FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Não é só uma questão de streaming

frank underwood

Passei o fim de semana sitiado entre os dois braços do sofá de casa assistindo à sexta temporada de Archer, disponível na Netflix. A quinta temporada havia patinado um pouco em poças de humor sem graça, mas esta sexta voltou a encontrar o equilíbrio entre criatividade, piadas ensandecidas e álcool (e o trabalho de dublagem da série é algo tão espetacular que já deviam ter vencido um Grammy).

Ah, uma coisa importante sobre Archer: só comecei a assistir porque estava disponível na Netflix. Caso tivesse que pensar duas vezes – leia-se alugar, baixar ou esperar passar na TV -, talvez meu interesse tivesse se dissipado e eu perderia uma das séries mais engraçadas da atualidade. O mesmo com BoJack Horseman e até mesmo alguns filmes (os ótimos Hot Girls Wanted e True Cost me vêm à cabeça), da parte da Netflix, enquanto no HBO GO Bored to Death e Curb Your Entusiasm me pegaram desprevenido em alguma noite chuvosa e me conquistaram e até mesmo o Crackle, com Comedians in Cars Getting Coffee, entra na turminha. Tudo por streaming, mas, principalmente, tudo muito fácil.

É óbvio que as reclamações das operadoras, que exigem algum tipo de regulamentação dos serviços de streaming, possuem uma agenda corporativa por trás. Questões legais e jurídicas precisam ser resolvidas e equilibradas, claro, mas é curioso que essa manifestação ignore completamente a questão principal por trás do sucesso da Netflix: pela primeira vez nós, aficcionados por séries, por filmes, que assistimos a tudo e conversamos e discutimos e debatemos e escrevemos a respeito, estamos sendo bem tratados.

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Longe de mim achar que não há problemas, tanto com produções próprias (Hemlock Grove no lado da Netflix,e  Girls, no lado da HBO, são fraquíssimas) quanto com estrutura (algumas coisas simplesmente evaporam da Netflix e o HBO GO consegue ser bem travado às vezes – além da assinatura do canal ser um pouco salgada). Mas são questões pontuais e compreensíveis (nem todas as investidas em séries próprias vão dar certo), que empalidecem diante da absurda facilidade apresentada por esse cenário. Pagamos uma quantia por mês – R$ 19,90 a Netflix, R$ 30,90 a HBO – para ter acesso a um catálogo mastodôntico de programas de TV e filmes, enquanto o Net Now cobra absurdos R$ 10 para quem quer assistir a um filme com uma marca d’água estúpida no canto superior. Qualquer pessoa que assista ao menos três filmes por mês – nós, que ficamos em casa na sexta vendo “TV” – não hesita em trocar um pelo outro.

Pela primeira vez, estamos pagando um preço justo e, vejam que coisa inédita para um mercado outrora dominado por operadoras de TV: recebendo um serviço adequado ao preço que pagamos. Mais do que isso: enquanto a Sony decidiu uma época não oferecer opções legendadas, a HBO estreia séries do calibre de Game of Thrones e True Detective simultaneamente no Brasil e nos EUA – e, caso eu não consiga assistir à transmissão, o episódio já está disponível no HBO GO quando os créditos acabam de rolar. Enquanto a Warner renova The Big Bang Theory para a desnecessária décima temporada, a Netflix junta David Fincher e Kevin Spacey em uma série política, aborda o cotidiano das mulheres em uma prisão, tira sei lá de onde um desenho sobre um cavalo antropomorfizado. Eu não preciso piratear episódios de Veep ou Unbreakable Kimmy Schmidt: eles estão à minha disposição a qualquer hora, em qualquer lugar e sem custo adicional. Também não preciso esperar semanas ou meses após os lançamentos para que possa assistir aos episódios no Brasil, como no caso de The Good Wife no Universal Channel, que conseguiu ser mais atrasada ainda que a janela para streaming. Ou seja, Netflix e HBO e outros serviços de streaming como Crackle estão deliberadamente me ajudando a assistir ao seu catálogo.

unbreakablekimmynetflixFOTO: NETFLIX

O que as operadoras não conseguem entender é que o streaming não é a ameaça aos seus negócios; ele é apenas a tecnologia, que inevitavelmente será adotada por todos cedo ou tarde. A ameaça vem de serviços que buscam entender o consumidor e oferecer a ele algo que se adeque à necessidade – assisstir a séries, no caso – de forma fácil, simples, sem complicações. Não se paga muito mais para ver algo em HD ou para desbloquear conteúdo premium ou qualquer coisa do gênero. Existem diversas opções de áudio e legenda. Os catálogos são imensos e cheios de obras sensacionais (minha lista de filmes a assistir está em 40 atualmente). E o preço cobrado é a) acessível e b) muito acessível. É imperioso que o mercado de TV por assinatura desça do seu pedestal e repense o seu engessado e retrógrado modelo de negócios em vez de bradar contra a inevitabilidade do novo padrão estabelecido.

Não é uma questão de streaming: é uma questão de respeito.

40 respostas para “Não é só uma questão de streaming”

  1. Kareka_almeida disse:

    Queria imprimir isso e colocar num quadro!!! “…pela primeira vez nós, aficcionados por séries, por filmes, que assistimos a tudo e conversamos e discutimos e debatemos e escrevemos a respeito, estamos sendo bem tratados.” =D

  2. Marcos E. Ricchetti disse:

    Sensacional texto, muito ?. Parabéns.

  3. Matheus Maggi disse:

    Dizer que o Netflix é excelente é exagero. Digamos que das 52 séries que eu assisto/já assisti, apenas umas 15 estão no Netflix. O catálogo ainda é muito pobre e para mim ainda não compensa assinar, ainda é mais vantajoso baixar por torrents.

  4. Luiz Correia disse:

    Faltou mencionar Bloodline na Netflix, é excelente!

  5. Marcos Fontes disse:

    Se avaliarmos a relação custo-benefício, acho excelente sim! Talvez com um número cada vez maior de assinantes, eles tragam cada vez mais séries, além de produções próprias é claro!

  6. Rafael Batalha disse:

    “não entende porque The Wonder Years não faz parte do currículo do ensino fundamental”

    Uma opinião forte e bem fundamentada sobre streaming só poderia vir de alguém que gosta de Anos Incríveis. hahaha..

    Belo texto.

  7. Sandro Valente disse:

    Sem falar que agora existe um projeto de lei, que se for aprovado, a netflix deverá obrigatoriamente produzir conteúdo nacional.
    Ou seja, nem estão interessados em saber sobre a qualidade do serviço, e sim enfiar goela abaixo seus interesses.

  8. anon disse:

    óbvio que é mais vantajoso um serviço gratuito que não paga direitos á ninguém. mas das alternativas morais, que vc valoriza e paga quem produz, a netflix é a melhor

  9. Refer disse:

    O interessante é que seu texto também se aplica à serviços como o Uber e o Whatsapp, em que a tecnologia possibilitou serviços que de fato agradam aos consumidores. Acho lastimável que certas empresas/sindicatos ainda não entenderam que isso veio para ficar, e, principalmente, não podem escolher o que o cliente pode ou não consumir, se escorando no Estado para se lançarem de medidas que, dizem eles, beneficiam as pessoas, quando na verdade beneficia seus próprios interesses corporativistas. Agora vão tentar regulamentar o Uber, a Netflix, e isso simplesmente não faz sentido. Pra que mexer em algo que está dando tão certo? Agora vão obrigar essas empresas a pagarem uma série de taxas, a ter uma cota mínima de conteúdo nacional, etc. A única coisa que isso vai acarretar é o aumento de preço desses produtos, lesando, no fim das contas, quem eles dizem proteger, o consumidor.

  10. Edu disse:

    operadoras insistem em a) planos caríssimos b) nos obrigam a assinar pacotes de canais que não queremos c) serviço via satélite péssimo que não aguenta uma leve chuva

  11. Marri disse:

    Ai tô lendo tudo e me vendo no modo de pensar e sentir a diferença, quando leio o resumo da obra: “Não é uma questão de streaming: é uma questão de respeito.”. Esta frase cala a boca e derruba o mimimi. Sem falar na atenção que o Netflix dá enviando pra você dicas de novas séries que se encaixam no seu perfil, quando chega nova temporada daquela que você viu e etc…Eu te amo, serviço de streaming! Eu te amo, Netflix!!

  12. Deak disse:

    A facilidade que estão nos dando é tamanha, que minha mãe, que só assistia algumas séries esporádicas quando achava por acaso no cabo, hoje não quer sair do sofá e assiste séries que ela sempre teve vontade, mas nunca soube nem pronunciar Torrent, quanto mais usá-lo, para ter esse acesso. E sem precisar esperar uma semana pra assistir o novo episódio, atrasado, das séries que gosta.

    Ou seja, além de oferecer um ótimo serviço pra nós, ratos de séries, também engloba aquele pessoal que não está acostumado com “essas tecnologia moderninha ai” (mãe) pela sua simplicidade e facilidade.

  13. Deak disse:

    Hoje só tenho tv por causa dos canais esportivos. Além das séries, só assisto aos canais esportivos. E por causa desses canais, tenho que desembolsar 200,00 dilmas, ou é assistir via streaming….

    Quando houver um serviço “NetflixSports”, bye bye tv a cabo

  14. rocorby disse:

    Texto sensacional que fala por,se nao todos, a grande maioria de nós viciados em series e filmes. Foi tão bem escrito que ate vou deixar passar que Girls é fraquissima hahahaha. Obrigado por nos representar

  15. Marcio Holanda disse:

    Excelente texto. Só uma correção: True Detective ficava disponível na HBO Go no mesmo horário que começava na TV. :)

  16. Supapo Boy disse:

    Mandar isso para as os escritórios das operadoras!!

  17. Reginaldo Marcelo disse:

    TV por assinatura foi bom até o começo dos anos 2000. Era uma alternativa viável, com conteúdo privilegiado (em relação a TV aberta). Hoje, parece mais uma TV aberta, com canais de filmes e séries todos dublados, entupidos de comerciais e pop-ups que ficam o tempo todo lembrando o que vai passar a seguir, tirando toda a imersão que se poderia ter na história. Já chegam ao cúmulo de acelerar os créditos nos finais exibindo-os numa tela minúscula, enquanto rola a imagem (e áudio!!!) de outra atração do canal. Ainda mais: infomerciais espalhados em todos os horários e canais. Reality shows ridículos e programas repetidos à exaustão… Pagar 100, 200 ou até 300 reais para isso? E nem ao mesmo poder escolher o horário que vai assistir? É um milagre que as operadoras ainda tenham assinantes…

  18. Luiza Marins disse:

    Girls é fraquíssima em que sentido? me explica?

  19. Sandro, a cota de produção nacional é Lei e deveria, sim, ser aplicada à Netflix. Mas a Netflix certamente não terá problemas com isso, pois investe em conteúdo nacional como co-produtora (stand-up, séries e agora uma série original).

  20. Higor Oliveira disse:

    Seu comentário foi muito bom. Me lembro quando meu pai assinou Sky em 1999, era simplesmente demais, impossível ficar em um canal só, de tanta coisa boa passando. Tinha os mosaicos com um fundo de nuvens e uma música clássica tocando, só de navegar pelas logos do canal vc sentia que estava contratando algo diferente. Hoje vc anda pelos milhares de canais com um sistema de interação cheio de bugs e travado, e quando acha um filme bom passando, é dublado e nem tem opção de áudio/legenda.
    Imagino que as operadoras sobrevivam ainda por conta de dois motivos:
    Programação esportiva e muitos assinantes são da geração passada, não tem o hábito de assistir TV on-demand, sequer sabem que existem.
    Acredito que o mercado de TV por assinatura estará bem diferente daqui uns 10 anos.

  21. Lui Spin disse:

    É um absurdo que com a tecnologia de hoje, eu tenho que esperar a Fox decidir em qual horário e quantos episódios por dia eu vou assistir de Simpsons.

  22. Lui Spin disse:

    A sim, é mais vantajoso baixar por torrents porque é de graça né.

    Baixar algo que não encontra, é até entendível. Mas as 15 séries que tem, deveriam valer a sua assinatura.

  23. Lui Spin disse:

    O cara diz abertamente que é mais vantajoso piratear, do que assinar um serviço. È muita cara de pau.

  24. Lui Spin disse:

    Infelizmente. Mas ao contrário da TV a cabo, nós podemos escolher assistir ou não determinada série. Então é só deixar de canto o que for nacional, para encher linguiça, e assistirmos as séries americanas de sucesso.

  25. Lui Spin disse:

    Os comerciais repetitivos e os popups são o que mais me irritam.

  26. Vinicius Guerreiro disse:

    Toda historia tem 2 lados. Sou a favor de todo serviçi q vc pague os direitos autorais. Na minha cidade q não é grande existem locadoras de video q vivem bem. 3D blu ray e variedade vale p todo tipo de midia q vc escolha. Tv a cabo reclama de algo q acho justo. Devem rever as leis e impostos cobrados dos serviçis de streming pq paga-se muito imposto no Brasil. tem terreno p todo mundo. eu não gosto de netflix ou tv a cabo. sou do tempo de locadora q vc escolhe o q quer e boa. Mas numa cidade grande netflix seria melhor mesmo. So q eles devem pagar os impostos da mesma forma q uma tv a cabo. O q mata no Brasil é a infeliz ideia q vc baixa de graça e ve sem pagar so q p isso vc paga a internet mais cara do mundo. Depois quer cobrar qualidade sendo q nem paga pelo q assiste. Idiotas.

  27. Matheus Maggi disse:

    O problema é que não sou o tipo de pessoa que espera a temporada acabar para assistir tudo de uma vez. E como o Netflix demora para colocar uma temporada que já acabou, até lá eu já assisti da forma ‘ilegal’.

  28. disqus_8EvqTypUMy disse:

    Achei muito bom o texto, porém, achei desnecessário: “Enquanto a Warner renova The Big Bang Theory para a desnecessária décima temporada” até onde sei, a série possui sim uma quantidade de fãs consideráveis para validar sua renovação, entendo que quis focar no fato de precisarmos de renovações, mas não acredito que diminuindo algo é o caminho certo. Ainda assim concordo com tudo que foi dito, realmente o sonho se tornou realidade agora é esperar e ver se não vão dar jeito de estragar com isso.

  29. Refer disse:

    O caminho não é por mais impostos, pelo contrário. O Brasil possui uma carga tributária imensa. As tvs a cabo deveriam direcionar esforços para uma diminuição de impostos pagos, de forma que isso seja sentido no bolso do consumidor.

  30. Vinicius Tavares disse:

    A melhor matéria sobre streaming já lida. Parabéns André você chegou a um ponto importante e nunca pensados pelas grandes corporações principalmente com os Brasileiros. Estamos sendo bem tratados e muito bem por sinal.

  31. fabio silva rabelo disse:

    Falou tudo!! #ChupaNET #ChupaSKY #ChupaOUTRASTBM

  32. Giovani disse:

    Tenho a Sky e hoje assisto muito pouco. Ninguém mais aguente programas como Trato Feito e similares passando quase o dia inteiro…infomerciais, programas sem opção de legenda e áudio. A questão é saber se as operadoras querem entender o que o assinante deseja.

  33. Anderson Lima disse:

    As operadoras de TV a cabo realmente precisam repensar seu modelo de negócios. Se eles querem ganhar mais assinantes, então no mínimo tem que apostar em lançamentos simultâneos de episódios inéditos.

  34. Leo disse:

    Exatamente, prezam quantidade e nao qualidade…

  35. Renata disse:

    Exatamente! A mesma coisa acontece lá em casa, com a diferença de que não temos tv a cabo. Minha mãe sempre dependeu da tv aberta ou dos downloads que eu fazia para ter acesso a séries e filmes.
    A facilidade de navegação do netflix deu uma baita autonomia para ela em relação a isso. Hoje ela escolhe o que quer ver, quando e onde. Não precisa pedir para eu baixar. Isso é uma coisa maravilhoso, é um estímulo ao consumo de cultura.
    Ela ainda me conta toda animada das dezenas de filmes que já assistiu esse ano, que viu não sei quantos episódios seguidos de uma série…Como podem querer prejudicar um serviço que deixa mães felizes?

  36. anon disse:

    e nessas as séries não tem audiência pra mostrar pra quem produz, e acaba sendo cancelada de uma temporada pra outra. quer baixar, tudo bem, eu mesmo baixo direto. mas que é uma alternativa imoral que só prejudica quem produz conteúdo, é. assista de novo no netflix, até pq lá tem muita série, muito filme, muito documentário bacana. e só pelo fato de ser on demand já compensa muito mais do que quanto você paga numa tv á cabo

  37. Igor Silva disse:

    acontece a mesma coisa comigo, já assisti ou assisto em torno de 60 séries, e não gosto de ficar atrasado, me lembro que enquanto a 5ª temporada de The Walking Dead estava acabando, via pessoas na página da Netflix pedindo a 4ª temporada, um atraso enorme se fosse assistir por lá, seria com um grande atraso e cheio de spoilers, isso para não falar de Gotham, eu já havia assistido tudo legendado baixando por torrent, ai a globo passou a série diariamente e só depois ela foi sair na Netflix.

  38. Dayanne Estrela disse:

    pq gm comenta do no da net? é quase um netflix

  39. Douglas disse:

    Lei de reserva de mercado que em diversos casos nao prima pela qualidade,fora o uso excessivo de leis de auxilio de captação de recursos.

  40. Zé Geraldo disse:

    Penso que muitas séries e filmes contidos no Netflix só entraram no meu catálogo de filmes graças ao serviço. É barato e prazeroso navegar pelos menus do streaming, escolher um filme, seu áudio/legenda e assistir. A única crítica seria a velocidade para manter as atualizações (Under The Dome, que já possui a 3ª temporada em qualquer site de séries, ainda está na 2ª no Netflix), mas acho que isso é irrelevante perante a quantidade de séries e filmes no serviço. Ainda é possível criar uma seleção de acordo com seus gostos, o que atrai ainda mais o consumidor para a adesão do streaming.
    Como dito em um comentário anterior, o futuro é on demand, e embora seja um consumidor das antigas, estou cada vez mais impressionado com a facilidade que é assistir o que gosto, no meu tempo e pagando um preço justo por isso.
    Infelizmente querem acabar com nossa alegria. Típico de Brasil.

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