FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

A nova abordagem das séries

mad men

Acabei de assistir ao quinto episódio de Narcos. Um bom episódio, que faz girar bastante coisa e acende pequenos pavios que hão de explodir mais à frente. Mas o ponto aqui não é a qualidade da série ou como coisas explodem; o ponto é que, embora eu tenha gostado e compreendido as possíveis implicações das ações ali retratadas e o sexto episódio esteja totalmente ao meu alcance, eu não fiquei com vontade nenhuma de clicar em “assistir agora”. E isso tem sido cada vez mais comum.

Tenho percebido um tom cada vez mais cadenciado em diversas séries. E não só nas da Netflix: Breaking Bad é sensacional, mas é preciso força de vontade para passar alguns episódios. A segunda temporada de True Detective foi ótima, mas o único cliffhanger realmente “minha nossa preciso ver isso” foi o do segundo episódio. Até mesmo a ótima Mr.Robot, que é mais vertiginosa – conspiração, hackers, ameaças, reviravoltas, drogas, gente mexendo em computadores – possui uma levada menos elétrica. Parece que a tendência agora é apostar menos em grandes estardalhaços e investir ao invés em um desenrolar lento da trama, aproveitando as conflitos/situações causados por pequenos momentos da história. Há, tudo indica, uma preocupação em não recorrer a formulismos e a construir uma certa profundidade dramática a partir de eventos corriqueiros (há um episódio inteiro de Breaking Bad envolvendo uma mosca, lembram?). É como se os romances russos tivessem tomado conta dos roteiros.


Oferecimento | The Leftovers na HBO GO


Isso interfere diretamente com o andamento da temporada, claro, porque os temas também mudam um pouco – mais do que nunca, as personagens  se tornam o verdadeiro plot da série, e não, sabe, o plot em si. Ao invés de acompanharmos que coisas vão acontecer com aquelas pessoas (tipo acontece em Friends), acompanhamos como aquelas pessoas reagem às coisas que acontecem (como em Veep ou BoJack Horseman). É uma distinção pequena, que pode parecer puramente teórica, mas ela determina que os eventos vão girar ao redor das personagens, e não o contrário. Séries como Friends e Seinfeld, por exemplo, transformavam pequenos momentos da vida em grandes aventuras (encontros, queda de luz, almoços comemorativos, encontrar um lugar para estacionar etc), mas hoje em dia a questão parece ser que esses pequenos momentos são triviais, e é justamente isso que os torna engraçados (Veep faz isso com frequência) ou opressores (diversas das séries dramáticas fazem da rotina uma prisão). Interessam menos os encontros, quedas de luz, almoços comemorativos e jornadas para encontrar um lugar para estacionar do que como as personagens reagem a essas situações.

true detective

Acho que tem bastante relação com a abordagem mais “cinematográfica” que tem tomado conta das séries, bem como a nossa evolução enquanto espectadores: o caso da semana ou um humorístico inspirado de vinte e dois minutos por semana deixaram de ser o suficiente; é preciso oferecer ao público algo mais complexo, com mais camadas para descascar e que possibilite maior profundidade dramática/mais referências (Community cai como uma luva neste caso). Não que as pessoas tenham parado de gostar de diversão pura e descompromissada, mas é que até mesmo séries leves aderiram a essa filosofia contida, procurando estabelecer um universo mais “real”, menos deslumbrado consigo mesmo – em séries como The Office e Parks & Recreations, por exemplo, muitas vezes as excentricidades são obervadas e reconhecidas pelas personagens, ao passo que How I Met Your Mother coloca dois adultos duelando com espadas sem problema nenhum. Parece uma tentativa de mostrar ao espectador que a série vai além do “exagero” encontrado até então nas obras televisivas do gênero (seja comédia, drama, policial etc), que essa diminuída de volume, essa busca por uma certa introspecção, representa um passo em direção às produções mais maduras e complexas com as quais quem costuma ser associado é o cinema, e não a televisão.

O resultado são essas obras pausadas, cuja história se desenvolve lentamente e que fogem muito daquele desespero que era ter que esperar uma semana para descobrir o que aconteceria em LOST ou 24 ou alguma outra série viciante. Existem exceções, claro, mas tudo indica que essa tendência não vai embora tão cedo. E é uma ótima abordagem, só que exige bastante sensibilidade e visão para não descambar para algo monótono ou muito artificial-  até porque não é um filme de duas horas, e sim uma temporada inteira com nove ou dez horas no mínimo. Ou seja, eventualmente acontece de alguns realizadores confundirem chatice com profundidade. Entretanto, os bons resultados são inegáveis e é algo que tem trazido muita coisa muito interessante para a televisão, já que o número de séries que se destacam com esse tipo de abordagem vem crescendo (Breaking Bad, Orange is the New Black, House of Cards, Mad Men, True Detective, Narcos e por aí vai). Só talvez estejam mais para uma degustação do que para um buffet livre.

15 respostas para “A nova abordagem das séries”

  1. Adolfo Brás Sunderhus Filho disse:

    Minha esposa está vendo pela primeira fez Fringe (enquanto eu estou revendo) e estava me perguntando exatamente essas questões, de como seriados que são inclusive “aventurescos” não tem mais aquela pressão toda que tinha há alguns anos atrás, em que você terminava o episódio e ficava desesperado para que a semana passasse logo para ver o episódio seguinte.

  2. Eduardo disse:

    É preciso força de vontade pra alguns episódios de Breaking Bad? Só eu vi essa série em poucos dias pois não conseguia sair de frente da TV?

  3. Ramon Ewbank disse:

    Também me pergunto às vezes. E isso hoje só acontece em Season Finale.

  4. Felipe Ferreira Silva disse:

    Sim. É preciso força de vontade pra alguns episódios de Breaking Bad!

  5. Eduardo disse:

    Olha, pra mim isso é a minoria. Todo mundo que conheço e viu Breaking Bad sempre fala da série com bastante entusiasmo, que é uma série de tirar o fôlego de etc. Até por isso eu decidi assistir. Fiquei até surpreso pois minha irmã caçula, que vê apenas Friends, decidiu assistir e viu até mais rápido do que eu, e agora está revendo a série inteira. Isso porque, como disse, ela só vê Friends e não tem paciência pra mais nada. Eu não acho que Breaking Bad exija força de vontade, acho que os espectadores que estão mal acostumados, isso sim.

  6. Felipe Ferreira Silva disse:

    Cara entenda que nem todos os 62 episódios de BrBa são de tirar o fôlego. A série é top, ninguém ta discutindo isso, mas veja o episódio FLY e diga se ele é de tirar o fôlego. A questão são alguns episódios, principalmente na primeira temporada e não a série em si. A série é fantástica e funciona muito bem como um todo.

  7. Allison Noronha disse:

    Vcs precisam assistir Scream Queens !!!

  8. Higor Oliveira disse:

    Tirando um ou outro episódio da S02, a série flui muito bem em todas as outras temporadas. Acho que “força de vontade” foi um termo forçado, tratando-se de Breaking Bad.

  9. osman Fergusson disse:

    já não se fazem mais séries com o ritmo de True Blood, Lost, Prison Break, onde cada final de episódio é desesperador. com tanta concorrência, nem consigo assistir 1/4 das série de que gostaria em 1 ano.
    será que as pessoas estão ficando mais pacientes? porque na época em que eu comecei, o Piloto era tudo. ele carregava o peso da decisão de acompanhar ou não a temporada

  10. Elpídio Maia disse:

    Estou assistindo Mad Men e expressa justamente isso, alguns episódios dão a sensação de que nada de relevante ou emocionante ocorreu no episódio, porém, talvez aí esteja o pulo do gato para o próximo episódio! Talvez seja uma opinião carregada de boa vontade visto que o drama tem conteúdo excelente… Agora season finale com estas práticas? Aí realmente… Como exemplos, péssimas lembranças de Homeland e Lie To Me…

  11. Jesse Coronado disse:

    Concordo com algumas coisas, mas nao sei porque as pessoas tem essa cisma de que o episodio final da temporada tem que ser espetacular. Pra mim se a temporada foi excelente, o episodio final apenas conclui algumas coisinhas, como foi o caso da 4 temporada de Homeland, ou ate mesmo de Game of thrones. Se vc assiste essa serie, deve ter percebido que em GOT o episodio onde pega fogo e sempre o penultimo, e o ultimo episodio, apenas conclui toda a historia e deixa um gancho pra proxima temporada. Agora no caso de Mad Men, realmente uma serie para se degustar aos poucos, mas todo o episodio me surpreendo, em como o roteiro e bem escrito.

  12. Elpídio Maia disse:

    Sim Jesse nem toda season finale precisa ser necessariamente ecpliddivsu, porém creio que os perfis devem ser definidos nesse sentido, Homeland desde as temporadas anteriores mantinha essa linha já Games of Thrones e Mad Man nunca suscitaram ansiedade alguma em seus episódios finais… Agora acredito que séries com menos de vinte capítulos têm a necessidade clara de se expor mais para que os roteiros sejam interessantes e bem amarrados do início ao fim, afinal séries com capítulos acima de vinte eu só respeito comédias o resto é encher linguiça… Abraço!

  13. Douglas disse:

    Um seriado que sempre faz o engate pra vc assistir outro atualmente é Scandal,que alias é um seriado mediano e com muita boa vontade rs.Outra mudança é que muitas pessoas seja pelo Netflix ou nao estão preferindo assitir a temporada completa de uma vez,alias todo o clima de Mr Robot já estava em Rubicon seriado da AMC com um tema muito mais aprofundado e pesquisado que Homeland.

  14. kaique disse:

    isso acontece muito, a ultima serie que ficava super empolgado para o próximo episodio era sons of anarchy.

  15. Gianluca Sousa disse:

    É interessante observar como a ‘formulação’ das séries mudou. Talvez não seja nem porque tenham mudado, já que desde da década passada tínhamos séries como Six Feet Under e The Sopranos, mas o público pode ter ficado mais exigente ao descobrir o que antes estava ‘escondido’ da grande audiência – só não sei dizer se a maior parte da população assiste produções mais complexas ou ainda aquelas que focam no entretenimento puro.
    É nítido como as produções mais novas focam na história do personagem a longo prazo, como um quebra cabeças, e de uma forma mais livre, assimétrica, com cada série imprimindo (ou tentando imprimir) sua própria singularidade. Talvez por uma própria liberdade de produção. E essas personalidades que as séries tanto podem aproximar quanto afastar um determinado grupo de vê-la, veja bem.
    Mas como hoje em dia dificilmente uma pessoa vive num único nicho, as possibilidades são imensas.
    Esse da muito pano pra manga, melhor parar por aqui haha.
    Abraços

Deixe uma resposta

TOP.05
ss