FOTO: PEDRO SAAD/KARIMA SHEHATA/NETFLIX

Por: Davi Garcia

Desvendamos os segredos de O Mecanismo no set da nova série da Netflix!

Quais são as engrenagens por trás de todo sistema corrupto? Qual é o papel de cada peça dentro de esquemas que colocam o poder político como serviçal e facilitador dos interesses econômicos de grupos e pessoas que transcendem partidos e ideologias? Essas são algumas das perguntas que O Mecanismo, série criada por José Padilha (Tropa de Elite, Narcos), promete tentar responder a partir do dia 23 de março, quando a produção de oito capítulos estrelada por Selton Mello, Caroline Abras, Enrique Diaz estreia na Netflix.

Foi a convite da gigante do streaming, aliás, que o Ligado em Série conversou, em agosto de 2017, com os atores, produtores e diretores da série e teve a oportunidade de visitar os sets de gravações no Rio de Janeiro, além de acompanhar de perto algumas filmagens de um dos últimos episódios.

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O que é O Mecanismo, afinal?

Uma obra de ficção livremente inspirada pelos acontecimentos da Operação Lava Jato, mas que – segundo seus realizadores – pretende se distanciar dela ao buscar um tom mais neutro e isento do que vemos nos noticiários, ao mesmo tempo em que jamais nega ser um entretenimento. O intuito da série, na leitura dos atores, é explorar como o poder econômico controla as engrenagens de todo o sistema e, a partir disso, dialogar com públicos distintos não só do Brasil, mas também de vários outros países mundo afora.

A série não utiliza nomes reais. Tudo é ficcional”, conforme nos contou Enrique Diaz.

Ele vive o personagem Roberto Ibrahim, operador do esquema de corrupção investigado pela delegada Verena Cardoni (Caroline Abras). A atriz, aliás, disse que uma das preocupações dos roteiros de Padilha e Elena Soarez (Cidade dos Homens) foi evitar que a série se transforme num game de quem é quem. O que importa na história, na visão dela é, além da investigação em si, saber como são as vidas daqueles personagens.

É natural, reconheceu Diaz, que ao assistirem a O Mecanismo as pessoas acabarão buscando estabelecer relações desse ou daquele personagem ou evento com a operação real, mas disse também que o roteiro transcende isso a partir do momento em que mergulha fundo nas relações que se constroem entre os personagens. Nisso, ele citou como exemplo a polarização entre seu personagem e o do delegado Marco Ruffo (Selton Mello).

Os dois eram amigos quando jovens. Eles simbolizam as formas distintas que cada um tem de enxergar e lidar com o que é ético, ou seja, são dois lados da mesma moeda, disse.

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Conhecendo os personagens

Marco Ruffo (Selton Mello) – Inspirado no hoje aposentado delegado da Polícia Federal Gerson Machado (a quem muitos creditam ter dado início a toda investigação que culminou na Lava Jato), Ruffo é um sujeito ambíguo, complexo e bem quixotesco na visão de Selton Mello.

Eu sempre quis trabalhar com o Padilha e claro que ter a chance de fazer um personagem com tanta exposição foi legal porque o Ruffo tem potencial para se tornar tão icônico quanto um Don Draper ou um Tony Soprano no sentido em que as pessoas poderão enxergá-lo tanto como herói quanto anti-herói.

Verena Cardoni (Caroline Abras) – Num universo essencialmente masculino, é ela que lidera a investigação que sustenta a trama e luta contra um sistema viciado que geralmente privilegia a impunidade. Está diretamente ligada ao delegado Marco Ruffo que é uma espécie de mentor para sua personagem. Tal qual Selton Mello, a atriz também disse que não fez qualquer laboratório ou trabalho de preparação com agentes verdadeiros.

Verena foi composta basicamente a partir das indicações do roteiro e das conversas que tive com a equipe.”

Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) – É o doleiro e operador do esquema. Para Diaz, o personagem é paradoxal, pois ao mesmo tempo em que age com extrema naturalidade dentro daquele universo, ele tem família e se importa bastante com ela.

Ele é um Coringa na história. Não defende nada, não abraça ideologia, mas é alguém com plena desenvoltura para atuar dentro de todo o esquema.”

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Qual é o grande objetivo da série?

Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs), que na época da conversa conosco, estava escalado para dirigir os dois últimos episódios de O Mecanismo, disse que a ficcionalização da história é atraente porque ela permite um distanciamento do embate de concepções prontas.

O trabalho do Padilha, nesse sentido, reflete a capacidade de decodificar um determinado fenômeno. A série é muito mais sobre obsessão de uns pelo poder e do desejo de outros de quebrar engrenagens,” disse ele defendendo ainda que o tal mecanismo é apartidário, não tem ideologia e está impregnado dos mais altos aos mais baixos escalões da sociedade.

Questionados se esperam que a série tenha algum impacto em ano eleitoral, tanto Rezende quanto Marcos Prado (produtor dos dois Tropa de Elite) disseram esperar que a série contribua para que eliminemos discussões simplistas sobre esse ou aquele partido. Agora, quanto a tirar o público da apatia pós-impeachment… Bem, segundo eles, a série não tem essa intenção propriamente, mas reconhecem que isso obviamente acaba sendo algo totalmente fora do controle deles.

Curiosidades de bastidores e dos sets

Por que O Mecanismo? – Segundo Prado, o nome dado por Padilha é bom porque consegue ser genérico, mas ao mesmo tempo contundente no sentido em que retrata engrenagens que se repetem mundo afora.

Há um narrador na trama? – Embora essa seja uma marca das obras de José Padilha, tanto Selton Mello quanto os os produtores disseram que naquele momento esse ainda era um tema sendo discutido.

Onde O Mecanismo foi gravado? 90% da série foi gravada no Rio, segundo Marcos Prado que disse que filmagens pontuais ocorreram também em Brasilia, São Paulo e Curitiba. Além disso, de tudo que foi gravado, cerca de 70% foi feito em estúdio e 30% em externas. Quando estivemos nos sets que tomavam dois andares de um antigo prédio localizado numa área central do Rio, vimos tanto o que funcionava como sede da Polícia Federalista quanto o que servia como Ministério Federal Público (as versões ficcionais da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, respectivamente). Ambos os sets, aliás, tinham uma riqueza de detalhes bastante impressionante desde simples fotografias pessoais na mesa do juiz, passando pelos documentos de inquéritos até as celas da carceragem e mesas dos agentes da polícia.

FOTO: PEDRO SAAD/KARIMA SHEHATA/NETFLIX

Que tipo de termos veremos na série? Numa das gravações que pudemos conferir, a delegada Verena fala em “Clube dos 13” ao fazer referência ao cartel das empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção. 13, vale lembrar, também é o número de um certo partido real, né? Será que veremos algo como esquema 45 sendo usado em alusão a alguma coisa? A conferir.

Em que período se passa a série? A trama da 1a temporada de O Mecanismo terá alguns flashbacks, mas começa mesmo em 2013 terminando em 2014, conforme nos foi antecipado pelos produtores da série na ocasião. A ideia, portanto, é que tendo continuidade a trama siga se “inspirando” nos eventos reais dos desdobramentos da operação lava jato.

A 2a temporada já está confirmada? Oficialmente ainda não, mas considerando que a 1a temporada termina com ganchos para quase todos os personagens centrais, é de se supor que a Netflix vá fazer o anúncio pouco depois do lançamento da série. Aliás, tanto Selton Mello quanto Caroline Abras e Enrique Diaz confirmaram que seus contratos já previam a possibilidade de um segundo ano, prática padrão para várias das séries novatas da plataforma de streaming.

Assista ao novo trailer:

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