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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Haters Back Off é uma das piores coisas que a Netflix já produziu

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Qualquer roteirista, novelista ou escritor sabe que a empatia do público com os personagens de uma obra é fundamental para estabelecer um laço com o leitor ou espectador. Se é um heroi, devemos torcer por ele. Se é um vilão, temos que temê-lo ou odiá-lo. Isso é o básico. Escritores mais experientes conseguem combinar essas características e criar, por exemplo, anti-herois, adicionando mais camadas e complexidade.

Infelizmente os roteiristas de Haters Back Off, produção estrelada pela YouTuber e personalidade digital Miranda Sings (Coleen Ballinger), desconhecem criação de personagens e o básico do fenômeno da identificação, tornando este um desastre televisivo em forma de série desde os segundos iniciais. Miranda é uma garota sem talento que quer ser famosa e, pra isso, pede ajuda de seu tio Jim para produzir um vídeo para o YouTube (onde ela “canta” o tema de Wicked, Defying Gravity) e com isso espera se tornar a maior sensação da Internet.

hatersbackoff2FOTO: NETFLIX

Tanto Miranda como o tio, a mãe (que é a Angela de The Office, veja só) e praticamente todos os personagens que cruzam a tela no piloto de 20 minutos que parece durar 2 horas são pessoas estúpidas, egoístas, irritantes, desprezíveis e desinteressantes (a única sã é a irmã). A ideia da série era, de alguma forma, tentar fazer graça com esses seres que vivem numa bolha de ingenuidade e burrice extrema. Em determinado momento a aspirante a cantora e seu tio começam a trancar as portas da casa logo depois que um comentário agressivo é postado no vídeo e eles imediatamente concluem que estão sendo perseguidos por um assassino, mostrando que desconhecem não apenas como a Internet funciona, mas também o mundo inteiro.

Há também, no quinto episódio, a produção de um musical envolvendo seleção de atores (que jamais questionam remuneração) e o tema é uma versão pedófila de Annie (“Beije meus lábios macios de orfã, papai Warbucks”). Ah, e tudo isso em cima de um jardim cheio de cocô do tio, pois a privada que ele instalou dentro do quarto foi feita sem esgoto. Juro.

Aliás, todas as situações soam absurdas e inverossímeis, sem que a série crie um universo que as propicie, como realizadores mais experientes como Mike Schur ou Tina Fey fazem em The Good PlaceUnbreakable Kimmy Schmidt, respectivamente. O roteiro ainda se contradiz em diversos momentos, mostrando que a série sequer possui coerência dentro do próprio universo criado. Em vez de termos uma comédia nonsense, temos aqui uma série apenas sem graça que tenta levar para a tela aqui e ali alguns dos bids que a moça fez na Internet, cantando músicas pop em sua voz anasalada (as cenas dela cantando “Don’t Cha” das Pussycat Dolls numa Igreja no segundo episódio ou “My Humps” do Black Eyed Peas num velório no terceiro são sofríveis, além de datadas). Isso sem contar a forte dose de insinuações incestuosas entre Miranda e o tio, que ultrapassam o limite do desagradável.

É óbvio que Miranda Sings funciona dentro de seu contexto original – pequenas aparições em vídeos online – que fizeram 7 milhões de pessoas assinarem seu cana;. Mas ao transportar a personagem para uma série de TV o que temos são 8 episódios sobre pessoas pelas quais não nos importamos e, pior, até as desprezamos. Não questiono os méritos de Colleen e sua personagem, mas a série simplesmente não funciona em nenhum nível.

Com tantos acertos de séries originais em seu catálogo, Haters Back Off é um dos maiores erros da Netflix. Talvez seja melhor deixar os YouTubers lá no YouTube
1star

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