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Por: Bruno Carvalho

Ligado Entrevista: Michael Sheen fala sobre a 4ª temporada de Masters of Sex

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À convite da HBO, conversamos com Michael Sheen, ator que vive William Masters em Masters of Sex, série que retorna com episódios inéditos a partir de hoje, 30 de setembro, às 22h. Confira:

No primeiro episódio da nova temporada, parece que a Virginia e o Bill estão mais distanciados do que nunca, não tínhamos visto isso na temporada anterior.

É muito interessante interpretar este personagem e poder explorar como ele age quando está distante de Virginia. Principalmente no final da temporada anterior e no início desta, ele teve que aceitar que ela gosta dele, mas não o ama, e ainda por cima ela se casou com outro. Isso tudo foi difícil para ele. É tudo como uma grande peça de um quebra-cabeça para ele. Ele é um homem que enxerga a si mesmo como uma espécie de estranho no início da história e isso foi proposital. Eu queria interpretar alguém que fosse um mistério para si mesmo e foi uma espécie de história de detetive para ele. Ele era cego e começou a ver e nas três temporadas anteriores ele viveu à base de flashes. Ele tem momentos de insight por meio do trauma. Eu sempre pensei na série como uma peça teatral grega, em que um homem é castigado pelos deuses para aprender alguma coisa sobre a humanidade e a humildade, porque ele é muito arrogante. No início da história, ele é o craque em tudo que ele pesquisa, mas ele está perdido internamente.

Por um lado parece que ele perdeu tudo, que sua vida foi destruída, mas na verdade no fim da terceira temporada ele experimenta o início de uma nova liberdade. E no início da quarta temporada, nós vemos um homem que literalmente se libertou da vida que levava: ele anda de motel em motel, bebendo e agora passou a não fazer a barba. Eu penso nisso como os 40 dias dele no deserto e quando ele sai dessa fase ele não sabe mais quem é, o que quer da vida e o que o faz feliz. Mas a questão é que ele precisa passar algum tempo longe da Virginia. Desde o início ele vive em permanente transformação, mas era tudo por baixo da superfície, agora eu queria que ele fosse aprisionado literalmente em uma cela, mas livre. E é isso o que nós temos no fim da terceira temporada.

O melhor de tudo isso é ser capaz de contar a história sem a Virginia – e você não pode manter esses personagens longe um do outro por muito tempo, porque eles são o motor da história – mas é realmente útil conseguir afastá-los, porque eles começam a aprender coisas diferentes. Então, quando eles ficam juntos de novo o público se pergunta quem eles são agora, qual vai ser a dinâmica entre eles.

O que o Bill aprendeu sobre si mesmo ao longo dessas quatro temporadas, e o que você aprendeu sobre ele que te ajuda nesse processo?

No início da história ele era um homem assustado, parecia muito frio, na defensiva. Ele ficava assustado com o fato de o universo ser arbitrário e caótico. Quando você cresce em um ambiente familiar onde existe algum tipo de abuso, o universo não faz sentido e as crianças muitas vezes fazem escolhas sobre sua maneira de enxergar o mundo e a si mesmas para sobreviver essa situação, graças a Deus. Mas o problema é que quando eles se tornam adultos, o que os manteve vivos se volta contra eles e os torna muito infelizes. O desafio é saber se existe uma forma de superar isso.

O Bill sofreu abuso do pai quando era pequeno e aos 14 anos ouviu que não era bem-vindo em casa e teve que cair no mundo. Foi apavorante para ele, mas ele teve que se virar, isso lhe deu instinto de sobrevivência e ambição. Mas, isso também o impediu de confiar nas outras pessoas e o deixou com muito medo da vulnerabilidade, o que é um grande paradoxo. É uma ironia que ele tenha decidido estudar justamente a vulnerabilidade física e emocional das pessoas. Mas aí aparece essa mulher que mexe com alguma coisa dentro dele e desencadeia um processo que derruba tudo em volta, permitindo que ele ressurja das cinzas de algum modo. Então, o que ele está aprendendo é que você não pode controlar nada fora de si mesmo.

No início da história ele se acha um mestre das marionetes, acha que controla tudo, que manipula tudo, porque está com muito medo de que ele seja um monstro. Bill tem muito medo de crianças, porque acha que vai repetir esse ciclo. Ele teme fazer com os filhos o que o pai fez com ele, então ele se mantém afastado. E é claro que isso só impõe outro tipo de sofrimento a eles. É essa coisa edipiana, de quanto mais você foge do destino mais você vai em direção a ele. Então o Bill acaba fazendo com os filhos a mesma coisa que fizeram com ele, mas de outro jeito.

Aos poucos eu acho que ele vai se dando conta de que está cego e que, com certeza, tem um ponto cego; ele aprende a pedir ajuda e a deixar as coisas acontecerem. Houve um momento crucial para o personagem no início da terceira temporada, quando o filho dele nasceu. Tem uma hora em que ele está prestes a socar o rosto do filho, exatamente como o pai fazia com ele. Mas ele não vai adiante. Nesse momento ele fica abalado, percebe que a situação de perpetuar o ciclo surgiu, mas ele não fez aquilo e sai um peso de cima dele. Se fosse um filme, no dia seguinte ele teria acordado um homem diferente, mas como é uma série em episódios, não é assim que a vida funciona. As coisas acontecem aos poucos, por isso há todos esses grandes momentos para ele e você vê surgir essa nova versão dele, talvez uma versão mais autêntica.

Perguntam sempre a Lizzy Kaplan como é interpretar uma mulher forte na série, e ela observou que nunca se faz esse tipo de pergunta aos homens. Então eu quero perguntar: Como você se sente interpretando este papel masculino forte. Ou você não acha o Bill forte?

Eu não vejo as pessoas como fracas ou fortes, eu não penso nesses termos. Eu entendo isso no contexto do feminismo e dos papéis das mulheres e essas coisas, mas eu não reconheço essas características nos seres humanos. Ser humano é ser forte, é ser complexo. É complicado. É interessante, porque no início da série algumas pessoas podiam pensar que o Bill era um homem forte e eu vejo isso como a fraqueza dele. Ele tem uma força estilo Trump, se você achar que é mesmo uma força – muita gente acha. É um homem que não admite nenhuma fraqueza, nenhuma falha, que não pede desculpas. Ele supostamente está sempre no controle de tudo e mesmo assim é um homem assustado. Há outros momentos em que as pessoas podem interpretar como sendo fraquezas. Na primeira temporada, ele chora na frente da Virginia e está muito vulnerável, mas isso é tão estranho para ele que fecha os olhos para ela não ver. Nesse momento ele se sente muito fraco. Mas muita gente vai dizer: “Não, este é o primeiro sinal de força que é capaz de dar”. Depende do ponto de vista. Mas eu pessoalmente estou mais interessado na complexidade do ser humano do que nos seus pontos fortes ou fracos, até aí eu sou um homem branco falando essas coisas.

Caplan também falou sobre as cenas íntimas e disse que se sentiu à vontade. O fato de ser um homem europeu torna isso fácil para você?

Para ser sincero, eu nunca tive problemas com a nudez ou com cenas sexuais. A exposição de fazer cenas de vulnerabilidade emocional é muito maior. Isso sim é difícil. Desde a primeira semana nós tivemos muita sorte. A Lizzy e eu fizemos cenas de sexo e nos sentimos à vontade um com o outro, criamos um clima no estúdio que nos deixou à vontade e seguros, então deu tudo certo. Eu fico com pena das pessoas que chegam para trabalhar um dia e têm que fazer isso [risos]. Nesta temporada houve um episódio em que um casal tinha que entrar, tirar a roupa e manter relações sexuais durante dez minutos em cena enquanto nós os observávamos. Isso é difícil. Você está em um estúdio onde não conhece ninguém. É duro. Para nós é muito mais fácil, mas o mais complicado é a parte emocional.

Como você tem muita liberdade na comunicação com os autores para falar sobre os rumos do personagem, qual seria o caminho para que ele fosse mais ficcional?

Bem, a série se tratou de realidade desde o início. Não está ficando mais ficcional. A série obviamente é baseada na vida deles, mas eles foram superdiscretos. Então, nós sabemos determinadas coisas, mas temos que criar também porque eles eram muito reservados. Muita coisa ficou entre quatro paredes e isso é fascinante.

Eu gosto das zonas cinzentas porque eu já interpretei muitas pessoas reais em filmes e outras produções e um dos aspectos mais legais disso é que você herda uma estrutura, um monte de coisas, porque você conta com a vida da pessoa. Se um filme está sendo feito sobre alguém, em geral existe muito material sobre essa pessoa, imagens, muita coisa. Então, você não tem que criar muito. Neste caso, nós – de certa forma – tínhamos um esqueleto muito básico, então eu não me sinto interpretando uma pessoa real. Com certeza não é igual a interpretar o Tony Blair, o David Frost ou alguém assim. Aqui nós usamos o que tínhamos como um trampolim. Quando eu li o livro do Thomas Maier em que a série se baseia, li como tinha sido a infância do Bill e eu sabia que aquilo era a grande base do personagem e do que aconteceria com ele. Eu já tinha recebido o roteiro do piloto, então eu não tinha muito a fazer, porque o roteiro já tinha sido escrito antes de eu entrar no projeto. Mas, quando estávamos filmando o piloto eu conversei muito com a Michelle Ashford [criadora e produtora executiva] sobre o que estava acontecendo e o que poderia acontecer. A partir daquele momento, eu estava autorizado a participar da evolução do personagem do Bill e do que me interessava.

Quando me convidaram para o papel eu estava fazendo Hamlet em Londres, então estava totalmente obcecado com a ideia de pai e filho, com a possibilidade de haver uma relação abusiva entre eles. Então, no momento eu me interessei pelas possibilidades do personagem nessa linha e pela ideia de alguém que vai mudando. Eu nunca tinha feito um trabalho no formato de episódios, que permite que atores e autores contem uma história literalmente ao longo de anos. Nos filmes, os personagens sempre mudam – eles dizem que os personagens sempre têm que mudar – mas isso não acontece de fato. Há uma espécie de resumo. Mas, esta forma de contar histórias é como a vida: você vive realmente com esses personagens durante anos, então você pode explorar a ideia de que as pessoas mudam e isso pode ser muito poderoso. Eu achei que era arriscado interpretar alguém de quem é difícil gostar de cara, pensei que se o público iria acompanhar esse personagem durante quatro temporadas o personagem teria que passar por mudanças… Eu acho que a diferença desta série é que o personagem realmente está sempre mudando em todos os sentidos e isso tem um poder perante o público. Esse relacionamento do personagem com o público envolveu muitos acontecimentos, foi difícil, mas o público gosta do personagem de um jeito diferente de tudo que eu já tinha visto. Eu tive a sorte de receber muito apoio desde o início.

Quanto desse personagem fica com você entre as temporadas?

Bem, ele sou eu. Essa é uma das coisas difíceis quando as pessoas me dizem “o Bill é um idiota”. Eu penso: “mas ele sou eu e eu não estou fazendo essas coisas criticáveis”. Isso é o que tem sido mais bonito em relação a esse personagem: não é só uma ligação, eu trago para ele tudo que eu sou, o que eu aprendi, o que eu vivi, as minhas próprias experiências. Procuro ser o mais honesto possível nisso, então, mesmo quando ele está fazendo coisas que as pessoas desaprovam, isso vem de experiências reais, não só do fato de eu querer que ele tenha uma evolução real. Eu preciso ter uma referência o tempo todo, então eu tenho que me conectar a alguma coisa, por isso eu tive que entrar em contato com coisas sobre mim mesmo de que eu não me orgulho. Eu sei que eu sou outras coisas também e isso equilibra, eu posso trazer mais coisas para ele. Mas, sem dúvida nas duas primeiras temporadas foi difícil e tinha gente que dizia: “Ele é um idiota, eu não o suporto” ou “Eu o odeio, eu o odeio”. Hum, ok, tudo bem, sou eu.

Quando você diz que é você, está falando de você no passado ou agora?

Bem, sou eu em geral. Mas, não é tudo de mim e isso é assim em qualquer personagem que você interpreta. Eu sempre pensei nos personagens como aquela série Behind the Music, em que havia as placas de som de um estúdio e um monte de coisas para baixo e para cima. Este é o meu orgulho, a minha ambição, a minha insegurança ou qualquer outra coisa. E tudo está definido em níveis para mim, mas para fazer este personagem eu tenho que subir uma coisa, baixar outra, mas tudo tem que ser real.

Então você vai se mixando emocionalmente com o personagem…

Como eu disse antes, eu não gosto de interpretar. Eu não consigo interpretar. Se é interpretação, não é real. É claro que eu tenho diálogos que foram escritos, eu não estou agindo como eu mesmo nas minhas circunstâncias, mas o meu repertório sou eu, o que eu sei sobre como os seres humanos funcionam. E eu assumo o risco de, se eu for honesto na maneira de trabalhar, talvez você reconheça isso e talvez entre nós, se estivermos preparados para assumir o risco um com o outro, eu possa dizer: “É assim que eu sou, eu não estou muito orgulhoso disso, mas eu sou assim”. E de você responder: “Sabe, eu também sou assim”. Aí nós nos conectamos e acontece alguma coisa realmente. Não é só entretenimento. Não é qualquer coisa. Nós fazemos alguma coisa nova juntos, e temos um relacionamento que é significativo. Quanto mais estivermos preparados para estar abertos e para compartilhar, se não ficarmos fechados, sem adotarmos o estilo Trump – ou aquele tipo de força–, mais abertos seremos e mais unidos estaremos.

Não é muito cansativo ter que explorar esses espaços o tempo todo?

Bem, não é como trabalhar na exploração de uma mina de carvão.

Chegar a esses lugares emocionais.

É, mas é cansativo de outro jeito. Às vezes você quer trilhar esse caminho, mas nem sempre dá certo, você oferece alguma coisa e as pessoas dizem “não”. Aí pode ser difícil. Mas vale a pena. É ótimo. Há um lado positivo. As pessoas trazem um monte de cafés para você. [risos] É bom.

Esta série gira em torno da revolução sexual. O que “revolução” significa para você na sua vida?

Obviamente revolução é um assunto muito amplo, mas estagnação é a morte na criatividade e na vida. Assim como existe um status quo, é dever de todo mundo derrubá-lo. Hoje você pode fazer isso de várias maneiras. Quando tudo está em ascensão, existe um grupo que quer ficar lá. A vida não é assim, a vida é mudança. Quanto mais tempo uma força, uma pessoa, uma parte de você, seja o que for, ficar no poder, mais vai querer manter o poder e o poder tem que ser retirado. Isso vale para religiões, governos, ideologias e para o que acontece dentro de você, senão calcificamos e morremos. A faísca inicial que faz alguma coisa acontecer morre se ficar calcificada. Você tem que ser fiel a essa faísca inicial, tem que reencontrá-la de novo todos os dias. Isso cria esse círculo, esse movimento perpétuo e é assim que nós avançamos. É nisso que eu acredito. Um dia só é digno de ser vivido se houver uma revolução na minha vida. Você tem que acordar todas as manhãs e dizer: “Eu ainda quero fazer isso?”; “Eu ainda quero ficar com você?”; “Eu ainda quero estas pessoas na minha vida?”; “Eu ainda quero ser esta pessoa?”; “Por que eu acredito nisso?”. Para estar vivo é preciso viver uma revolução permanente, senão você terá apenas uma existência fantasmagórica.

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