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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Narcos faz excelente 3ª temporada, mesmo sem Pablo Escobar

[Parte 01: Sem spoilers] A ideia de Narcos sempre foi a de contar a história de como o narcotráfico surgiu e se consolidou na América Latina a partir da década de 80. Por isso, nada mais coerente do que a série seguir após a morte de Pablo Escobar vista na 2ª temporada, já que ela não representou (e nem representa até hoje) o fim do império da droga e da “narcodemocracia” que se instaurou no continente.

Aliás, boa parte dos personagens da 3ª temporada dessa excelente produção da Gaumont Television para a Netflix já haviam sido apresentados nos anos anteriores: desde o policial Javier Peña (Pedro Pascal, de Game of Thrones) até os líderes do temido Cartel de Cali.

Como o “poder” e foco trocaram de mãos após o fim do Cartel de Medellín, é com a mesma naturalidade que a série faz a transição e coloca os irmãos Gilberto e Miguel Rodrigues (Damián Alcazar e Francisco Denis), Chepe Santacruz (Pepe Rapazote) e Pacho Herrera (Alberto Ammann) como os próximos alvos da lista do DEA.

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Isso faz com que Narcos ganhe bastante dinamismo: primeiro porque já conhecemos os personagens, segundo porque temos quatro novos focos narrativos importantes para acompanhar em vez de apenas um. E mesmo que nenhum deles tenha a imponência da figura de Pablo Escobar, o Cartel de Cali representa, como organização, uma entidade muito mais ameaçadora que aquela de Medellín, seja por sua capilaridade ou por seus métodos discretos e eficientes.

Assim, a temporada destrincha, em sua primeira metade, os entremeios e estratégias que alçaram os “Quatro Cavaleiros de Cali” à posição de imperadores da droga e responsáveis por mais de 80% da cocaína distribuída nos EUA em seu auge. Isso porque, além de traficantes, eles subornavam tudo e todos, além de serem empresários de negócios legítimos que serviam para lavar o dinheiro que não parava de chegar, enquanto possuíam um esquema de segurança de fazer inveja ao Serviço Secreto (destaque para o personagem Jorge Salcedo, do ótimo Matias Varela, peça instrumental na trama).

Tecnicamente, Narcos segue irrepreensível em sua terceira temporada: da narração eficiente (agora na voz de Pascal) às sequências de ação que evidenciam o cuidado da produção com a geografia das cenas, inclusive com uma sábia e pontual utilização de drones para cenas aéreas.

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[Parte 2: Com Spoilers] Em termos narrativos, não há muita diferença com relação ao que vimos nas duas primeiras temporadas: a série é didática e quase educativa, especialmente quando utiliza imagens reais para ilustrar os momentos importantes da ascensão e queda do Cartel de Cali, ressaltando esmero do design de produção e figurino.

Enquanto Escobar era adepto do caos e da guerra, os Cavaleiros de Cali eram muito mais discretos e comedidos, tanto que a série abre com a surpreendente informação de que eles estavam em processo de negociação de uma “rendição programada” no prazo de seis meses, contando com apoio do governo da Colômbia.

Esse, talvez, é o grade ponto de virada de Narcos, ao colocar o holofote dos malfeitos daquela década também na corrupção sistêmica e endêmica que é característica dos países da América do Sul e Central. Com toda a força policial na folha de pagamentos do Cartel, a série retrata muito bem como Peña como os demais agentes da DEA possuem dificuldade para navegar na missão de enjaular os chefões.

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Sim, ao contrário do que vimos na série até agora, a resolução do Cartel de Cali será vista ao final dos 10 excelentes episódios (com destaque para aqueles dirigidos pelo brasileiro Fernando Coimbra), mas não antes de trazer alguns dos momentos televisivos mais tensos do ano e reviravoltas surpreendentes que não devem nada àquelas protagonizadas por Escobar.

Uma delas, é bem conhecidas por nós (e pela História): a corrupção chegava ao mais alto escalão do executivo colombiano e envolvia pessoalmente o presidente Ernesto Samper e seus ministros. E se tal fato é chocante para os norte-americanos que co-produzem a série, pra nós representa apenas a confirmação de que a América do Sul, definitivamente, não é pra iniciantes.

Essa terceira temporada de Narcos traz boa parte das melhores horas de TV que vi em 2017 e, claro, já faz a ponte com a trama da já confirmada 4ª temporada que focará suas atenções no México, país do Cartel de Juaréz e de El Chapo.

  • Leonardo Damaso

    Exagero, (boa parte das melhores horas de TV) mas OK gosto é gosto.

  • Julio Weiler

    A série é boa. Quando explica o modus operadni do Cartel e sua trajetória. Mas o enredo é uma ficção com alguns pontos ocorridos mesmo, claro que os personagens existiram. Mas a série precisava ser assim para entreter, pois mesmo as outras temporadas se fossem contadas do modo que aconteceu iria ser monótono. Assim precisavam mostrar mais violência.
    Mas o que achei um baita exagero e até um desrespeito a Colômbia é colocar o agente Javier Peña, que nem participou da caçada ao Cartel, na vida real, como aquele que denunciou o processo 8000. E na verdade foram os opositores do presidente.

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