FOTO: PARAMOUNT PICTURES

Por: Bruno Carvalho

Um Lugar Silencioso: a obra-prima sensorial de John Krasinski

Quem diria que John Krasinski, o Jim de The Office, se revelaria como um dos diretores mais proeminentes desta geração? A prova está em Um Lugar Silencioso, filme que dirigiu, co-escreveu e estrelou e que desponta como um dos melhores exemplares de terror dos últimos tempos e o melhor longa do ano até agora, sem qualquer exagero.

Num futuro não muito distante, encontramos o que sobrou da civilização humana tentando sobreviver a uma ameaça que inicialmente é desconhecida por nós espectadores, já que fomos jogados nesta narrativa in media res, ou seja, com a trama já em andamento. Rapidamente, sem a necessidade de nenhum diálogo expositivo ou placas indicativas em tela, compreendemos que o som é uma ameaça à vida de uma família do interior dos EUA composta pelo pai Lee (Krasinski), sua esposa Evelyn (Emily Blunt, esposa de Krasinski) e seus filhos Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (o pequeno Cade Woodward).

Tudo o que restou de uma pequena cidade está agora adaptado para não emitir qualquer tipo de barulho: casas possuem abafamento sonoro improvisado, sistema de comunicação visual por luzes, trilhas e ruas estão pulverizadas com caminhos de areia e os sobreviventes passaram a se comunicar basicamente utilizando a linguagem dos sinais de deficientes auditivos.

FOTO: PARAMOUNT PICTURES

Mas é logo no começo que Um Lugar Silencioso mostra a que veio, revelando que a raça humana está sendo perseguida por uma espécie de monstro insetoide gigante e cego que se locomove exclusivamente pelo som. Sem jamais revelar a origem de tais seres (se alienígenas da franquia Cloverfield, animais mutantes etc.), o que torna tudo ainda mais assustador, Krasinski cria um longa que é capaz de aterrorizar o espectador quase que exclusivamente pela presença do som, pois sabemos qual é a consequência de qualquer decibel.

A lógica sonora desse filme, inclusive, é brilhante e denota o cuidado dos realizadores e do diretor em não apenas extrair momentos de extrema tensão com barulhos, como também de prolongá-los quase beirando o insuportável. Não que o trabalho de fotografia seja menos inspirado, pois não é. Em sua estreia, Krasinski se revela um diretor hábil na construção de sequências que são potencializadas pelas escolhas de perspectiva (uma envolvendo apenas um prego) e modulação de câmera, que revela o que quer e na hora que quer.

Com tantas reviravoltas e acontecimentos marcantes em um filme tão conciso e eficiente, é difícil analisar Um Lugar Silencioso sem dar spoilers, pois a cada ato Krasinski eleva o nível de suspense e até mesmo horror, prestando homenagem a diretores como Alfred Hitchcock e M. Night Shyamalan (na fase boa). O que dá pra falar é que Emily Blunt e a jovem Millicent, que é deficiente auditiva na vida real, protagonizam as melhores cenas deste longa, enquanto Krasinski também demonstra uma carga dramática e pesada como jamais o vimos em sua trajetória por The Office.

Mais do que provocar sustos, esta obra-prima nos faz importar com o destino dessa família, o que por si só já é um feito notável. Acreditamos no amor entre aquelas pessoas a ponto de nos colocarmos naquela situação e praticamente sentir o que eles estão vivenciando. Esse, talvez, é o maior trunfo de Um Lugar Silencioso. Em vários momentos na projeção me peguei sem ar e implorando para que determinado personagem tomasse essa ou aquela atitude (especialmente quando descobrem uma luz no fim do túnel num aparato inusitado, mas deveras pertinente com o universo criado).

Este é um filme que precisa ser vivenciado numa sala de cinema em que você não pode sair, pausar ou se esconder debaixo da coberta, pois Um Lugar Silencioso é uma verdadeira obra-prima sensorial.

ss