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Por: Bruno Carvalho

Crítica | The Crown: tradição e progresso colidem na excelente 2ª temporada

O Reino não está mais tão unido na 2ª temporada de The Crown. À medida em que o reinado da Rainha Elizabeth II avança na reta final década de 50, o mundo passa por grandes mudanças políticas, econômicas e sociais que colidem diretamente com a trajetória da monarca. Optando por iniciar a temporada com uma grande crise, Peter Morgan – uma das maiores autoridades de conhecimento sobre a família real britânica – utilizou fatos históricos relevantes para retratar a evolução da Rainha, que aqui está mais segura, decidida e comedida, num trabalho impecável de Claire Foy.

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A temporada evidencia, ainda, a constante necessidade de ruptura de certas tradições e a imperiosa necessidade do governo britânico de se modernizar, pois os ideais retrógrados e conservadores começam a perder força e apoio popular, agravado ainda mais pelo distanciamento da regente sobre os seus “súditos” e, em especial, sobre os países que a Grã-Bretanha controla.

Por isso, o mimado e indiscreto Phillip (Matt Smith) roda o mundo numa espécie de Tour Real com direito a muitas indiscrições a cada aportada, enfraquecendo ainda mais o já frágil governo, que também sofre com a instabilidade parlamentar, escândalos românticos e sexuais e, talvez o mais grave deles, a descoberta de associação do antigo Rei Edward VIII com uma turminha não muito, digamos, “do bem” (não darei spoilers).

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Apesar de longos, cada episódio dessa 2ª temporada é delicioso de assistir graças ao elevado nível da produção, que nos transporta décadas no passado como se os produtores tivessem uma máquina do tempo (quando na verdade é um misto de cenografia e efeitos visuais caprichadíssimos). Além disso, Peter Morgan teve a sábia decisão de – em momentos-chave da série – trazer ao final de cada capítulo fotos, vídeos e documentos dos personagens reais, a estilo de Narcos. Esse é um recurso narrativo que ajudaria a evidenciar a precisão histórica da série e o excelente trabalho de pesquisa do historiador e amigo pessoal da família Real.

Por falar em conflitos, a temporada entra em sua reta final evidenciando um confronto que o mundo não conhecia: a breve rivalidade entre Elizabeth e a 1ª dama dos EUA Jackie Kennedy, aqui interpretada pela ótima Jodi Balfour, e que mostrou à Rainha a necessidade de ser mais ousada politicamente e menos como um enfeite caro (culminando em sua icônica e instrumental visita ao Sudão). Aliás, o capítulo da recepção dos Kennedy (que logo após sofreram com o atentado) só não é perfeito graças à terrível caracterização de Michael C. Hall como JFK. Ele é um ótimo ator, mas sua versão do ex-presidente norte-americano simplesmente não funcionou por conta do sotaque forte e do excesso de maneirismos.

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Intensa, envolvente e em muitos momentos surpreendente – inclusive com o destaque dado à sempre divertida Margareth de Vanessa Kirby e seu atribulado casamento -, essa 2ª temporada de The Crown é uma das melhores estreias deste ano já no fim e uma série que comenta o atual momento de polarização política do mundo através de exemplos e contra-exemplos. Nos despedimos aqui da brilhante Claire Foy e aguardamos a chegada da talentosa Olivia Colman para assumir o encargo de levar essa grandiosa história adiante a partir do 3º ano.

É uma belíssima série.

  • ralves58

    Poxa, os episodios de The Crown nao sao longos, duram apenas 1 hora, o que é o normal para as series inglesas…

    Voce nao está acostumado a assistir aas series britanicas, Bruno?… As policiais, por exemplo, dao um banho nas series policiais americanas, em parte exatamente porque possuem episodios mais longos (muitas dessas series possuem episodios de 1h30), permitindo que cada caso seja melhor tratado e a solucao nao precise ser tao rapida… (e, claro, sao mais cerebrais, enquanto as americanas sao mais bobas, com muita correria, lutas, perseguicoes de carro, tiroteios, explosoes…)

  • Temporada sensacional, pena que a moça será substituída. Bela atuação.

ss