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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Safe: Michael C. Hall retorna à TV em decepcionante produção

[Texto sem spoilers do final da série; contém spoilers sobre alguns pontos de desenvolvimento da temporada] Michael C. Hall está claramente num processo que a imprensa chama de “des-Dexterização“. O talentoso ator segue até hoje muito marcado por sua interpretação de Dexter Morgan nas oito temporadas de Dexter, do canal Showtime, tendo optado desde o fim da série a fazer peças de teatro e pequenas participações em outras atrações (como The Crown e o filme A Noite do Jogo) até realizar sua grande volta.

Infelizmente, Safe não é a atração que o colocará de volta nos holofotes e premiações. Nesta minissérie de 8 partes ele é Tom, um cirurgião e pai de família que cria duas filhas após a morte da mãe por câncer. Eles vivem num pacato condomínio fechado no interior da Inglaterra e sua vida vira de cabeça pra baixo quando sua filha mais velha misteriosamente desaparece após uma festa e seu namorado é encontrado morto em uma piscina.

Desesperado para encontrá-la, ele começa a seguir pistas sobre seu paradeiro e acaba descobrindo segredos escondidos na pequena comunidade. Com isso, o drama começa a exibir uma série de acontecimentos não raramente enganosos para manter a história andando por mais episódios do que realmente deveria (se é que essa série deveria ser feita).

A produção de Harlan Coben, roteirista americano que tem três projetos (e que faz questão de colocar seu nome no próprio título da minissérie), é uma bagunça imensa. Os personagens são mal construídos, a começar por Tom, um sujeito que não sabe demonstrar emoção a não ser com transições abruptas de humor, parece correr atrás da filha por mera obrigação (e tem reações estranhas na maior parte do tempo, como quando sua outra filha brevemente some também) e toma uma série de decisões altamente questionáveis.

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Mantendo um caso amoroso com a policial que está liderando ambas as investigações, ele curiosamente resolve – sem nenhum tipo de treinamento ou capacidade para tanto – correr atrás de pistas por sua própria conta com um amigo, muitas vezes atrapalhando a própria investigação (fora que ele fica uma semana sem trabalhar e tá tudo bem). Essa motivação estranha só vem à tona mais à frente, quando a patética reviravolta que o roteiro estava escondendo por pura conveniência  e muitas tramas paralelas inúteis é finalmente revelada.

Aliás, a quantidade de vezes que a série indica que alguém é “suspeito” apenas para instantes depois desbancar suas próprias insinuações evidencia como o texto é ralo e mal estruturado. O melhor amigo de Tom, Pete, é visto em flashbacks demonstrando um comportamento estranho com relação a Jenny, para logo depois ser revelado que ele não tem nada a ver com seu sumiço. O mesmo acontece com uma policial novata, que parece estar tramando algum tipo de vingança com Pete (seu namorado foi morto atropelado), com direito a uma cena que indica que ela vai literalmente desligar os aparelhos do cara no hospital (ele recupera de umas facadas também nunca explicadas), para segundos em seguida revelar que ela é na verdade filha do sujeito e só queria se reencontrar com o pai.

Há também uma série de situações que beiram o humor pastelão, sem que a produção jamais tenha essa intenção, como tudo o que acontece com a família de Sia, a menina que deu a festa onde o namorado de Jenny foi morto (não vou contar para que os que se aventurarem sejam “surpreendidos”). Tudo é uma óbvia ferramenta para encher linguiça enquanto a “resolução” de tudo é despejada no espectador lá no último episódio sem a menor coerência lógica.

Por fim chegamos a Jenny, a adolescente que some e, como todos os outros personagens, toma sua parcela de decisões despidas de qualquer tipo de razão ou motivações justas. Sem dar spoilers, basta relembrarmos o que ela faz quando descobre certa informação e decide se esconder em determinado lugar porque “não saberia como falar com o próprio pai” acerca do assunto. Isso depois dela estar sumida já há três dias e ciente que sua vida está em perigo.

Safe é um desperdício de tempo e dinheiro imenso e jamais entenderei também porque a série é fotografada na razão de aspecto 16:9. Qual o motivo do tratamento cinematográfico a uma novelinha de baixo orçamento, cuja maioria dos planos não são nada grandiosos e – pior – sabendo que ela foi feita para ser exibida em telas pequenas? As cenas de ação, em especial as de lutas, são patéticas, apenas não tanto quanto o sotaque britânico forçado e inconstante de Michael C. Hall.

A “”””grande”””” reviravolta do final que não vou contar aqui (aliás, são duas, uma pior que a outra), não fazem o menor sentido, ainda mais quando a própria série relembra algumas das decisões dos envolvidos nessa “”””enorme”””” conspiração de crimes no tal condomínio fechado. Com um texto ralo, raso e repleto de furos, este drama é uma grande mancha na carreira de Michael C. Hall, que também assina como produtor executivo desta enorme bomba.

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