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Por: André Costa

Crítica | Vinyl 1×08: E. A. B.

vinyl EAB HBO

[com spoilers do episódio 1×08] Sem perder o gostinho amargo do Empire Estate Bulding de egoísmo que Richie construiu em The King and I, E. A .B. tira um pouco o foco do protagonista e se expande para as outras tramas da temporada. Sacrifica um pouco de ritmo no processo, já que é muita coisa para dar conta, mas consegue manter a energia alucinante trazendo para os holofotes situações determinantes da temporada.

O problema do ritmo surge na falta de fluidez com que as histórias se alternam, criando aquela sensação conhecida de “ah não, não quero ver isso agora, volta para a outra” – embora as cenas acabem conseguindo jogar o anzol e pescar o espectador. Devon, por exemplo, surge quase na metade do episódio, e após tanto tempo longe a aparição dela não escapa sem um certo estranhamento, além da conversa entre Corso e Richie ter sido enlatada sem muita preocupação ali no meio para permitir o andamento da coisa toda.

São problemas menores, entretanto. No resto, E. B. A. consegue usar bem os elementos apresentados até aqui para criar cenas que não apenas dão continuidade às tramas, mas também informam muito sobre a situação de suas personagens. Por exemplo: conhecemos Galasso, então a ideia de pegar empréstimo com ele ilustra como a American Records está quase beijando o chão (além de adicionar um elemento perigoso à história); a mini aula de guitarra que Lester dá aos Nasty Bits empurra a banda ao mesmo tempo em que deixa o espectador saber como o sujeito sente falta daquilo; uma simples chamada de atenção que Devon dá à Teresa sugere o quanto ela quer a liberdade que o seu papel de mãe não permite. Vinyl vem destilando informações sobre suas personagens sem precisar interromper o ritmo alucinante para isso (algumas séries caem no abismo da chatice disfarçada de profundidade), o que torna aquele universo envolvente como uma pizza fria em uma madrugada de ressaca.

Vinyl EAB american records

Aliás, qualquer cena envolvendo os Nasty Bits apresenta doses maciças de Red Bull televisivo, e eu pessoalmente poderia assistir a uma série só deles. A iminência do estouro do punk rock deixa no ar a expectativa do sucesso dessa turminha. Assim, acompanhar o processo de criação da banda, da fita demo até a formação dos integrantes, das primeiras gravações até a criação das músicas, é algo magnético – o que passa também pela imprevisibilidade de saber o resultado de unir Lester a um punk londrino, com Richie bufando no cangote dos dois.  A série está realmente investindo na construção da banda, mostrando os altos e baixos da cena musical antes mesmo deles se tornarem um sucesso (se é que vão se tornar). É completamente fascinante.

Junto a isso vêm os tradicionais diálogos vitoriosos (“Mussolinni com peitos“), que aqui polvilham acontecimentos capitais. E. A. B. deixa bem claro que a) a casa está para cair (Richie é preso, a gravadora não tem mais dinheiro, precisam pegar emprestado com um recebe RCP narrativo e ganha um pouco de vida durante o episódio. Conforme as coisas se desenrolam, o roteiro vai colocando as peças no lugar com perspicácia para que os episódios seguintes possam investir livres, leves e soltos no clímax: a participação visceral da Andrea na mudança de imagem surge com o crescimento dos Nasty Bits que surge com a necessidade da American Records de tirar um coelho da cartola que surge com a possibilidade de Devon amadurecer seu lado artístico que surge com a prisão de Richie. Como não ficar ansioso?

Vinyl EAB nasty bits

Ainda por cima, há uma produção cuidadosa, que se preocupa com a falta de  tempo das pessoas e faz de tudo para que a hora do espectador na frente da tela não seja em vão: reparem como a sala entulhada de coisas e fechada dos detetives ajuda com o clima claustrofóbico, algo que recebe o inspirado complemento de enquadramentos fechados, tortos (sensação de desconforto) e uma câmera subjetiva (reforça a ideia de estar sendo observado). E a fotografia simplesmente chuta bundas ao fazer Clark passar por diferentes cores na festa (azul e verde) antes de se adaptar à nova experiência (amarelo, como os outros), além de mergulhar a lascívia de Devon em um vermelho sedutor – tudo isso usando a iluminação de forma orgânica, sem destoar da atmosfera sólida da série. Lágrimas.

Representando a versatilidade musical da década em pouco tempo (há espaço para rock, punk, funk, soul, reggae, pop, até mesmo a capella), bem como a versatilidade de crenças (a impagável cena satanista), E. A. B. supera seus próprios defeitos para surgir com uma intensidade crescente. Leva a história por caminhos não previsíveis e deixa tudo aberto para os desfechos. Mostra John Lennon e Bob Marley. Começa com Here Comes the Sun de trilha. Somando tudo isso, e tal qual outros episódios, provocou uma reação que tem sido muito comum nesta temporada de Vinyl: quando os créditos começaram a surgir, peguei minha guitarra para tocar.

5stars

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