FOTO: WARNER BROS.

Por: Bruno Carvalho

Crítica | O Artista do Desastre e a involuntária história de sucesso do pior filme do mundo

Há um motivo porque o filme The Room saiu do patamar de “o pior filme da História do Cinema” para um dos mais cultuados e isso tem a ver diretamente com a figura peculiar e pitoresca de seu idealizador, o “cineasta” Tommy Wiseau. Artista do Desastre, já em exibição nos cinemas, conta a história dos bastidores da produção desse longa e tenta decifrar o personagem de forma divertida.

A narrativa percorre um longo caminho que começa na pré-concepção de The Room até o dia a dia da produção em si, terminando na noite de seu lançamento. Wiseau é um sujeito que se sente incompreendido, pois ele é incompreensível para o mundo. Sem talento, carisma ou qualquer outra característica que poderia torná-lo um ator minimamente sério ou bem-sucedido, ele decide comprar um “atalho” para a fama após ver todas as portas de Hollywood fechando sua cara.

Inexplicavelmente rico, ele decide produzir seu próprio filme e cuidar, sem qualquer tipo de experiência, de todos os complicados aspectos da produção de um longa. Com isso, The Room traz passagens que podem soar forçadas, mas que de acordo com o livro de Greg Sestero (aqui interpretado por Dave Franco) e Tom Bissel. Isso vai desde o fato de Wiseau preferir comprar as câmeras (em vez de alugá-las, como padrão da indústria) até a produção de cenários que reproduzem locações já existentes no próprio estúdio.

FOTO: WARNER BROS.

O filme, então, é ancorado pela excelente interpretação de James Franco (The Deuce) sobre o caricato e excêntrico sujeito. O ator literalmente se transformou em Wiseau, incorporando sua fala truncada, seu raciocínio torpe e captou com brilhantismo a “aura” de mistério que cerca a vida do aspirante a diretor, roteirista e produtor.

Artista do Desastre é uma obra que poderia muito bem descambar para a sátira pura e escrachada, ridicularizando a persona de Wiseau, mas que jamais cai nessa armadilha. O roteiro de Scott Neustader e Michael Weber é sutil e sensível ao ponto de trazer à tona as bizarrices (e até idiotices) de Wiseau enquanto, ao mesmo, desperta a empatia do público sem romantizar sua tortuosa trajetória.

Não é esta uma história sobre “perseverança” ou sobre “acreditar em seus sonhos”, pois não há lição alguma a ser extraída a não ser a de que o sucesso involuntário do filme não passou apenas de pura sorte de todos aqueles que, de certa forma, se envolveram nesse projeto. Repleto de participações especialíssimas – tanto as pontuais como Sharon Stone e Bryan Cranston, quanto as recorrentes como Seth Rogen e Alison Brie -, Artista do Desastre é uma comédia hilária e que pode ser assistida tanto por quem já viu The Room, quanto pra quem nunca ouviu falar desse filme.


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