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Por: André Costa

Crítica | Vinyl 1×07: The King and I

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[com spoilers do episódio 1×07] Tudo bem que Vinyl não tem muita piedade de seu protagonista, mas este The King and I é uma bigornada furiosa na cara de Richie Finestra. Quase que totalmente centrado na relação entre Richie e Zak, o episódio parece indicar uma jornada de reconciliação de ambos, mas acaba sendo um testemunho à capacidade que o produtor tem de afundar na lama do fracasso.

The King and I começa ilustrando bem o quanto Richie quer assumir as rédes de si mesmo após o episódio anterior, O Sexto Sentido: a primeira cena mostra ele em um contra-plongée (que passa uma impressão de grandiosidade – o enquadramento é repetido algumas vezes ao longo do episódio) lendo um livro de auto ajuda, e o rápido travelling de aproximação/afastamento mostra que a história será um mergulho no mundo do produtor. Logo ele decide cortar gastos supérfluos na American Records, mais um indicativo da sobriedade de espírito – incluindo aí o avião, símbolo dos dias de fartura (e, provavalmente, putaria).

Ao longo da viagem, Richie se mantém longe dos vícios enquanto Zak, aproveitando a distância da família, abraça os estereótipos do rock sem piedade. A química entre os dois funciona muito bem, e Ray Romano injeta energia na trama com trejeitos agitados e um ótimo timing cômico (auxiliado pelos diálogos, claro: “já estamos na parte da doação de órgãos“, “se Deus tivesse feito peitos melhores teria guardado para ele“). De certa forma, essa possibilidade de Zak extravasar, viver a “vida do rock”, é o que vai curando a relação, pois ele finalmente assume (ainda que temporariamente) uma posição igual à de Richie – que inclusive incentiva o amigo sem  topete a participar do lado mais artístico da companhia. Mas a conversa vergonhosa com o Coronel, somada ao papo com o David Bowie no episódio anterior, mostra que quem nasceu para ser Gotham nunca chega a The Dark Knight.

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Enquanto isso, The King and I vai cuidadosamente construindo a sobriedade de seu protagonista em ações discretas: a preocupação com o livro quando a comissária de bordo coloca a garrafa em cima, a consciência para não apostar mais no cassino e até mesmo esnobar tubinhos cheios de pó branco da felicidade. São detalhes pequenos, mas que ganham massa crítica para mostrar ao espectador que Richie está em um outro caminho. Ele não passa incólume pelas tentações, só que consegue sempre tomar a decisão “correta”, e essa luta pelo equilíbrio torna a jornada do produtor ainda mais envolvente (e sua necessidade de isolamento para não ceder ao mundo ao redor é simbolizada em uma linda cena de mergulho).

O episódio retorna a Nova York por alguns breves momentos para acompanhar Clark passando de ano na escola da autoconfiança – mas, ainda que interessante, a trama sacode um pouco o ritmo. Entretanto, The King and I mostra que o cuidado com os detalhes vale para os dois lados, e a constante aparição do número 18 se solidifica na cabeça do espectador de forma orgânica: através dele, e apesar de ser Zak quem está vendo unicórnios, Richie coloca tudo a perder no jogo, abandonando a racionalidade que havia demonstrado em prol de uma coincidência. Há um gatilho na cena em que percebe que Elvis não vai fazer parte da sua turminha, deixando a American Records na mesma situação complicada, e mais uma vez a alternativa de arriscar um tudo ou nada se torna mais atraente do que algo a longo prazo. Richie experimentou fazer as coisas do jeito certo e não funcionou.

Mas o mais chocante é colocar a culpa em Zak, seu amigo, quem ele mesmo disse que “ajudou a construir a American Records“. Antes, Richie saía metralhando cagadas e deixava a culpa cair em cima dele, porque erros eram parte do processo de mudança pessoal/profissional que se propôs a fazer. Fugir da responsabilidade adiciona uma certa desistência à personagem, que, ao esconder sua culpa, finalmente encara de frente sua própria visão corrompida do mundo.

Desistência essa que The King and I ilustra de forma tocante ao fazer o protagonista se render ao vício, ao mostrar que ele não se importa mais com marcas de garrafa no livro e ao encerrar com uma brilhante rima visual: assim como no plano inicial, há um travelling de aproximação e um de afastamento – mas desta vez Richie não está em contra-plongée, e sim encurralado no canto de um avião onde precisa passar as próximas seis horas sem ter como fugir do que vez. Descobriu que suas atitudes sóbrias causam tanto estrago quanto suas atitudes sob influência de drogas, e, nesse tanto faz, decidiu voltar a ser o que era. O melhor episódio de uma temporada cheia de episódios incríveis.

5stars

2 respostas para “Crítica | Vinyl 1×07: The King and I”

  1. Heloisa Martins disse:

    Fiquei com muito ódio de Richie Finestra! Achei que ele estava tomando jeito, aí ele faz merda e põe na conta do outro!!! Que raiva!!! Excelente série, excelente trabalho de Bobby Cannavale, que acompanho desde os tempos de “Third Watch”.

  2. André Nique Costa disse:

    Eu fui conhecer ele só agora em Vinyl, e já to adorando, haha.

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