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Por: André Costa

Crítica | Netflix passa por média em Easy

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[contém spoilers de leve] Em um determinado momento de Art and Life, quinto episódio de Easy, o ilustrador Jacob usa uma leitura do seu novo trabalho para debater com uma jovem artista sobre a proximidade entre a vida e a arte. Em uma conversa posterior, a moça diz que foi a melhor discussão que ela já teve sobre o tema – e nós, espectadores, precisamos acreditar na palavra dela, pois o debate em si não foi mostrado. Isso de certa forma resume bem a nova empreitada do Netflix pelo mundo das dramédias: é interessante, mas fica com receio de sair do lugar seguro.

Easy é uma série composta de 8 episódios que parecem mais 8 curta-metragens diferentes sobre relacionamentos, embora existam pequenas conexões que tentam grampear tudo. O projeto é todo dirigido e escrito por Joe Swanberg (do ótimo Drinking Buddies e do errado Happy Christmas) e traz, entre as diferentes tramas, um casal tentando retomar o fogo de outros tempos, uma namorada tentando agradar a nova namorada, um marido escondendo coisas da esposa e assim por diante. Com exceção dos episódios Brewery Brothers e Hop Dreams, este sim interligados, o que se sucede são histórias separadas que funcionam sozinhas, eventualmente jogando na mistura uma ou outra personagem que já havia parecido. É como Easy fosse um recorte de algumas turmas de Chicago.

netflix the fucking study

Até porque a antologia soa menos como uma série e mais como diversas crônicas sobre relacionamentos. Há uma atmosfera relaxada, naturalista, descompromissada, enquanto uma galeria de personagens eclética, cuja única coisa em comum parece ser a necessidade de fumar maconha, circula por aí tendo lições de vida bem expositivas. Swanberg sabe criar a atmosfera certa como se fosse gelo seco, colocando de forma orgânica nas tramas todos esses objetivos nobres com os quais o público jovem consegue se identificar (abrir uma cervejaria ilegal, criar um trabalho de arte, buscar um trabalho em Los Angeles, ser um artista, aproveitar uma cidade nova etc). Todos os episódios começam bem, cadenciados, naquele clima que um narrador de futebol definiria como “é o momento onde os times estão se estudando”.

O problema é que continua até o final nesse clima de molhando os pés na água antes de entrar. Não há grandes conflitos dramáticos. Não há cenas engraçadas. Não há subtextos ou um estudo aprofundado de personagens. Não há um caminho interessante e diferente para a trama. Não há ideias novas apresentadas. Não há desfechos irônicos ou dolorosos ou emocionantes ou sensíveis ou reflexivos. Não há sutilezas. Swanberg simplesmente filma os acontecimentos, e sim, há um charme na linguagem utilizada, mas parece não querer chegar a lugar nenhum (ou, pior, chegar de qualquer jeito só para justificar a existência do episódio).

netflix brewery brothers

O retrato da situação que ele faz é tão ameno, tão aguado, que acaba não funcionando como crônica ou estudo de personagem ou comentário. E Easy também puxa seu próprio tapete ao utilizar situações binárias para levar as personagens a um canto ou outro – uma gravidez, por exemplo, ou uma confissão, automaticamente despertam o aprendizado que tal situação deve proporcionar (sempre sem grandes consequências ou preocupações, porque isso tiraria o estilo chillax da série). Além disso, a óbvia visão anticapitalista prejudica um pouco o aspecto natural das coisas (empregos normais, que não são relacionados à arte ou à fabricação de coragem líquida e alcoólica, são os vilões).

netflix art and life

E isso tudo incomoda ainda mais porque, no geral, Easy é uma série agradável de assistir. O elenco, com raríssimas exceções, é incrivelmente carismático e diverso, seja na atuação sensível de Gugu Mbatha-Raw ou na persona magnética de Marc Maron, e uma coisa que a abordagem consegue fazer é tornar o espectador parte daquele círculo de personagens. Além disso, a direção geralmente segura conduz a história com confiança, ainda que a história acabe não indo para lugar nenhum, e Swanberg eventualmente consegue criar algum momento mais poderoso ou com mais significado – como o ambíguo final do primeiro episódio ou a posição do casal na última cena da temporada. A preocupação em não extrapolar os acontecimentos cria uma intimidade com o espectador. Dá para se ver facilmente tomando cerveja com Matt e Jeff em uma garagem, conversando sobre o futuro, tendo ideias, criando e planejando.

E também dá para se ver indo embora alguns minutos depois por tédio. No final das contas, o grande trunfo de Easy é mesmo o formato e o que a Netflix/outros diretores (ou o próprio Swanberg) vão conseguir criar a partir disso no futuro.

3stars

Uma resposta para “Crítica | Netflix passa por média em Easy”

  1. Rafael Strelow Leite disse:

    Nao entendi a moral do 4.capítulo da 1. Temporada (Controlada): Afinal, a esposa dedicada era no fundo uma vadia na primeira oportunidade, cansada do seu relacionamento cotidiano? Ou o “roteiro” todo em si é pra ser amoral mesmo?

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