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Por: André Costa

Crítica | The Leftovers 2×08: International Assassin

international assassin

[com spoilers do episódio 2×08] Convenhamos, não é exatamente uma novidade ilustrar um estado de consciência de “o-protagonista-morreu-mas-ainda-não-morreu-totalment- calma-que-vamos-dar-um-jeito-de-levar-ele-de-volta” como se fosse o mundo real, respeitando as mesmas leis e comportamentos que a realidade pré-veneno. Assim, foi com um suspiro de desconfiança que recebi o início deste International Assassin – apenas para me deixar levar pela esperteza do episódio, que consegue construir uma trama forte, envolvente e que vai se desvendando aos poucos.

Isso porque International Assassin segue uma estrutura que mantém o espectador interessado no que pode vir mais à frente. Seja nos mistérios da trama em si (o sujeito do hotel que tenta matar Kevin, o alarme de incêndio constante, a televisão que ganha vida sozinha) ou nas alusões à mitologia da série (temos novamente os pássaros que lembram da caixa de Erika e a água), o episódio coloca os pés em cima da mesa e relaxa na hora de dar pistas sobre o que está acontecendo – não há um longo monólogo expositivo explicando tudo, e sim situações que indicam ao público para onde o impiedoso dedo do destino metafísico está apontando (a conversa com o velho-e-sábio-místico-genérico, a descoberta da dublê e da identidade de Neil, a complacência da garotinha, o aviso do sujeito com a corda na mão). O estranhamento inicial nunca é desfeito, porque aquele lugar nunca é revelado em sua totalidade (e a trilha, propositalmente exagerada, remetendo a algo bem dramático e digno de ópera, reforça essa sensação de pesadelo).

leftoversassassin

Aliás, uma das grandes sacadas é que não dá para saber se aquilo está acontecendo apenas na cabeça do Kevin ou se há mesmo algum plano de existência onde forças do bem e do mal lutam dentro de um hotel asséptico (e se algum dos sumidos de 14 de outubro tivesse aparecido ali era nó no cérebro). Há espaço para interpretação e diferentes leituras. O importante para a trama é a jornada que o ex-policial precisa empreender para se livrar de Patti, e isso não só acontece em um crescendo como também atira no episódio alguns momentos incrivelmente inspirados: o alarme de incêndio que toca quando o pai de Kevin chama no Facetime sobrenatural (como se o fogo de um lado estivesse influenciando no outro); colocar Wayne, que já cuidava dos outros, como um segurança (e a frase “acho que da última vez que nos vimos eu também estava sentado em um vaso” é brilhante); ilustrar a mudança do velho-e-sábio-místico-genérico apenas utilizando o pássaro; e por aí vai. Tudo acaba soando incrivelmente familiar, e, mesmo não entendendo como o processo que vai expatriar Kevin desse limbo funciona em termos físicos e químicos, entendemos que ele precisa realizar aquelas ações para sair dali.

Há um pouco de exagero e encheção de linguiça na cena do interrogatório, é verdade, e o momento no poço também acaba se estendendo desnecessariamente tal qual uma canção de rock progressivo (e, francamente, sinto que Laurie e Tommy foram simplesmente abandonados pela série, sendo que a temporada já está perto do final).  Mas, em determinada cena, alguém diz que matar uma criança vai mudar o protagnista para sempre – e o final, com o ex-policial e ex-vivo se tornando também um ex-morto ao sair de um buraco na terra, quase como se ele estivesse renascendo, sugere que esse Kevin que ressurgiu das cinzas da litosfera está levando novos dramas com ele na bagagem.

4star

15 respostas para “Crítica | The Leftovers 2×08: International Assassin”

  1. Maurício disse:

    Eu sou um dos que não se empolgam tanto com essa série, mas esse foi provavelmente o melhor episódio. A razão disso é que ao contrário do resto da série, esse episódio conseguiu ser interessante por si só. Ele nasceu do mistério “Kevin morreu?” e conseguiu fechar essa questão ao final. Não só isso. Passeou através da mitologia da série e praticamente respondeu algumas questões, como o grande mistério dos RC, o de que eles só queriam mesmo encher o saco.

    Um dos méritos dessa temporada tem sido a desilusão. Já aprendemos que o Santo Wayne era uma farsa e que os RC são só um culto idiota. A 1a temporada já foi toda pelo ralo. Parabéns a todos os trouxas, incluindo a Laurie. Perdendo a esperança de que haja sentido por trás disso tudo, podemos nos focar nos personagens. Há quem os ache interessantes. Também há quem goste dessas analogias com a Bíblia e outras histórias mitológicas.

    Algo me diz que ao final dessa série, Damon Lindelof vai conseguir superar a ira que o final de Lost deixou em muitos. Pelo menos nos que aguentarem assistir até o final. Na verdade acho que os verdadeiros “Leftovers” somos nós, o público. Estou tão interessado na renovação dessa série quanto no sumiço do Tom, da Evie e nas japonesas que Wayne comeu na 1a temporada.

  2. Vini disse:

    “e a trilha, propositalmente exagerada, remetendo a algo bem dramático e digno de ópera, reforça essa sensação de pesadelo”

    “o momento no poço também acaba se estendendo desnecessariamente tal qual uma canção de rock progressivo”

    O cara nem se deu ao trabalho de entender o significado da ópera no contexto do episódio… E essa última frase é tão mal escrita que chega doeu.

    Ah, e 4 estrelas pro melhor episódio da série até agora, talvez do ano todo em qualquer série…

    Com todo o respeito, alguém traga o Bruno de volta (ou qualquer outro!) pras reviews de Leftovers, por favor…

  3. cyberknot disse:

    Excelente episódio, me lembrou um pouco Twilight Zone.

  4. Maria disse:

    Amigo, o Bruno não vai voltar

  5. leo liçarassa disse:

    E tipo a cena do poço foi brilhante, umas das melhores cenas da série.

  6. Vini disse:

    Não custa pedir… E outra, eu falei Bruno ou qualquer outro…

  7. Vini disse:

    Pois é!!!!

  8. Cada autor tem seu estilo. Bruno já falou de alguns episódios da temporada, a ideia aqui é termos uma pluralidade de opiniões e estilos. Tem espaço pra todos.

  9. leo liçarassa disse:

    Eu recomendo vc ler as review do serie maniacos, são perfeitas, se aprofundam em todos os detalhes dos episódios.

  10. Vini disse:

    Eu leio, são boas mesmo, mas não gosto muito do estilo do cara, muito emotivo, exagerado às vezes…

  11. Vini disse:

    “Tem espaço para todos.”

    Vão lá e apagam meu comentário…

    Tsc, tsc, tsc…

  12. leo liçarassa disse:

    Eu não gosto quando ele dá exemplos da vida dele nas reviews , mas quando ele se aprofunda nas questões da série, tipo do que aquilo pode significar dando várias teorias, eu gosto bastante.

  13. Barbara disse:

    Alguém mais notou que o cara com os balões diz que são pra “Mary Jamison”? Será que quis dizer que ela está “morta” e não vai mais voltar daquele estado?

  14. Luiz Felipe Matos disse:

    Ela também aparece para receber os balões quando Kevin segue o rapaz dos balões.

  15. laertlima disse:

    Realmente esse capítulo foi muito acima da média dos demais. Um complemento perfeito para o final do sétimo. Parabéns pela análise.

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