impunidade do show. Porém, o discurso de Rachel é outro: ela aparenta querer responsabilizar o ex-marido abusivo.

Isso é o que me lembra qual o verdadeiro trunfo de UnREAL. A série não tem o menor medo de tocar na ferida e fazer uma dura crítica destes “enlatados” da TV que consomem centenas de horas de programação por temporada. Ela usa polêmicas com propriedade para evidenciar esse mundinho de falsidade e audiência. No primeiro minuto do episódio de estreia, Quinn diz: “Shamiqua? Essa é a que tem potencial para ser esposa? Ela é negra! Não é minha culpa que a América é racista”. Sem rodeios para apontar o óbvio, pois em Everlasting, tudo o que importa é enxugar o máximo dos estereótipos femininos como a latina gostosa, a caipira jeca, a inteligente sem sal, a negra barraqueira, a quarentona com tudo em cima e por aí vai. É como a Quinn e Rachel falam várias vezes, isso é produção de “boa TV”, pois o importante mesmo é causar para a audiência subir. UnREAL peca, porém, no excesso de concessões que faz com seus personagens, em especial entre os produtores e as meninas do elenco, que são mostradas de forma unidimensional apenas para servir ao roteiro que, em suma, é bastante novelesco.

Ainda assim, UnREAL acaba tão viciante quanto o programa que produz e, do mesmo jeito que um reality show de competição, conseguiu manter o clima cada vez mais tenso e interessante conforme o final se aproximava. Os últimos episódios conseguiram amarrar a temporada, evidenciando a jogada maior de Quinn sobre Chet (Craig Bierko, de Boston Legal) quando esta se descobre traída pelo ex-amante e agora noivo. A série prova ainda o talento absurdo da excelente atriz Constance Zimmer, eterna coadjuvante de várias produções, mas que aqui merecidamente abraça o posto de protagonista desta promissora produção, que já está renovada para o segundo ano. Aliás, o gancho deixado é interessante, pois evidencia que a próxima temporada não será uma mera cópia da primeira.

4star

6 respostas para “Crítica | UnREAL e a manipulação do entretenimento”

  1. JGRS disse:

    hum….assisti três episódios e estou na duvida se acompanho a serie ate o final (mesmo me incomodando algumas coisas) ou se largo de vez. O piloto é muito interessante, ousado, bem sarcástico e critico, porem eu senti que esse tom vai diminuindo ao longo dos episódios, sobrando apenas um dramedia mais ou menos. Ainda assim, estou curioso para saber onde isso tudo vai dar :)

  2. Marianne disse:

    O gacho deixado no episódio 10 foi sensacional, pra mim pelo menos.. mostrou que o Jeremy não é tão idiota quanto eu achava que era.

  3. Eduardo disse:

    Obrigado pelo review, Bruna, só poderia ter colocado um alerta de spoiler no começo, já que a temporada acabou de terminar e tem gente que só descobriu a série agora.

  4. Bruno Sousa disse:

    Hoje estou na mesma. 3 episódios e não sei se continuo. Esse série é bem mais ou menos, no máximo. Bem dramedia bestinha mesmo. O pessoal tava falando tão bem, estava esperando bem mais. Acho que vou assistir mais um e decidir se paro ou não.

  5. bruna bottin disse:

    Opa, desculpa mesmo pela falta de alerta :( arrumando isso agora

  6. Marcos Melo disse:

    (SPOILER)

    Adam volta pra cidade dele sem ninguém é isso ? No final da temporada temos Rachell e Quinn sozinhas apenas contando com uma a outra já que Jeremy acabou com Rachell e Quinn com Chet né ? E porque Rachell teve o surto na temporada passada ? Um episodio Jeremy fala sobre algo que aconteceu no México.. O que foi? Essas respostas só serão reveladas na segunda temporada ou foram perguntas esquecidas ?

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