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Por: Bruno Carvalho

The Jinx, a vida e as mortes de Robert Durst

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A última vez que lembro de um produto televisivo ter mexido tanto comigo foi com o final de LOST em 2010. Também pudera, foram seis anos inteiros investidos em uma série intensa e emocionante que marcou uma era (não vamos entrar nesse mérito agora, né?). Mas até hoje. Com um enorme atraso, corrigi o erro de não ter assistido ao documentário da HBO The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst. Não foram seis anos, mas foram seis episódios vistos em sequência que me impactaram por tudo o que o cineasta Andrew Jarecki teve a coragem, a sorte e o planejamento para executar. Não me recordo de ter visto nada remotamente parecido na TV recente que tenha atingido um resultado tão pungente e surpreendente.

Procurei evitar spoilers sobre como tudo aconteceu na tela, mas sabia quais foram algumas das consequências. Discutí-las aqui é inevitável e, portanto, se você ainda não assistiu a essa docussérie, assista. Vá por mim, assista. Não importa o gênero, não importa se você gosta de documentários ou não. Está na HBO Go. Assista. Spoilers daqui em diante.

* * *

A Vida e Mortes de Robert Durst

Um dos entrevistados da produção de Andrew Jalecki diz em certo ponto que “Robert Durst é o sujeito mais azarado do mundo” e ele não poderia estar mais errado. O magnata, por tudo que viveu, é um dos sujeitos mais sortudos do mundo. Cometeu pelo menos três homicídios hediondos e desleixados, um deles esquartejando uma das vítimas, além de vários outros crimes menores, e jamais fora condenado. E ainda assim com praticamente todas as provas apontando pra ele, por uma série de incompetências de delegados, promotores e juris, ele segue até hoje como um homem sem condenação alguma no fim de sua vida.

The Jinx, como disse acima, envolveu muita pesquisa, muita paciência, coragem, mas inevitavelmente muita sorte para o seu realizador e equipe. Seu personagem é igualmente complexo, interessante, imprevisível e, ao mesmo tempo, relapso. Primeiro por ter aceitado participar da atração, mesmo aconselhado do contrário por seu time jurídico, e segundo por ter literalmente se incriminado para o mundo inteiro, depois que o documentarista o confrontou com uma prova descoberta pela própria produção enquanto gravava. Os últimos segundos de The Jinx são assustadores, tenebrosos e reveladores, pois captam ali de forma rara e inusitada a verdade nua de um monstro em um momento em que ele processava, em sua lógica, o que acabara de acontecer.

jinx2

Aliás, é invejável a montagem desta série que, podendo facilmente se enveredar por mostrar todos os eventos em ordem cronológica, optou por fazer uma costura das absurdas histórias e crimes com três grandes exemplos de “pista e recompensa” para chegar num apoteótico e impressionante final, onde o seu principal entrevistado, depois de ter literalmente enganado a polícia e o judiciário de três Estados norte-americanos – dois deles com a pena capital – simplesmente confessa ter cometido todos os assassinatos sozinho no banheiro enquanto o microfone estava ligado.

Queria aqui ter discutido todos os diversos elementos dessa história – os traumas de infância, as provas circunstanciais, a vaidade (talvez seu maior pecado), a relação entrevistador/entrevistado, os dilemas e as questões éticas e morais envolvendo a produção – mas isso já foi objeto de milhares de palavras quando os fatos ainda estavam “quentes”. Deveria ter ouvido vocês à época e assistido. Para quem avançou o aviso de spoiler e seguiu lendo, fico certo de que ainda assim The Jinx será uma surpresa que trará uma mistura de emoções. O caso de Robert Durst, inclusive, ainda não acabou.

Robert Hoje

Ele hoje está preso aguardando um julgamento que ocorrerá em janeiro de 2016 por uma acusação de violação federal de porte ilegal de armas no estado da Louisiana, que ocorreu em março deste ano. Após resolvido este caso, ele seguirá para a California para provavelmente ser julgado. Seu advogado alega que Robert terá “um julgamento justo“, que o programa foi “criativamente editado”  e que seu cliente foi “enganado pelos documentaristas que só estavam em busca de um Emmy” (e ganharam).

Ironicamente, se condenado pelo porte de armas em New Orleans, ele pode pegar 10 anos de prisão.

Durst continua alegando inocência em todas as acusações contra ele.

5 respostas para “The Jinx, a vida e as mortes de Robert Durst”

  1. Guilherme disse:

    (Cuidado quem for ler este comentário, tem spoilers) É tudo tão incrível nessa minissérie que se não fosse realidade, ia parecer forçação de barra ou então que exageraram na licença poética. Sim, inocentaram um inocente e se não fosse uma produção televisiva, ele estava nas ruas com pelo menos dois assassinados nas costas, que é o que sabemos (ou não). Está fácil na lista das melhores produções da história da HBO.

  2. ‎Michael disse:

    Bruno tomei spoiler da confissão no ultimo episódio, ainda vale a pena assistir?
    Sabe a previsão de quando a HBO Brasil pretende transmitir aqui?

  3. Vale assistir sim. A HBO já exibiu The Jinx e agora reprisa na HBO Signature. Tem todos os horários no site. http://www.hbomax.tv/sinopsis.aspx?prog=TTL601733&ser=749

    Eu vi os 4 primeiros no Now e depois os 2 últimos na HBO Go, que já tem todos.

  4. Ana Carolina Nicolau disse:

    The Jinx foi uma das melhores coisas que assisti esse ano. Acho que a discussão sobre ética em documentários que despertou na época foi também de onde sairam alguns dos melhores artigos que li esse ano. Jarecki é um diretor muito interessante. Você viu Capturing The Friedmans, Bruno?

  5. Diogo Stelmach disse:

    Felizmente Robert Durst foi condenado nesta ultima quarta (03/01/16) à 7 anos de prisão pelo porte ilegal de arma!!!

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