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Por: André Costa

Crítica | Perdido em Marte, de Riddley Scott

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Quando uma inesperada tempestade de areia puxa o tapete de uma missão tripulada em Marte, a equipe precisa sair às pressas – mas, no processo, deixa o astronauta Mark Watney para trás. Agora, sozinho em um ambiente inóspito, ele precisa dar um jeito de sobreviver e contatar a NASA para tentar uma missão de resgate. Esqueceram de Mim espacial.

O lançamento de The Martian (Perdido em Marte, porque as distribuidoras brasileiras não acreditam na inteligência das pessoas) provocou os tradicionais artigos do tipo “a ciência do filme está correta?” – algo que aconteceu com Interstellar também -, mas, nesse caso, os artigos são (ainda mais) irrelevantes: puxando sempre para o lado do humor e da descontração, a película surpreende ao construir um universo desprovido da carga dramática que a situação teria. O resultado é um blockbuster que, apesar de sofrer com algumas tempestades de areia conceituais, se mostra bastante divertido e envolvente.

Até porque é menos um filme sobre sobrevivência em Marte e mais um filme sobre Mark Watney, o astronauta inteligente, descolado e empolgado que, se existisse, seria o presidente das redes sociais. Encarando cada situação como uma oportunidade para uma brincadeirinha (“vão me lançar em um conversível“) ou frase despojada (“i’m gonna science the shit out of this“), a personagem preenche a tela com otimismo suficiente para que o espectador se envolva na história (e os diálogos sozinhos são melhores do que muito especial de stand up comedy – na maior parte do tempo). Watney faz poses diferentes para fotos, fica entusiasmado com pequenas vitórias e fatos (pirata espacial, por exemplo), tira sarro de si mesmo, enfim, basicamente age como uma Jennifer Lawrence no espaço, cativando o público com a sua filosofia tranquila. Ao mesmo tempo, pequenos momentos – como a odisseia para extrair o metal ou a emoção ao receber determinada mensagem – ajudam a humanizar um pouco a personagem, ainda que The Martian esteja a anos-luz de distância de uma profundidade psicológica.

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E isso tudo só é possível porque Matt Damon consegue segurar (boa parte do) filme sozinho, metralhando carisma para tornar o astronauta uma figura magnética e confiante sem soar arrogante. A presença do ator em cena jamais é cansativa, e Damon tem as manhas para evitar a monotonia da situação (as entonações dele são sempre firmes, claras e movem a história para a frente, e o bom timing cômico de Damon torna tudo mais divertido). Aliás, o elenco todo se mostra bastante competente, aproveitando a boa química para criar a proximidade entre as personagens que o roteiro não se esforça muito – a importância de Watney para o resto da tripulação é mais palpável pelo empenho que Chiwetel Ejiofor coloca em Vincent e pela sensibilidade e olhar triste que a Jessica Chastain usa para compor Melissa.

Já Riddley Scott parece tão deslumbrando pelo cenário quanto qualquer pessoa que pisasse em outro planeta, fotografando o filme com planos abertos que, além de mostrarem a paisagem peculiar, reforçam o isolamento do protagonista. Além disso, determinados momentos mostram que a atmosfera marciana inspirou o diretor, como na travessia que Watney precisa fazer ou na montagem paralela da Pathfinder, enquanto o 3D alterna entre bom ou ruim graças à bipolaridade da profundidade de campo usada por Scott, que alterna entre mais comprida e mais curta (mas The Martian aproveita alguns elementos com propriedade para tornar a experiência 3D melhor – as imagens de monitores, com os dados flutuando à frente do quadro, são um bom exemplo).

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O problema da produção é que, a partir de determinado momento, ela começa a ficar previsível: um problema é apresentado através de uma narração em off, resolvido logo a seguir e esquecido; a estrutura dos diálogos de Watney se limita a reconhecer alguma situação complexa/científica e terminar a frase com uma piadinha “inesperada”; quando algo é solucionado, outro algo logo toma seu lugar; e assim por diante. Isso faz com que o humor oscile e tira um pouco da força da narrativa, já que tudo parece ser um pouco sem consequências. Certas soluções surgem de forma muito repentina (o envolvimento de outro país), certas cenas são ridiculamente óbvias (uma determinada explosão) e  a abordagem escolhida torna o filme bastante estéril de tensão, já que nada é realmente um problema e o protagonista faz piadinhas mesmo nas situações mais absurdamente perigosas (vide a do Homem de Ferro).

Ainda assim, o saldo é positivo, ainda mais se levarmos em consideração a montagem dinâmica e a trilha disco, que colabora com o universo descontraído proposto. E é ótimo ver um blockbuster que consiga unir bem uma trama diferente, humor e aventura na dose certa, sem se levar muito a sério mesmo sendo um filme sobre ciência e tecnologia e tal. Em um ano repleto de super-heróis, grandes franquias e adaptações de best-sellers, quem acabou se destacando foi um botânico piadista.

4star

4 respostas para “Crítica | Perdido em Marte, de Riddley Scott”

  1. Leonardo Oliveira disse:

    “um filme sobre ciência e tecnologia e tal” KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKk porra kkkkkk essa foi foda.
    o filme é bom mesmo

  2. Marcelo Barros Leal disse:

    “O problema da produção é que, a partir de determinado momento, ela
    começa a ficar previsível: um problema é apresentado através de uma
    narração em off, resolvido logo a seguir e esquecido; a estrutura dos
    diálogos de Watney se limita a reconhecer alguma situação
    complexa/científica e terminar a frase com uma piadinha “inesperada”;
    quando algo é solucionado, outro algo logo toma seu lugar; e assim por
    diante. Isso faz com que o humor oscile e tira um pouco da força da
    narrativa, já que tudo parece ser um pouco sem consequências. Certas
    soluções surgem de forma muito repentina (o envolvimento de outro país),
    certas cenas são ridiculamente óbvias (uma determinada explosão) e a
    abordagem escolhida torna o filme bastante estéril de tensão, já que
    nada é realmente um problema e o protagonista faz piadinhas mesmo nas
    situações mais absurdamente perigosas (vide a do Homem de Ferro).”

    Esse parágrafo explica bem porque não gostei do filme. Os problemas mencionados acabaram com a minha imersão na história.

  3. Felipe disse:

    O filme é baseado em um livro que em português ganhou o título de “perdido em marte”. Assim, o nome do filme.

    Recomendo que leiam o livro, é excelente e nada óbvio.

  4. Vivian disse:

    “Em um ano repleto de super-heróis, grandes franquias e adaptações de best-sellers, quem acabou se destacando foi um botânico piadista.”
    Lembrando que esse filme tb é uma adaptação de um best-seller na lista do New York Times a meses ;)

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