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Por: Bruno Carvalho

Crítica | A intensa e extraordinária minissérie La Casa de Papel

Um dos vários fatores positivos da Netflix para os fãs de séries é a oportunidade de acesso a produções fora do eixo USA-UK sem adaptações. Dark foi só o começo. Produção do canal Antena 3 da Espanha, La Casa de Papel foi uma minissérie espanhola que estreou no início de 2017 por lá e agora conquista o mundo graças aos pulsos do streaming internacional. Não, esta não é uma original da Netflix, registre-se.

Quem nunca fantasiou com a ideia de imprimir ilimitadamente seu próprio dinheiro quando descobriu o conceito de Casa da Moeda? A história de La Casa de Papel é absurda desde a sua concepção, exatamente por esse motivo: um grupo de delinquentes vestidos com máscaras de Salvador Dalí são liderados por um sujeito chamado “o Professor” que organizou, durante anos, um plano mirabolante para tomar a fábrica de dinheiro espanhola e produzir bilhões de Euros.

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La Casa de Papel é uma minisérie em duas partes extraordinária e que faz você querer até aprender espanhol só pra sair dizendo Folla, Salva, Rehenes, Cojones e muito mais. É intensa, envolvente e eloquente desde o primeiro episódio em que vemos a perseguida assaltante Tóquio (Úrsula Corberó, maravilhosa) sendo recrutada pelo idealista organizador do maior assalto da história do mundo e se juntar a uma trupe de tipos, digamos, interessantes.

E de megalomaníaca, La Casa de Papel tem tudo e sua narrativa não faz o menor sentido. Isso, contudo, não é nenhum problema, como veremos.

A suspensão da descrença é um fenômeno necessário para a conexão humana com filmes, quadrinhos, peças de teatro e séries desde o início da cultura e isso não é novidade. O que difere uma boa produção das medíocres é aquela que consegue atingir o espectador A DESPEITO do que sua trama mirabolante sugere. Exemplos disso temos aos montes.

Você acha que Neo é o salvador do mundo na Matrix? Que Jack e Kate precisavam voltar à ilha? Ou que alguém tão incompetente como Michael Scott seria o gerente de uma empresa? Não importa. O que importa é a conexão com os personagens e El Professor (Álvaro Morte), Raquel Murillo (Itzar Ituño), Berlin (Pedro Alonso), Nairobi (Alba Flores), Rio (Miguel Herrán), Denver (Jaime Lorrente), Moscou (Paco Tous) garantem isso.

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La Casa de Papel se ancora em excelentes e cativantes personagens para se tornar uma minissérie excelente, apesar do roteiro LOTADO de falhas, quebrando barreiras linguísticas e temáticas e estabelecendo uma conexão profunda com o espectador. Isso acontece justamente por que ela conta uma história sobre oprimidos que resolvem rebelar contra o sistema vigente.

Há que se fazer inúmeras concessões para acompanhar esta produção. Lembra quando, em Prison Break, os agentes penitenciários estavam pra abrir uma porta e encontrar Michael Scofield ou um dos Fox River 8, mas a montagem malandramente indicava que aquilo não estava ocorrendo em tempo real? Pois bem, este drama pega esse conceito e eleva à enésima potência, rindo na cara dos limites.

Limites? “Kkkkkk limites”: , diz La Casa de Papel em todos os episódios.

Semana após semana (para os espanhóis) e episódio por episódio (para nós assinantes da Netflix) acompanhamos esse grupo de assaltantes da Casa da Moeda driblarem a lógica narrativa na missão de imprimir seus Euros enquanto a polícia (e a pior inspetora da história) assiste inerte e impotente, graças às artimanhas do infalível Professor, que pensou em tudo. Bem, em quase tudo.

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O fator imprevisível numa obra sobre “assalto a banco” é essencial e aqui eles bebem o improvável direto na fonte. Todos: os “bandidos”, os “herois” (sim, as aspas são propositais), os reféns e os colaterais são fundamentais para essa história e La Casa de Papel se preocupa com o desenvolvimento de cada um, fazendo com que nos importemos com cada um.

Ouso dizer que aqui não há vilões. Você não torce incondicionalmente pelos bandidos, nem odeia totalmente a polícia. É um jogo de gato e rato em que ora estamos torcendo para o caçador e para a presa, pois o conceito de “caçador” e “presa” muda a cada instante, às vezes de forma deveras volátil e inverossímil.

Mas pra quem busca verossimilhança, La Casa de Papel é a série errada. Vá ver um jornal (embora ultimamente isso também não se aplique tanto). Pois é no absurdo de suas situações que essa produção é eficaz e plena, pois seus roteiristas e idealizadores (que rapidamente serão recrutados por canais norte-americanos ou britânicos) não têm o menor medo, inclusive medo do ridículo.

Há cenas, sequências e passagens que não fazem o menor sentido, mas isso não importa. Por vezes eu quis pausar a reprodução para comentar no Twitter, apenas para ver depois que eles estavam o tempo todo cientes da reação que queriam causar, pois logo em seguira veríamos uma reviravolta que explicava ou compensava certas suposições.

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La Casa de Papel é, antes de tudo, uma série completamente ciente de que é absurda, o que muda completamente as regras do jogo.

Eu não quero dar spoilers, pois quando terminei a primeira parte disponível na Netflix (a 2ª metade da história poderá ser acompanhada a partir de 6 de abril por nós) só quis vir correr aqui pra escrever, além de pesquisar mais sobre esse elenco maravilhoso.

A produção é impecável tecnicamente e deixa no chão diversas produções milionárias. As locações e cenários são magníficos e o esmero da fotografia, decupagem, montagem e direção é digno de nota, assim como também de outros departamentos artísticos como o de casting, iluminação e até mesmo de seleção da trilha sonora, que homenageia ritmos latinos e ibéricos.

Há uma razão pelo qual, numa partida entre Brasil e Camarões na Copa do Mundo, a maior parte do público não brasileiro torce para a seleção africana: o ser-humano adora uma história de perseverança e superação, como diz o Professor em determinado momento. La Casa de Papel sabe disso.

A primeira parte, com 13 episódios, segue disponível na Netflix e é digna de uma maratona que vai extrair, riso, tensão, ódio e uma incontrolável vontade de sempre passar para o próximo, tamanho envolvimento que desenvolvemos com aquelas pessoas, dos mais centrais aos mais coadjuvantes.

Não é, e nem de longe, a melhor minissérie do mundo como muitos fazem questão de bradar para cada novo lançamento da Netflix. É uma ÓTIMA série, cujo roteiro está repleto de buracos, mas que funciona em todos os sentidos justamente por cativar o seu público entregando surpresas, reviravoltas e momentos emocionantes em meio a galhofas novelescas, pitorescas e muita (mais muita( “forçação de barra’.

Esse é o zeitgeist desse começo de ano, sim, mas é bom demais!

  • Vou ter que assistir. Mta gente falando bem da série.

  • Hermeson Alves

    Boa, viciante mas falha. Assim como boas produções Não americanas, La casa de Papel é uma lição para todos que dizem que se não for dos EUA não tem Futuro. Apesar de não esperar mais que duas temporadas da série, saber parar também é um ponto positivo. Compensadora é a palavra para descrevê-la. Nem promete demais nem decepciona. Nota 9 .

  • Jonatas Novais

    Serie legalzinha apenas, começa a ficar interessante somente no episodio 8.
    Forçada ao extremo, achando que o publico é burro… superestimada pelos “fãs” nota 6,5

ss