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Por: Luiz Paulo

Crítica | American Crime Story: O ~Assassino~ de Gianni Versace

[Crítica com leves spoilers] A morte de Gianni Versace até hoje é cercada por uma pergunta que talvez jamais será respondida: o famoso estilista e o seu assassino Andrew Cunanan realmente tiveram um relacionamento amoroso como foi especulado ou tudo não passou de mais uma das infindáveis mentiras que Andrew contava para as pessoas ao seu redor e até para ele mesmo?

Sendo esse um dos pilares da história proposta por essa temporada da antologia comandada por Ryan Murphy (GleeAmerican Horror Story), a série conseguiu recriar a década de 90 com brilhantismo, ao mesmo tempo que nos apresentou os personagens principais sem didatismos ou explicações desnecessárias. No entanto, O Assassinato de Gianni Versace pecou justamente por fugir covardemente da questão central (a possibilidade da existência de uma relação entre Versace e Cunanan), preferindo gastar um tempo absurdamente longo de tela sem sequer mostrar a figura que deveria ser o centro da trama. Sendo assim, um subtítulo mais apropriado a essa temporada seria O Assassino de Gianni Versace.

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Nos 9 episódios da série vimos a vida, as relações, as mentiras e as pessoas afetadas por Cunanan, deixando de lado a trajetória do estilista que veio do nada e conseguiu construir um império. A partir do terceiro capítulo, a participação do personagem-título se resume a pequenas pílulas e há episódios em que ele, ou seu núcleo que contam com atores como Penélope Cruz e Ricky Martin, sequer aparece. Como simpatizar com Gianni Versace e sua história se a série não se importa em retratar quem ele é? Com isso, O Assassinato de Gianni Versace se transforma num filler estendido de um episódio de Criminal Minds, empalidecendo diante do excelente O Povo Contra OJ Simpson.

Beneficiado pelo tempo de exposição, Darren Criss (Glee) acaba pondo o drama no bolso e sua performance como o mitomaníaco Andrew Cunanan dificilmente passará batida pelas premiações futuras (o episódio 2×04 certamente será sua Emmytape). Já Penelope Cruz faz o que pode para dar alguma dignidade em tela à sua Donatella Versace, mas as poucas cenas que lhe são dadas não conseguem tirar a impressão de que o que estamos vendo não passa de uma simples imitação, o que piora tudo quando a maquiagem pesada no rosto da atriz parece transformar um simples levantar de sobrancelhas em um esforço sobre-humano. Além disso, falta profundidade a praticamente todos os personagens da família, que parecem ligados no automático o tempo todo.

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Por outro lado, o roteiro acaba oscilando entre o brilhantismo (novamente, o tenso episódio 2×04: House by the Lake é sensacional) e o pedestre, quando resolve contar a história de trás para frente, ignorando os princípios básicos de uma boa estrutura narrativa. Não há uma situação que soe surpreendente para o espectador, visto que tudo o que está acontecendo já foi contado antes (por exemplo, a história do cartão postal enviado por Andrew para a família de Jeff perdeu completamente o impacto quando aconteceu, visto que já tínhamos visto as consequências dessa ação capítulos antes). Ao mesmo tempo, passagens da vida de Versace que poderiam render bem mais foram tratadas com completo descaso pelo roteiro, como a doença que quase o matou alguns anos antes de Andrew.

O drama também mergulha em tramas paralelas completamente desnecessárias, cujo único intuito é preencher tempo. Isso fica claro quando vemos flashbacks relacionados ao passado militar de um dos conhecidos de Cunanan e, posteriormente, sua vítima. Há o interesse de Murphy em discutir questões relacionadas ao banimento de homossexuais no exército, além de outros temas sociais relevantes, mas no fim das contas isso é logo esquecido pelo roteiro que anda pra trás.

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Esses nove episódios acabaram por deixar bem claro que contar a rica história de Gianni Versace não era a intenção da série, ou talvez acabou não sendo graças à pressão que a família e o espólio do estilista tiveram nos bastidores da atração. Na verdade, seria bem mais honesto da parte de Ryan Murphy cortar as partes desnecessárias e produzir um telefilme de duas horas (no máximo).

O final é um dos maiores exemplos de anti-clímax da recente história da TV, já que a antecipação por algum tipo de revelação ou reviravolta – especialmente pela utilização da estrutura narrativa invertida – fez com que esse programa de “true crime”  se tornasse nada mais do que a patética trajetória de um fã alucinado, fazendo pouco, ou nada, pela memória de sua mais ilustre vítima.

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