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Por: Ana Bandeira

Para novos tempos, um novo Queer Eye

Nos anos 2000 existia um reality show chamado Queer Eye For The Straight Guy, produzido pelo canal Bravo. Aproximadamente 100 episódios foram ao ar entre 2003 e 2007, e o programa chegou a conquistar o Emmy de Melhor Reality em 2004, além de levar outra indicação em 2005. A premissa? Cinco gays, cada um especialista em uma área (moda, aparência, design de interiores, cultura e gastronomia), com a missão de repaginar um homem hétero. Os Fab5, como eram chamados, eram Ted Allen, Carson Kressley (que muitos conhecem por suas frequentes aparições na bancada de jurados de RuPaul’s Drag Race), Kyan Douglas, Thom Filicia e Jai Rodriguez. Além do carisma do elenco, a outra força do programa era o resultado final das transformações, que sempre eram carregadas de emoção. Não tinha como não se apaixonar pelos Fab5 e pelas histórias das pessoas que precisavam de uma mudança em suas vidas, e foi assim que Queer Eye For The Straight Guy se transformou fácil em um dos meus programas favoritos.

FOTO: BRAVO

Talvez seja por isso que eu demorei um pouco para assistir ao novo Queer Eye, agora sem o foco no homem hétero e com produção da Netflix. Meu medo de que a nova versão não trouxesse um elenco à altura foi grande, mas os comentários favoráveis fizeram com que a curiosidade fosse maior. Para a minha surpresa, esta nova versão está tão apaixonante quanto a antiga, talvez até mais. Começando pelos novos Fab5: Bobby Berk, Karamo Brown, Tan France, Antoni Porowski e Jonathan Van Ness (que entra fácil na lista de melhores pessoas do mundo). A entrosagem entre eles é evidente logo de cara, tornando fácil simpatizar com cada um.

Mas a escolha do elenco não foi o principal acerto: a grande sacada da Netflix foi incluir os gays nessa repaginada. Assim, ao tirar o foco do homem hétero, o Queer Eye conseguiu se alinhar mais com as transformações atuais, promovendo uma inclusão necessária e mostrar que a vontade de se transformar em sua melhor versão é algo que transcende orientação sexual e é comum a todas as pessoas. Posso estar enganada, mas prevejo mulheres entrando na próxima temporada, sejam héteros, gays ou trans.

O outro acerto de Queer Eye foi explorar regiões tipicamente preconceituosas dos Estados Unidos, aumentando o desafio. O resultado é que, ao enfrentarem a resistência natural entranhada em uma cultura local, os Fab5 acabam passando uma espécie de mensagem de esperança, nestes períodos um tanto sombrios, de que ainda existem pessoas com um mínimo de mente e coração abertos para reverem seus conceitos.

A escolha das pessoas que ganharam o makeover também foi cuidadosa, dando visibilidade para as mais diversas necessidades e origens culturais: no primeiro episódio, temos o típico caipira de coração grande e baixa autoestima, que acredita que não se pode consertar o que é feio. No segundo, o desenvolvedor de app que tem dificuldades de aproximação e mantém os amigos a uma distância segura, assim como a família de imigrantes. O quarto episódio é o mais emotivo de todos, e mostra um gay que quer se assumir para a madrasta e superar a perda do pai (prepare-se para chorar muito). O último deles foca em um bombeiro que decide estender o makeover para a estação de trabalho, beneficiando também os colegas e a comunidade. Ao longo da temporada, existem, sim, alguns episódios um pouco mais esquecíveis, mas é definitivamente um retorno sólido do reality.

O único defeito do novo Queer Eye foi ter sido tão curto. É inaceitável nos presentear com cinco pessoas maravilhosas e produzir apenas oito episódios, viu, Netflix? A boa notícia é que a segunda temporada já foi confirmada e deve estrear ainda em 2018. Assista acima ao episódio especial que eles fizeram dentro da própria área de TI da Netflix.

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